
04-WANDA CUNHA - A ensaísta e crítica literária Nelly Novaes Coelho, em “A Literatura Feminina No Brasil Contemporâneo” (1991), observou que “Entre os fenômenos mais significativos deste último quarto de século, no âmbito da Literatura e da Crítica, está sem dúvida a crescente importância que vem assumindo três áreas de criação literária que, tradicionalmente, eram ignoradas ou minimizadas pela cultura oficial.” Ela enumera: a literatura escrita pela mulher; a literatura destinada às crianças ou jovens e a literatura "negra”. Como tu olhas esse tripé na atual circunstância da Literatura Brasileira do Século XXI?
MHARIO LINCOLN - Primeiramente é ótimo quando alguém cita o livro "A Literatura Feminina No Brasil Contemporâneo" de Nelly Novaes Coelho. Posso garantir que é uma obra fundamental para compreender a produção literária das mulheres no contexto do século XXI, no Brasil, em análise abrangente e profunda da literatura feminina, explorando questões de gênero, identidade e representatividade.
Uma das frases que mais me marcou: "A literatura feminina contemporânea no Brasil revela vozes poderosas e multifacetadas, que reconfiguram os limites do discurso literário." Como se vê, é um reconhecimento público do poder das escritoras, em romper com os padrões estabelecidos e abrir novos caminhos na literatura.
Outro parágrafo significativo é: "A escrita feminina se destaca pela sensibilidade e pela capacidade de abordar temas universais sob uma perspectiva singular." Olha só que beleza ao ressaltar a singularidade das vozes femininas na literatura contemporânea brasileira e como elas trazem uma perspectiva única para questões que são relevantes para todos.
Destarte, no contexto do século XXI, em que as discussões sobre igualdade de gênero e representatividade estão cada vez mais presentes, esse livro se torna uma leitura indispensável, porque, por si só, já responde a essa parte da pergunta (Aliás, perguntas muito bem elaboradas. Obrigado Wanda por oportunizar expor minhas ideias).
Bom, no que diz respeito à literatura destinada a crianças e jovens, temos presenciado um florescimento de obras que dialogam com as experiências e os interesses dessa faixa etária. Esses livros abordam temas como diversidade, inclusão (aqui cito minha confreira APB, escritora Sharlene Serra e sua "Coleção Incluir"), as questões sociais e emocionais, contribuindo para a formação de leitores críticos e sensíveis desde cedo.
No que tange à literatura "negra", é importante ressaltar o papel fundamental que ela desempenha na representatividade e na valorização da cultura afro-brasileira. Autores e autoras, negros, têm trazido à tona muitas histórias, vivências e perspectivas que antes eram silenciadas ou ignoradas. Essa literatura tem contribuído para desconstruir estereótipos, ampliar horizontes e promover a valorização da diversidade étnica e cultural do país.
Para ilustrar, em 2020, o “New York Time” trouxe uma matéria interessantíssima em manchete: "OBRAS DE GRANDES ESCRITORES NEGROS ENTRAM PARA A LISTA DE MAIS VENDIDOS NO BRASIL. O fato inédito é considerado um avanço na luta antirracista e reúne nomes importantes da Literatura nacional e mundial".
Aliás, todo mundo deveria ler "Pequeno manual antirracista", da incrível Djamila Ribeiro. Outro livro que li e recomendo é "Racismo Estrutural", de Sílvio Almeida.
Peço permissão a nossa entrevistadora para transcrever um rápido parágrafo de Silvio Almeida, onde aprendi: "(...) embora haja relação entre os conceitos, o racismo difere do preconceito racial e da discriminação racial. O preconceito racial é o juízo baseado em estereótipos acerca de indivíduos que pertençam a um determinado grupo racializado, e que pode ou não resultar em práticas discriminatórias. Considerar negros violentos e inconfiáveis, judeus avarentos ou orientais "naturalmente" preparados para as ciências exatas são exemplos de preconceitos. A discriminação racial, por sua vez, é a atribuição de tratamento diferenciado a membros de grupos racialmente identificados (...)". Fundamental essa obra.
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