
Especiais: Edmilson Sanches
Como não deu certo a tentativa de erguer estátua no Morro do Alecrim, em Caxias (MA), há seis anos, umas tais “autoridades” -- “públicas”? “políticas”? “religiosas”? tudo isto junto? Quem sabe... – já “atacam” outro morro, o de Santo Antônio, no tradicional bairro Ponte, com estátua que gente especializada diz ter nada a ver com a Igreja de Santo Antônio ali existente há muuuuuuito tempo -- e, pior, estaria havendo flagrante desrespeito à Lei Estadual nº 2.063/2013, que "dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Caxias". Mas, como diz o caboclo, quando certas “otoridades” municipais e estaduais se “acoloiam”, leis não devem ser cumpridas, executadas, mesmo que seja obrigação, sob pena de crime de responsabilidade, do tal Poder... Executivo. A Lei federal que dispõe sobre a responsabilidade de um Prefeitos (por não cumprir a Lei) e de Vereadores (por não fiscalizar, denunciar, criar Comissão Parlamentar de Inquérito e representar no Ministério Público) é o Decreto-Lei federal Nº 201, em plena vigência).
Gentes políticas já tiraram proveito -- vivem de outra coisa? -- e fizeram malfeitos vídeos mostrando as partes da estátua, quedadas no chão, antes de seu erguimento, revelando da escultura seu interior oco, tão vazio quanto as palavras oportunistas daquele momento.
Caxias!... Caxias!... Onde até as pedras morrem...
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Era setembro, há seis anos...
Na cidade maranhense de Caxias, "sem cuja História não há História do Brasil", foi apresentado há alguns anos projeto para construção e colocação de uma grande estátua de uma santa no Morro do Alecrim (o antigo Morro das Tabocas).
O Morro do Alecrim, como se sabe, tem um valor histórico de dimensões nacionais, para dizer o mínimo. Está ligado -- para se anotar aqui de forma sintética -- às lutas pela independência do Brasil e contra o jugo português e, também, está ligado à chamada guerra ou revolta da Balaiada, tão importante que, mais que temas de incontáveis livros de História, virou -- o nome -- verbete de acreditados dicionários.
Pois bem: a colocação da estátua no já muito urbanizado e antropizado Morro, além do potencial de turismo religioso que poderia advir, contribuiria para a descaracterização daquele sítio histórico -- sítio que é legalmente demarcado por Lei estadual e História que não pode assim de repente sofrer interferência, exceto se obedecidas as Leis municipais caxienses, como a Lei nº 2.063/2013, que "dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Caxias".
Fontes da Igreja asseguravam que a decisão era prego batido e ponta virada: já não cabia mais discussão e a estátua iria ser erigida mesmo lá no morro. E ponto.
Aquelas partes não construídas do Morro do Alecrim, próximas onde está o conhecido "quartel do Duque de Caxias", deveriam ser consideradas "area non aedificandi", espaço vetado a construções. A estátua ocuparia um dos últimos espaços e (inter)feriria na vista, no paisagismo, no olhar que se tem de Caxias lá do alto de seu principal acidente geográfico-geológico e histórico.
Claro que, para essa intervenção religiosa no Morro do Alecrim, deveria haver as burocráticas autorizações do Poder Executivo municipal e quiçá estadual. Estas deveriam ser precedidas de exames, análises de impacto (histórico, cultural, ambiental e até geológico -- diziam que estavam procurando um geólogo para "assinar" um documento...).
Ou seja: para (inter)ferirem no Morro, os responsáveis teriam de ter o "nihil obstat" da Prefeitura. E como até placa de empreendimento no Morro, assinada pela prefeitura, já antecipava a futura estátua, parecia que "estava tudo dominado" -- exceto, como disse uma autoridade religiosa (das maiores de Caxias), se a Justiça entrasse, literalmente, na História.
Tinha muita coisa mais sobre esse assunto -- e muito caroço nesse angu de interesses...
Enquanto se maquinavam “coisas” contra a historicidade do Morro, alguns escritores se reuniram e, por solicitação do professor e poeta Carvalho Junior, elaboraram textos poéticos de "resistência à ameaça de descaracterização do Morro do Alecrim". Os textos tornaram-se verdadeiros “pièces de résistance”, versos, palavras uivando noite e dia no Morro e na cidade pelas pedras que, até elas, poderiam morrer... O Alecrim poderia vir a ser o novo “morro dos versos uivantes” -- pedindo licença à jovem romancista britânica Emily Brontë, da primeira metade do século 19, que, aos 29 anos, em 1847 (um ano antes de sua morte, em dezembro de 1848), publicou o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes”.
Fui convidado para ser o quinto mosqueteiro. Era setembro de 2017. Juntei-me a Carvalho Junior, Isaac Sousa, Jorge Bastiani e Joaquim Vilanova Assuncao Neto. Os poemas, coletivamente, e o meu, isoladamente, ganharam espaços virtuais e consciências virtuosas.
Por uma razão ou outra, até onde se sabe, decorridos dois anos [em 2023, seis anos], o negócio aquietou, nenhuma autoridade falou ou fez mais nada em relação à ereção (!) da estátua e criação de um santuário no Morro do Alecrim.
