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O MORRO DOS VERSOS UIVANTES/ A TERCEIRA “GUERRA” DO ALECRIM

Edmilson Sanches é convidado da Academia Poética Brasileira.

01/08/2023 às 09h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Especiais: Edmilson Sanches

 

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Como não deu certo a tentativa de erguer estátua no Morro do Alecrim, em Caxias (MA), há seis anos, umas tais “autoridades”  -- “públicas”? “políticas”? “religiosas”? tudo isto junto? Quem sabe... – já “atacam” outro morro, o de Santo Antônio, no tradicional bairro Ponte, com estátua que gente especializada diz ter nada a ver com a Igreja de Santo Antônio ali existente há muuuuuuito tempo  --  e, pior, estaria havendo flagrante desrespeito à Lei Estadual nº 2.063/2013, que "dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Caxias". Mas, como diz o caboclo, quando certas “otoridades” municipais e estaduais se “acoloiam”, leis não devem ser cumpridas, executadas, mesmo que seja obrigação, sob pena de crime de responsabilidade, do tal Poder... Executivo. A Lei federal que dispõe sobre a responsabilidade de um Prefeitos (por não cumprir a Lei) e de Vereadores (por não fiscalizar, denunciar, criar Comissão Parlamentar de Inquérito e representar no Ministério Público) é o Decreto-Lei federal Nº 201, em plena vigência).

 

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Gentes políticas já tiraram proveito  -- vivem de outra coisa? --  e fizeram malfeitos vídeos mostrando as partes da estátua, quedadas no chão, antes de seu erguimento, revelando da escultura seu interior oco, tão vazio quanto as palavras oportunistas daquele momento.

 

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Caxias!... Caxias!... Onde até as pedras morrem...

 

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Era setembro, há seis anos...

 

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Na cidade maranhense de Caxias, "sem cuja História não há História do Brasil", foi apresentado há alguns anos projeto para construção e colocação de uma grande estátua de uma santa no Morro do Alecrim (o antigo Morro das Tabocas).

 

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O Morro do Alecrim, como se sabe, tem um valor histórico de dimensões nacionais, para dizer o mínimo. Está ligado -- para se anotar aqui de forma sintética -- às lutas pela independência do Brasil e contra o jugo português e, também, está ligado à chamada guerra ou revolta da Balaiada, tão importante que, mais que temas de incontáveis livros de História, virou -- o nome -- verbete de acreditados dicionários.

 

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Pois bem: a colocação da estátua no já muito urbanizado e antropizado Morro, além do potencial de turismo religioso que poderia advir, contribuiria para a descaracterização daquele sítio histórico -- sítio que é legalmente demarcado por Lei estadual e História que não pode assim de repente sofrer interferência, exceto se obedecidas as Leis municipais caxienses, como a Lei nº 2.063/2013, que "dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Caxias".

 

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Fontes da Igreja asseguravam que a decisão era prego batido e ponta virada: já não cabia mais discussão e a estátua iria ser erigida mesmo lá no morro. E ponto.

 

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Aquelas partes não construídas do Morro do Alecrim, próximas onde está o conhecido "quartel do Duque de Caxias", deveriam ser consideradas "area non aedificandi", espaço vetado a construções. A estátua ocuparia um dos últimos espaços e (inter)feriria na vista, no paisagismo, no olhar que se tem de Caxias lá do alto de seu principal acidente geográfico-geológico e histórico.

 

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Claro que, para essa intervenção religiosa no Morro do Alecrim, deveria haver as burocráticas autorizações do Poder Executivo municipal e quiçá estadual. Estas deveriam ser precedidas de exames, análises de impacto (histórico, cultural, ambiental e até geológico -- diziam que estavam procurando um geólogo para "assinar" um documento...).

 

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Ou seja: para (inter)ferirem no Morro, os responsáveis teriam de ter o "nihil obstat" da Prefeitura. E como até placa de empreendimento no Morro, assinada pela prefeitura, já antecipava a futura estátua, parecia que "estava tudo dominado" -- exceto, como disse uma autoridade religiosa (das maiores de Caxias), se a Justiça entrasse, literalmente, na História.

 

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Tinha muita coisa mais sobre esse assunto  --  e muito caroço nesse angu de interesses...

 

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Enquanto se maquinavam “coisas” contra a historicidade do Morro, alguns escritores se reuniram e, por solicitação do professor e poeta Carvalho Junior, elaboraram textos poéticos de "resistência à ameaça de descaracterização do Morro do Alecrim". Os textos tornaram-se verdadeiros “pièces de résistance”, versos, palavras uivando noite e dia no Morro e na cidade pelas pedras que, até elas, poderiam morrer... O Alecrim poderia vir a ser o novo “morro dos versos uivantes”  -- pedindo licença à jovem romancista britânica Emily Brontë, da primeira metade do século 19, que, aos 29 anos, em 1847 (um ano antes de sua morte, em dezembro de 1848), publicou o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes”. 

 

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Fui convidado para ser o quinto mosqueteiro. Era setembro de 2017. Juntei-me a Carvalho Junior, Isaac Sousa, Jorge Bastiani e Joaquim Vilanova Assuncao Neto. Os poemas, coletivamente, e o meu, isoladamente, ganharam espaços virtuais e consciências virtuosas.

 

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Por uma razão ou outra, até onde se sabe, decorridos dois anos [em 2023, seis anos], o negócio aquietou, nenhuma autoridade falou ou fez mais nada em relação à ereção (!) da estátua e criação de um santuário no Morro do Alecrim.

 

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Se desaparecerem mesmo o Patrimônio e a História de Caxias  -- que estão desmoronando por toda a cidade --, no mínimo restarão para o Futuro os versos que, como lobos, uivam no alto do morro para a Lua mais alta ainda. É a típica figuração para idealistas: pode até estar no alto, inacessível, mas fazem a sua parte, não deixam que a realidade exterior mude uma verdade interior.

 

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Se o Morro do Alecrim for descaracterizado mais ainda, não se terá dificuldade para saber, à maneira de Hemingway, por quem os sinos dobram...

 

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Que o Morro do Alecrim não seja lembrado apenas por versos que uivam...

 

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EDMILSON SANCHES 

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A TERCEIRA “GUERRA” DO ALECRIM

 

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“Ímpios sem crença, e precisando tê-la,

Assentastes um ídolo doirado

Em pedestal de movediça areia;

Uma estátua incensastes [...]

Da política, sórdida manceba “

(Gonçalves Dias, “À Desordem de Caxias”, IV, 

in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 551,

Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959)

* * *

 

E eis que lá no alto do Morro trava-se nova batalha

-- não é mais Alecrim, Duque, nem é contra Fidié: 

é luta por causa histórica, onde a verdade assoalha

para o Morro não deixar de ser a Memória que é.

 

Esse Morro onde habita a História sem fim

e também onde o poeta sua musa canta

pode não mais ser nosso Morro do Alecrim

para ser -- e muito mais -- “o morro da santa”.

 

Querem (im)por uma estátua no alto do Morro do Alecrim,

onde a escultura é desnecessária, quiçá conflituosa.

Há opções de valia -- entre elas o Morro do Barata, sim,

onde, com Fé, renderemos graças à Maria Virtuosa.

 

Filhos da terra que dizem respeitar a História,

detentores transitivos do volátil Poder,

abusam da condição, desrespeitam a Memória,

louvam a si mesmos por trás da Santa enaltecer.

 

Estátua, substantivo sem vida nem rima.

Colocá-la bem no Alecrim é turbação.

À essa obra no alto do Morro, lá em cima,

a Santa pede e quer contrição, oração.

