Quarta, 02 de Setembro de 2026 05:08
(xx) xxxxx-xxxx
Cidades CRONISTAS

De Eloy Melonio: "UM CAMINHO, DOIS OLHARES"

Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.

10/08/2023 11h44 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
Eloy Melonio
Eloy Melonio

*Eloy Melonio

 

São 6h25 de uma manhã que prenuncia um sábado claro e quente. Trajo bermuda, camisa de malha e sandálias havaianas. E me visto com um leve arrepio para percorrer o trecho até a padaria do Ferreira, que fica num conjunto residencial a vinte minutos do meu. Sim, faço caminhadas toda semana, mas devidamente equipado. E nunca aos sábados.

Continua após a publicidade

Desço a rua da minha casa e logo cruzo a fronteira do Parque Shalom. Passo na frente dos condomínios Barcelona e Turim e avisto a subida da Avenida Principal do Cohajap.

A primeira pessoa que vejo é um idoso numa bicicleta velha. Por causa da subida, ele desce da bike (bicicleta velha é bike?) e passa a empurrá-la. Mais adiante, para na frente de uma casa e encosta o veículo na calçada. Na garupa, uma caixa de papelão guarda duas garrafas com um líquido da cor de vinagre de maçã. Pergunto-lhe o que elas contêm. "Cachaça da terra", responde. E me oferece uma garrafa, pois a outra já estava encomendada. Recuso a oferta porque meu foco no momento é derivado de trigo.

Ainda no Cohajap, sigo até o cruzamento com outra avenida, também Principal (esquisito, não?!). Neste ponto, à minha direita, a Associação dos Moradores. E, aqui, a exuberância da natureza: amendoeiras gigantes separam a associação da rua. Juro que nunca as tinha percebido como agora. Contorno a rua e me deparo com uma ladeirinha que abre o caminho para outra rua. Logo na esquina, uma escola particular do ensino fundamental. 

Na entrada dessa escola, três homens falam alto. Um deles, recém-chegado, solta a voz em tom de desafio: "Quero ver alguém chegar aqui mais cedo do que eu!". Com respiração branda, gravo a cena na minha memória.

Sigo o meu roteiro. A rua, agora reta e nivelada, está vazia. Nem uma alma para se dar bom-dia. Passo na frente da casa de Seu Elias, um "homem de Deus" que não vejo há anos ― um irmão dos meus tempos na Igreja Batista Vale do Jordão, no Parque Atenas. Foi meu primeiro revisor quando eu escrevia "A verdade que liberta" (1999), livro de cunho evangelístico. Uma de suas lições sempre ressurge quando escrevo. "Você come Mateus e quem mais?", brincava. Não aceitava "como" antes de um nome próprio. Não porque fosse um deslize gramatical, mas por sua cacofonia. Quando leio algo assim, tenho vontade de orar pelo escritor desavisado. 

A padaria está a um quarteirão daqui. Nem o pulmão nem as pernas esboçam algum tipo de desconforto. Ôpa! Estou na linha de chegada. Só mais alguns passos e... Entro e saúdo o dono do estabelecimento: “E aí, Ferreira!” Sempre gentil, ele responde: "Oi, bom dia, irmão!"

Continua após a publicidade

“Irmão?! Sim, por que não?” (Minha esposa não acredita, mas, às vezes, eu converso comigo mesmo).

Peço ao balconista o manjar do meu café da manhã: dois bolinhos de tapioca com erva-doce (Hummmm), três pães de queijo e uma fatia de bolo de macaxeira. Enquanto me dirijo ao caixa, cantarolo a música do carioca Latino: "Hoje é festa lá no meu apê".

Saio da padaria e dou de cara com o Sol, ainda tímido, mas já incomodando a Lua, que está encerrando seu expediente. Dá até pena vê-la pálida, ofuscada pelos raios do rei. Mas não posso alimentar essa discussão porque ambos abrigam versos da minha lavra poética, com uma leve vantagem para a Lua, mais atraente aos olhos dos poetas.

As almas vivas ainda não deram as caras na rua. Preparo-me para o caminho de volta, seguindo o mesmo roteiro. "Mas não o mesmo cenário!", aviso-me a mim, navegante solitário neste mar de surpresas. Diante da casa do irmão Elias, certa reverência atiça palavras carinhosamente silenciosas. Um "que-Deus-o-guarde" se ensaia entre meus lábios. Mas o que vale é o sentimento, não é mesmo?

