Por Renata Barcellos (BarcellArtes)
Ao longo da história da educação brasileira (para quem a conhece) sabe que diversas reformas foram realizadas. Surgiram tentativas de repensar a educação ao longo do tempo. Mas, apesar de todas, observamos só pirar a qualidade de ensino e a falta de interesse pelas licenciaturas.
Segundo o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), “até 2040 o Brasil poderá ter uma carência de 235 mil professores de educação básica”. É alarmante essa informação! O estudo revela um crescente desinteresse, especialmente dos jovens, em seguir a carreira docente devido (sobretudo) ao baixíssimo salário e as condições do ambiente de trabalho.
Outro problema apontado pela pesquisa é a evasão. Nos dez anos, o percentual de estudantes que concluiu os cursos de licenciatura aumentou apenas 4,3%. Dessa forma, verificamos o envelhecimento dos profissionais. A saída por aposentadoria, o abandono... Ainda mais com a reforma da previdência. “Entre 2009 e 2021, o número de professores em início de carreira, com até 24 anos de idade, caiu de 116 mil para 67 mil, uma retração de 42,4%. Ao mesmo tempo, o percentual de docentes do ensino básico com 50 anos ou mais cresceu 109% no período”
De acordo com o exposto acima, os cursos de licenciatura precisam se reinventar. O magistério precisa ser atrativo. Todos devem se conscientizar de que para a formação em qualquer área de atuação é necessário capacitação, orientação de um profissional especialista. Nesse caso, um professor. Esta profissão nunca deixará de existir.
Não adianta implementar modelos externos do sistema educacional (como o Novo Ensino Médio) se a nossa realidade é distinta. Aqui, muitas vezes, professores sem capacitação, escolas sem o mínimo de infraestrutura, alimentação precária, problemas psicológicos dos alunos...
Outro fator: como formar professor sem contato real com a realidade? Sem ter orientações básicas nas disciplinas de licenciatura? Por exemplo, lidar com situações de violência, de Bullying, de assédio moral...
Os cursos de licenciatura precisam levar esses e outros fatores em consideração. A teoria precisa estar (cada vez mais) de “mãos dadas” com a prática. Uma das grandes questões é o fato de muitos professores pesquisadores das disciplinas de licenciatura nunca terem tido contato com a sala de aula ou já tiveram por um tempo há alguns anos (a realidade muda a cada ano). Como orientar os futuros professores se não estão na Educação Básica? Não vivenciam as agruras do quotidiano estressante de uma sala de aula lotada (mais de 40 alunos) e, muitas vezes, sem ventilador ao menos.
Bairros como a baixada onde (no verão) o calor é acima de 40 graus.
Desumano!!!
Apesar de tudo isso e de uma carga horária de 3 turnos (muitas vezes), o profissional comprometido ainda encontra tempo para capacitação, na medida do possível, como leitura de livros, palestras online ou presencial...
Mas sabemos que não há receita para um bom desempenho. Cada ano, turma... a realidade é diferente. Até a abordagem da ementa dada às datas comemorativas, aos fatos sociais ocorridos... É preciso adaptar-se! E isso não é tarefa fácil. É necessário ser atencioso, ter estratégias para sobreviver.
Para a retomada das atividades, início do segundo semestre do ano letivo, gostaríamos de deixar esta reflexão. A mudança urge não só dos cursos de licenciatura mas também de cada um de nós. De nos reinventarmos!!! Estarmos conectados com os fatos sociais ocorridos.
Apontarmos a relação com o conteúdo trabalhado. Por exemplo, é ano do Bicentenário de Gonçalves Dias. Muitas atividades estão sendo realizadas ao longo do ano de 2023. Quantas temáticas podemos abordar em diversas disciplinas? Exemplo: escravidão, discriminação racial, Icamiabas, exílio, indígenas...
Concluiremos esta breve reflexão com algumas sugestões de práticas pedagógicas realizadas por nós no Colégio Estadual José Leite Lopes.
(NAVE RJ):
Etapa 1: A atividade inicia com o contexto de Gonçalves Dias (documentários são exibidos como 150 anos https://www.youtube.com/watch?v=DfAZ2bWKpAU com a participação de Sebastião Duarte; e a Praça Gonçalves Dias https://www.youtube.com/watch?v=2HYU-NZ7tNc). E, em seguida, a projeção de Canção do exílio e as várias intertextualidades como de Carlos Drummond de Andrade, e de Murilo Mendes. E, por fim, outro gênero textual: o hino nacional para destacar a contribuição do poeta.
Etapa 2: A atividade é realizada na biblioteca da escola, com a colaboração da agente de leitura Patrícia Bastos, a turma é organizada em grupos (dupla ou trio). Antes da atividade, o autor é contextualizado. Cada estudante ganha um poema de Gonçalves Dias para intertextualizar ou retextualizar. Exemplos de intertextualidades: a partir do poema Canção do exílio de Gonçalves Dias: “Minha terra tem amores, / Os pássaros aqui
gorjeiam, / Pousam nas lindas flores, / Mas, em São Luís floreiam!”
E outra dos Timbiras de Gonçalves Dias: “Meu canto de desespero / Brasileiros, proferi / Sou filha da educação, /Na sala de aula, cresci”.
Etapa 3: Os alunos apresentam a retextualização do poema escolhido de Gonçalves Dias. Um exemplo foi a turma 3003/2023: um grupo (Renato, Isabela, João Pedro e Sophia) compôs uma música. Está disponível no fim da mesa-redonda em homenagem ao Bicentenário do autor:
https://www.youtube.com/watch?v=1QCeHvqEnVg.
Resultados: De forma lúdica, os alunos conhecem a vida e obra do poeta que, neste ano de 2023, completa seu bicentenário.
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