 

Pois é no interior de cada um que se constrói a devoção

e se a confirma na Fé, no Trabalho, no Amor, na luta contra o Mal,

com decência suprindo o povo carente não só de fé, mas de pão

acompanhado de boas doses de ética, fraternidade, moral.

 

O próprio Deus escolheu o íntimo do ser humano como templo

quando poderia, fácil, por outros meios fazer-se representar.

E certos humanos, incrédulos, desapegados desse exemplo,

o que fazem para a Deus -- na verdade, a si mesmos, ímpios -- louvar?

 

Em sítio histórico de Caxias quer-se erguer estátua religiosa;

fazer estátua não só porque os feitores tenham fé, convicção ou crença:

quer-se fazer estátua porque estão, breves, no Poder – coisa perigosa –,

senão teriam construído com humildade, sem alarde ou desavença.

 

Se têm contas a prestar com a Santa,

se co’ ela têm promessas a pagar,

por que, humildes, como quem ora e canta,

não fazem a estátua em outro lugar?

 

Digam: Por que foram mexer logo com a Virgem Santa?

Por que assumiu a obra e depois sumiu o Público Poder? 

Porque quem tem fé sabe que à Fé incomoda e espanta

o fazer questão de anunciar ao mundo o seu fazer.

 

Receberam uma dádiva -- dinheiro, poder, vitória, eleição --

e, cumpridores, querem agradecer com uma o que a outra mão pediu?

Então, munam-se, assim, de reserva, recato, humildade, contrição,

e não se preocupem se todo mundo no mundo todo vê, ou viu.

 

Pague-se sua promessa sem excessos, ou soberbia, com discrição,

--- pois santo que é santo não precisa de alto-falante para sê-lo.

A Santa, sobretudo porque virginal, materna, estenderá a mão

e grata ficará pela prudência, contenção, amor, fé e zelo.

 

Basta de revolverem-se as pedras do Morro e sua memória;

cada uma delas é um patrimônio que é nosso, que é seu.

Diz o Poeta: “Cada pedra que i* jaz encerra a história”,

história valente, corajosa, “dum bravo que morreu”.**

 

Nessas pedras há sangue, há dor, há ideal e há liberdade,

e essa luta, só o Morro do Alecrim deve ser o lugar dela.

Assim, por que soterrar mais ainda a História, quando, de verdade,

há outros lugares para a santa escultura e o que vier com ela?

 

O caxiense Teixeira Mendes, a partir do Rio de Janeiro,

iniciou uma luta, fez a lei e finalmente conseguiu

separar Igreja de estado -- pois a Fé, valor verdadeiro,

não deve ser obrigação constitucional no Brasil.

 

Mas o que um caxiense faz para todo o País outros desfazem em casa.

De modo exposto ou escondido, verbo e verba em variados expedientes,

interesses pessoais são mantidos, decisões e descaso ganham asa

...e História e Patrimônio caxienses -- sim, ruindo -- cada vez mais doentes.

 

Depois de portugueses e balaios,

que “mato” e “morro” não tornem a verbos

nesta terceira “guerra” do Alecrim;

que sejam o que são: só Natureza

e História, ambas com seu espaço e beleza,

cumprindo em Caxias seu elevado fim.

 

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"Sine ira et studio."

EDMILSON SANCHES

Caxiense.

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[email protected]

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(*) O mesmo que aí.

(**) “Cada pedra que i jaz encerra a história” e “dum bravo que morreu” são respectivamente o terceiro e o quarto versos da segunda estrofe da primeira parte do poema “Morro do Alecrim”, de Gonçalves Dias (in Poesia Completa e Prosa Escolhida, p. 527, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959).

 

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JAIME Há 3 anos BSB/DFParabéns pelo primor de crônica.
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Edmilson Sanches
Sobre o blog/coluna
Edmilson Sanches é um dos intelectuais brasileiros mais aplaudidos em diversas áreas da literatura contemporânea. É jornalista, consultor, palestrante, editor, bacharel em administração pública e licenciado em letras.
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