*Mhario Lincoln
Na minha visão anterior, pude analisar o livro “No Exílio com Gutemberg”, de forma desusual, mais poética, mais lírica, mais intimista. Vide em: https://www.facetubes.com.br/noticia/3090/como-eu-li-qno-exilio-com-gutembergq-do-escritor-e-poeta-augusto-cesar-maia.
Todavia, uma pessoa muito ligada a mim pediu-me para também avaliar o livro de Augusto César Maia, por um lado mais técnico, fazendo uma comparação entre “o autor e suas cidades”. Confesso que não faço resenha dessa maneira. Costumo analisar e transformar o que leio muito mais em sentimento, lembranças, conexões pessoais, do que com a forma ‘profissional de resenhar pura e gelidamente’ o texto.
Ocorre que pelo alinhavar de “No Exílio com Gutemberg”, esse, também exige uma avaliação não só intimista, a fim de que seus leitores possam viajar e entender a amplitude do que ali está escrito, com uma prosa expressiva, sim, contudo técnica também, pela forma como Maia desenvolveu sua lide, influenciada, acho eu, pela clássica forma de responder aos estímulos como narrador e vivenciador, ao mesmo tempo, da situação descrita.
A RELAÇÃO INTERIOR
A relação entre o poeta e a cidade de São Luís, como cidade-base, e como espaço físico e emocional, desempenhou um papel fundamental na formação do poeta, influenciando suas experiências, reflexões e expressões artísticas, alocadas nesse trabalho. Daí, aceitar a opinião do amigo. Mas tive que reler com outros olhos o livro de Maia.
Destarte, neste artigo, tento explorar a relação embrionária entre o poeta Augusto César Maia, e sua produção em prosa, onde desfilam, inclusive, amigos de infância, de colégio, de boemia, de carnaval, de administração pública e de amadurecimento.
Há explícitas linhas de um ambiente afetivo entre ele, os acontecimentos históricos, as vitórias e a reflexão sobre a cidade, onde suas raízes estão definitivamente arraigadas em sua memória, nuances essas que moldam boa parte da obra.
AMBIENTE AFETIVO
Augusto César Maia, nascido e criado no Maranhão, mergulha em suas memórias e experiências pessoais para construir a narrativa de "No Exílio com Gutemberg". A cidade em que o autor viveu, amou e sofreu amores de adolescência, torna-se o pano de fundo onde se desenrola sua prosa.
A cidade é representada como um ser vivo, com uma atmosfera única que influência as emoções e a criatividade do menino, do jovem e do homem. Maia descreve em suas histórias bem contadas: os cheiros, as cores e os sons que permeiam o ambiente urbano, criando uma conexão íntima entre a cidade e suas lembranças afetivas.
Assim, a mim me parece – esses escritos – serem pontos de observação, como uma luneta da alma, capaz de extrair significados mais profundos a partir da sua vivência. Augusto César Maia reflete sobre as contradições, as desigualdades e os desafios que a cidade apresentou ao longo da época de moradia. Sua prosa se torna um veículo para expressar não apenas um espaço físico-geográfico, mas uma metáfora dos dilemas e das aspirações suas, pessoais, e da sociedade a qual estava envolvido.
CONCLUSÃO
A relação entre a cidade, o ambiente afetivo da cidade, os amigos, os acontecimentos históricos, as vitórias, as reflexões e as raízes presas na memória, fizeram com que o poeta, cronista e escritor Augusto César Maia, revelasse, nessa obra, muita coisa interior dele.
Um dos detalhes que me levam a ratificar minha descoberta vem da escolha da palavra “exílio”, no título, fato revelador de uma teia complexa de influências e inspirações. Como em um diálogo contínuo, onde a cidade nutre o autor, enquanto ele, por sua vez, dá voz as suas ruas, praças e habitantes em sua narrativa. Nesse contexto, podemos citar poetas e escritores como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira, cujas obras também foram profundamente marcadas pelas cidades em que nasceram e escreveram sobre elas.
Desta forma, Augusto Maia, expande essa tradição ao saudar não só o Maranhão, mas todas as cidades em que viveu e conviveu, incluindo sua morada atual, o Rio de Janeiro. Posso afirmar, então, e tecnicamente, que a relação entre o autor e suas cidades continua a se reinventar trazendo à tona novas perspectivas e emocionantes conexões com o passado, o presente e com o futuro, sem a mínima sombra de dúvida.
Evoé, amigo Augusto César Maia. Aqui, sempre às ordens!
Curitiba, 17.06.2023
*Presidente da Academia Poética Brasileira.
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