Se desaparecerem mesmo o Patrimônio e a História de Caxias -- que estão desmoronando por toda a cidade --, no mínimo restarão para o Futuro os versos que, como lobos, uivam no alto do morro para a Lua mais alta ainda. É a típica figuração para idealistas: pode até estar no alto, inacessível, mas fazem a sua parte, não deixam que a realidade exterior mude uma verdade interior.
Se o Morro do Alecrim for descaracterizado mais ainda, não se terá dificuldade para saber, à maneira de Hemingway, por quem os sinos dobram...
Que o Morro do Alecrim não seja lembrado apenas por versos que uivam...
EDMILSON SANCHES
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A TERCEIRA “GUERRA” DO ALECRIM
“Ímpios sem crença, e precisando tê-la,
Assentastes um ídolo doirado
Em pedestal de movediça areia;
Uma estátua incensastes [...]
Da política, sórdida manceba “
(Gonçalves Dias, “À Desordem de Caxias”, IV,
in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 551,
Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959)
* * *
E eis que lá no alto do Morro trava-se nova batalha
-- não é mais Alecrim, Duque, nem é contra Fidié:
é luta por causa histórica, onde a verdade assoalha
para o Morro não deixar de ser a Memória que é.
Esse Morro onde habita a História sem fim
e também onde o poeta sua musa canta
pode não mais ser nosso Morro do Alecrim
para ser -- e muito mais -- “o morro da santa”.
Querem (im)por uma estátua no alto do Morro do Alecrim,
onde a escultura é desnecessária, quiçá conflituosa.
Há opções de valia -- entre elas o Morro do Barata, sim,
onde, com Fé, renderemos graças à Maria Virtuosa.
Filhos da terra que dizem respeitar a História,
detentores transitivos do volátil Poder,
abusam da condição, desrespeitam a Memória,
louvam a si mesmos por trás da Santa enaltecer.
Estátua, substantivo sem vida nem rima.
Colocá-la bem no Alecrim é turbação.
À essa obra no alto do Morro, lá em cima,
a Santa pede e quer contrição, oração.
Pois é no interior de cada um que se constrói a devoção
e se a confirma na Fé, no Trabalho, no Amor, na luta contra o Mal,
com decência suprindo o povo carente não só de fé, mas de pão
acompanhado de boas doses de ética, fraternidade, moral.
O próprio Deus escolheu o íntimo do ser humano como templo
quando poderia, fácil, por outros meios fazer-se representar.
E certos humanos, incrédulos, desapegados desse exemplo,
o que fazem para a Deus -- na verdade, a si mesmos, ímpios -- louvar?
Em sítio histórico de Caxias quer-se erguer estátua religiosa;
fazer estátua não só porque os feitores tenham fé, convicção ou crença:
quer-se fazer estátua porque estão, breves, no Poder – coisa perigosa –,
senão teriam construído com humildade, sem alarde ou desavença.
Se têm contas a prestar com a Santa,
se co’ ela têm promessas a pagar,
por que, humildes, como quem ora e canta,
não fazem a estátua em outro lugar?
Digam: Por que foram mexer logo com a Virgem Santa?
Por que assumiu a obra e depois sumiu o Público Poder?
Porque quem tem fé sabe que à Fé incomoda e espanta
o fazer questão de anunciar ao mundo o seu fazer.
Receberam uma dádiva -- dinheiro, poder, vitória, eleição --
e, cumpridores, querem agradecer com uma o que a outra mão pediu?
Então, munam-se, assim, de reserva, recato, humildade, contrição,
e não se preocupem se todo mundo no mundo todo vê, ou viu.
Pague-se sua promessa sem excessos, ou soberbia, com discrição,
--- pois santo que é santo não precisa de alto-falante para sê-lo.
A Santa, sobretudo porque virginal, materna, estenderá a mão
e grata ficará pela prudência, contenção, amor, fé e zelo.
Basta de revolverem-se as pedras do Morro e sua memória;
cada uma delas é um patrimônio que é nosso, que é seu.
Diz o Poeta: “Cada pedra que i* jaz encerra a história”,
história valente, corajosa, “dum bravo que morreu”.**
Nessas pedras há sangue, há dor, há ideal e há liberdade,
e essa luta, só o Morro do Alecrim deve ser o lugar dela.
Assim, por que soterrar mais ainda a História, quando, de verdade,
há outros lugares para a santa escultura e o que vier com ela?
O caxiense Teixeira Mendes, a partir do Rio de Janeiro,
iniciou uma luta, fez a lei e finalmente conseguiu
separar Igreja de estado -- pois a Fé, valor verdadeiro,
não deve ser obrigação constitucional no Brasil.
Mas o que um caxiense faz para todo o País outros desfazem em casa.
De modo exposto ou escondido, verbo e verba em variados expedientes,
interesses pessoais são mantidos, decisões e descaso ganham asa
...e História e Patrimônio caxienses -- sim, ruindo -- cada vez mais doentes.
Depois de portugueses e balaios,
que “mato” e “morro” não tornem a verbos
nesta terceira “guerra” do Alecrim;
que sejam o que são: só Natureza
e História, ambas com seu espaço e beleza,
cumprindo em Caxias seu elevado fim.
"Sine ira et studio."
EDMILSON SANCHES
Caxiense.
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(*) O mesmo que aí.
(**) “Cada pedra que i jaz encerra a história” e “dum bravo que morreu” são respectivamente o terceiro e o quarto versos da segunda estrofe da primeira parte do poema “Morro do Alecrim”, de Gonçalves Dias (in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 527, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959).
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