
Nota da ASCOM/APB: "Venho por meio desta (....) pedir encarecidamente que a senhora republique a matéria do colaborador Eloy Melonio, de São Luís do Maranhão, sua crônica de título UMA PRIMEIRA VEZ, pelo que, de já agradecemos (...). União Veterinária de Alagoas/SE". A nota foi encaminhada para a jornalista Orquídea Santos, Chefe da ASCOM, da Academia Poética Brasileira.
A PRIMEIRA VEZ
*Eloy Melonio
Antes de tudo, preciso avisar que esta história não é um conto, ou seja, não tem nada de ficcional, ainda que nós a imaginemos como se fosse um filme. Na verdade, é apenas uma história de amor: amor de rua, amor que nasce de um encontro casual, desses que nos deixam “sem chão”, como cantam os sertanejos. Mesmo que os amantes estejam brincando numa praça perto de suas casas, sob o olhar vigilante de outras pessoas.
Foi exatamente assim que Zuíla e Igor se cruzaram pela primeira vez. E uma forte paixão acelerou a batida de seus corações. Na mesma hora, lembrei-me de Romeu e Julieta. Porque o encontro de nosso casal protagonista foi parecido com o do famoso casal da ficção — rápido e ocasional. E que, mesmo assim, deixou uma pergunta no ar: será que vai haver uma segunda vez?
Encontros e desencontros são caminhos possíveis, já dizia Vinicius de Moraes, assim como olhares perdidos entre as pernas dos transeuntes. Direções opostas, ou mesmo uma pitada de frustração. Mas a química da paixão é exata, e a sua substância não se perde assim tão fácil.
Pois é, pena que esse encontro ficou só no olhar, numa atração levada pelo vento. Algo como um filme que acaba antes do fim. E, assim, o jeito era tentar ver a mesma cena uma segunda vez, prestando mais atenção às personagens e ao enredo.
O problema é que os apaixonados de nossa história eram muito jovens e andavam com acompanhantes. Tipo aquele pai ou mãe que exagera quando o assunto é cuidar dos filhos. E que, por isso mesmo, mantêm sua prole numa “coleira”, como se fossem cães erráticos.
Se o nosso roteiro tentar mesmo imitar o de “Romeu e Julieta”, essa paixão vai aumentar à medida que aumentarem os obstáculos. Então, para nós, espectadores, é esperar para ver. E crer que o amor vai prevalecer, e que o nosso casal romântico viverá momentos de intenso prazer.
Esse spoiler parece aceitável, porque o chão firme da praça continuava lá. E, se era mesmo uma paixão shakespeariana, não tinha como não acontecer.
Não deu outra: dois dias depois, nossos amiguinhos estavam no cenário da paixão novamente. Mas, dessa vez, numa situação mais favorável, frente a frente na mesma praça.
Não demorou, e a segunda cena começou. Aproximaram-se, trocaram olhares, abriram um sorrisinho tímido. E confirmaram que o “cheiro” do amor estava literalmente no ar. E os olhares dos poucos espectadores eram de dar inveja a qualquer cinéfilo. Sabe como é essa coisa da "primeira vez"?! E, nesse caso, tudo de acordo com o enredo imaginado pelas "mães", porque cada cena foi detalhadamente pensada por elas.
E, como se fossem diretoras de um filme, elas avaliavam cada gesto, cada toque. “Luz, câmera”. E, em seguida, a última ordem: "Ação!"
Para esse tipo de cena, as mães negociam, e os pais assinam o contrato. Porque envolve aspectos muito sensíveis. E tudo precisa se adequar à mais rígida etiqueta amorosa, porque o ritual da primeira vez exige cuidados especiais.
Lembra-se de Shakespeare? Pois é, infelizmente — imitando a arte do autor inglês — vieram as complicações.
Duas, para ser mais preciso: alguns desencontros e um tal de Cauã — um carinha mais simpático do que o Igor, mais ousado, e metido a dono do pedaço. Mas, felizmente, ficou só nisso. Zuíla já tinha feito a sua escolha. E porque — mesmo não sendo no fundo de um quintal — "o show tem que con-ti-nu-ar".
Daqui em diante, vamos deixar de lado a imaginação cinematográfica e pisar o palco da vida real: Zuíla é Zoey, uma poodle de dois anos, tamanho 1. Igor é Thor, da mesma raça e tamanho, um pouquinho mais velho. Ambos branquinhos e fofinhos.
As mães são as donas dos pets, que — entre um e outro encontro — combinavam hora e lugar, trocavam fotos dos pretendentes. Tudo pelo Zap, na mais romântica vibe desses tempos de redes sociais.
Acho que não preciso detalhar as fases seguintes. Thor e Zoey finalmente se acharam "no encontro das águas", como cantam os versos de Jorge Vercillo. E as mães zelosas cuidaram de todos os detalhes para o terceiro e definitivo momento.
Dia e hora acertados, e todos numa só expectativa. E aquele pedacinho da praça mais uma vez se encheu de uma paixão arrebatadora.
Neste ponto da história, vale ressaltar o cenário na canção de Ronnie Von (78 anos), no auge da Jovem Guarda: "a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim".
Enquanto isso, as donas e os espectadores — embevecidos — pareciam ouvir Zoey cantando a canção de Geraldo Azevedo: “Se você vier pro que der e vier/ comigo”. E a cumplicidade de Thor na continuação da música: “Eu lhe prometo o Sol/ Se o Sol sair/ Ou a chuva/ Se a chuva cair”.
Nesse enlevo romântico-musical, as mães não disfarçavam a ansiedade. E a love story do casalzinho — diferentemente da ficção — teve o happy end esperado. Eles se entenderam plenamente, e — alheios aos olhares indiscretos — ficaram ali, grudadinhos, sem saber se era manhã de sol ou tarde de chuva. Tudo sob a proteção das mães. Afinal, era a primeira vez.
Agora é aguardar a chegada dos petzinhos e fortalecer a tradição de que a praça — até que criem o pet motel — é esse espaço democrático onde circulam cães de estimação e seus melhores amigos.
E que o “poetinha”, mesmo lá de cima, reafirme sua concepção de que a vida é realmente "a arte do encontro".
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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