Ainda nessa rua, uma moça vestida de bata branca sai de sua casa. O motoboy que a espera lhe entrega um capacete, e ela monta na garupa da Honda 150. E seguem rua abaixo, provavelmente para algum hospital ou clínica.

Na porta da escola, reencontro o orgulhoso empregado que chega antes do horário. Faço questão de cumprimentá-lo. Puxo conversa e lhe digo que ouvi o que falavam alguns minutos antes. Ele me diz o seu nome e que é um dos vigias da escola. E que, honestamente, nunca faltou nem chegou atrasado “ao serviço”. Deixo clara a minha admiração por seu compromisso com sua dignidade e com o seu trabalho.

Continua após a publicidade

De um ponto elevado, aprecio o outro lado da associação dos moradores. O gramado do campo de futebol mais verdinho do que o verde da Bandeira Nacional. E as palmeiras de babaçu oferecem abrigo aos periquitos jandaias, sabiás, bem-te-vis. E, no ar, imagino o bailado dos versos da Canção do Exílio.

Chego à Avenida Principal do Cohajap, e uma descida me saúda com intimidade. O homem da bicicleta se despede do cliente, um senhor de uns oitenta anos que segura o par de garrafas. Uma cena que lembra Ayrton Senna, quando erguia a taça de vencedor nas corridas de Fórmula 1.

Mais abaixo, uma tubulação de esgoto vomita sujeira que escorre de um lado ao outro da avenida, exigindo de mim mais cuidado porque calço sandálias. Esse bueiro é um velho conhecido da vizinhança e um desprezado pelas autoridades sanitárias. 

Minha respiração acelera, anunciando que minha casa está quase à vista. E, aí, lembro-me dos meus filhos quando ― voltando da escola ao meio-dia (1983/85) ― passávamos por um lixão na Av. Mário Andreazza, na Cohama. Em coro, cantavam assim: "Tamo chegando/ Tan-tan-tan-tan". E só paravam quando entrávamos na rua principal do Habitacional Turu.

Caminho pela calçada dos condomínios com nomes europeus. E não vejo nenhum brasileiro por aqui. Parece que estão “todos” (todas e todes) em Brasília. Dobro à esquerda, e à direita, como se estivesse na curva do “S”, em Interlagos. Finalmente, subo o curto trecho da V-12 até a minha casa. 

Aqui, confirmo a ideia de que, numa segunda leitura, as palavras de um livro podem ter outros significados, assim como, numa avenida, os sinais da ida não são iguais aos da volta. E, num devaneio, chego a pensar em completar o Caminho de Santiago algum dia.

7h05. Sento-me à mesa e me pergunto: Por que não faço isso mais vezes? O que vi e senti daria uma boa crônica, não daria?

Antes de me despedir, preciso agradecer-lhe, caro(a) leitor(a), tão agradável companhia.

__ 

Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Profa. RossanaHá 3 anos atrásSão Luís/ MAMuito bom! Parabéns, meu nobre amigo poeta Eloy!????????????????????????????????????????????????????
Antonio Guimarães de Oliveira Há 3 anos atrásSão Luís Maranhão Grande poeta do Maranhão.
Silvania Lopes de FreitasHá 3 anos atrásSão Luís do Maranhãoestou emocionada com essa crônica professor Leoi Melonio. Uma das melhores que li por aqui.
Sandra LimaHá 3 anos atrásSão LuisÔ Eloy. Bom responder nossos questionamentos. É uma questão de educação, não acha? Interagir com teu público é assim. Que adianta a gente ficar em dúvida perguntar e o cara não responder?
Maria de Fátima BelchiorHá 3 anos atrásCohama/Brasília DF/ Quadrangular de BrasíliaProfessor Eloy, será que o devaneio sobre completar o Caminho de Santiago reflete um anseio por desafios maiores e um desejo de autodescoberta, representando uma busca por crescimento pessoal e espiritual? Não é hopra de voltar para a Igreja, meu irmão?
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 04h01
11°
Tempo nublado

Mín. 12° Máx. 19°

11° Sensação
1.03 km/h Vento
97% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (03/09)

Mín. 10° Máx. 22°

Tempo limpo
Sexta (04/09)

Mín. 13° Máx. 25°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias