A OBRA DE MHARIO LINCOLN SOBRE A ESSÊNCIA DE GONÇALVES DIAS
*João Batista do Lago, jornalista, poeta, resenhista e analista politico.
Eu acabo de receber do meu amigo, Mhario Lincoln um texto belíssimo: “Lírica Adjutória – Considerações sobre a Essência Introspectiva da Poesia de Gonçalves Dias”. Gostaria de começar afirmando uma coisa que é que o Mhario começou muito bem, porque ao falar do romantismo brasileiro ou do romantismo francês ou do romantismo americano, enfim, de qualquer desses, se não se reverenciar o romantismo alemão, a gente estaria incorrendo num erro da historicidade, ao analisar essa questão do romântico. E no caso brasileiro, eu concordo muito com o Mhario, porque os autores brasileiros se basearam muito no romantismo alemão.
O Gonçalves Dias, por exemplo, era assíduo leitor do Goethe e leu toda a obra de Goethe, mesmo porque pouca gente sabe disso. Depois que Dias foi estudar em Portugal, ele estudou mais e passou a ler e falar fluentemente o alemão. E não sei porque os historiógrafos não incorporaram essa informação como uma coisa de proa na historicidade do Gonçalves Dias. Mas, voltando para o texto do Mhario Lincoln. quando Mhario começa sua tese de que o romantismo passa por uma situação "lírica-adjutória", imediatamente tal assertive se ancora na poesia de Goethe, que foi, talvez, a expressão máxima do romantismo alemão, e cita um poema chamado "Mar Calmo", um raríssimo poema curto desse romântico germânico. E o Mhario Lincoln pega este poema, se utilizando apenas da segunda estrofe, para contextualizar essa brilhante tese. Leiamos o poema:
"A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta,
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta".
Como se vê, Mhario se baseia na segunda estrofe. Então, "A onda, que dorme quieta, não espuma; O astro, que sonha plácido, não canta". E pergunta o Mhario, no artigo, diz: diante dessas estrofes "(...) será exagero atribuir a consciência subjacente a estes versos permissões poéticas que transcendam o habitual eu romântico?(...)". Esses podem transmitir também a importância da serenidade e equilíbrio emocional, ressaltando a necessidade de que tais atributos levem a alcançar a paz interior, e nestes, e em todo vasto mar, em parte alguma, a mais pequena vaga se levanta. Não se poderia associar a placidez do mar com a serenidade mental e a habilidade de encarar desafios com mais equanimidade e harmonia, à luz destas interpretações? Permito -me, diz o Mário no artigo, percorrer os caminhos da poesia romântica em uma jornada de autorreflexão, indo além dos amores e das paixões, rumo a um território de introspecção linguística e racional.
Pois bem, o que quer dizer o Mhario, o que quer destacar o Mhario, e eu concordo cem por cento, é sair da casinha, da mesmice, de não ficar repetindo os mesmos conceitos líricos sobre o lirismo do Gonçalves Dias, a lírica, a lírica, a lírica... e só ficamos nisso e não passamos disso. Ai, o Mhario Lincoln nos leva a refletir sobre isso. Ou seja, ele está tentando trazer para o debate, para a mesa de debate, para o campo do debate, uma nova visão. Eu diria até que ele vai buscar outras vertentes para mergulhar em uma outra visão, uma outra reflexão, que não só a reflexão academicista, porque tanto na obra do Gonçalves Dias, quanto na obra do Goethe, a gente encontra essas puxadas, essa porta de saída para uma análise livre. E o Walter Benjamin, também germânico, escreveu muitas vezes a respeito disso, cuja teoria “influenciou as formas de se ver e se enxergar a sociedade, a política, a ciência e a arte” e aí, Mhario Lincoln também foi beber nessa fonte.
Nesse caso do Benjamin, Mhario interpreta a poesia de Goethe e Dias dentro das características originais de uma chamada autoindústria cultural, não aquela da industrialização de livros físicos, não! Eu e Mhario concordamos que há uma outra concepção de indústria cultural, a que é nossa. Uma indústria cultural que mexe, inclusive, com a subjetividade de todos nós, com a subjetividade do leitor, com a subjetividade do poeta, com a subjetividade do romancista, com a subjetividade do historiador, com a subjetividade do crítico. Bem diferente das outras produções (manifestações culturais) que ficam trabalhando a mesmice. Nós precisamos acabar com essa indústria do culturalismo. Eu acho que aqui é que o Mhario Lincoln vem trazendo, neste seu artigo, esse debate que eu acho de extrema oportunidade.
Mhario acertou na mosca quando alude Dias e Goeth e muitos da escola romancista mundial, como autores que "transcenderam o amor para instigar uma reflexão pessoal no leitor". Isso, minha gente, não tem nada a ver com essa literatura, que eu chamo literatura burra, de ajuda pessoal. Ao contrário, o que o Mario está querendo inferir aqui, é mostrar que nós podemos ir muito além nessa reflexão e não ficar apenas na reflexão academicista. No meio do texto, Mhario entra na seara propriamente dita, tratando, inclusive, sobre essa questão dos 200 anos do bicentenário de nascimento gonçalvino. Diz: "(...) em Gonçalves Dias, além do romantismo propriamente dito, há inserções primorosas sobre a liberdade e heroísmo, inclusive elementos que desafiam normas sociais e encorajam a análise dos valores e crenças individuais".
Vale chamar a atenção, aqui, para um outro aspecto que o Mhario fala ao se referir num (possível) diálogo entre o Goethe e o Gonçalves Dias. E esse diálogo a gente poderia falar sobre cenas que ambos os poetas se referem. Por exemplo, essa conexão com a natureza e com o emocional em 'Fausto', tanto em 'Fausto' quanto em 'Canção do Exílio'. A natureza é retratada como um espaço que reflete os sentimentos e emoções dos personagens.
Ora, gente, isso é uma verdade. E como não? Por exemplo, em 'Fausto', na cena em que o personagem se encontra na natureza e se sente parte dela, buscando uma união com o ambiente natural, é um imenso exemplo. Da mesma maneira, quando o Gonçalves Dias, em 'Canção do Exílio', faz a exaltação das belezas naturais de sua cidade, na época, como as palmeiras e o canto das aves. Em ambas as situações, há, sim, uma reflexão profunda e uma ligação emocional do autor com a sua terra natal e com a natureza que compõe o cenário. Em ambos exemplos, há uma busca humana por significados, por conhecimento e por realização pessoal dos autores. E aqui tem muita razão o Mhario porque essa busca do Gonçalves Dias é uma busca emocional. Ela não é somente lírica, não. Ela é uma busca emocional, repito. Desta forma eu digo que Mhario Lincoln, neste primoroso texto - "Lírica Adjutória" - abre a porta para uma análise psicológica também. Essa conexão com o emocional, refletindo numa busca, como se fosse uma busca universal, querendo pertencimento, querendo dar significado a toda essa questão. Mas, um aviso. A gente tem que lê-lo, como o próprio Mhario pede aqui no seu artigo, com "a cabeça aberta". E eu digo. Limpe-se!
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Para ler a íntegra do texto de Mhario Lincoln, basta clicar no link: https://www.facetubes.com.br/noticia/4217/lirica-adjutoria-reflexoes-intimas-reveladas-dentro-da-poetica-de-goncalves-dias
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