24 DE AGOSTO
Redação do Facetubes c/Mhario Lincoln/
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Na sombria alvorada de 24 de agosto de 1954, o país acorda com um cataclismo político: Getúlio Vargas, acossado pelos Altos Comandos Militares e emaranhado numa teia de crises políticas, ceifou a própria vida com um disparo ao coração. O episódio transubstanciou-se num divisor de águas da consciência nacional e um marco seminal para a literatura brasileira, particularmente, na então emergente vertente da ficção investigativa.
A nação assistiu atônita ao trágico desenvolvimento da saga de Vargas, um melodrama político transmitido pelas ondas da rádio e ecoado em manchetes de jornais. Naquela época, as escolas fechavam suas portas, o comércio silenciava e as fábricas estagnavam. Multidões, atordoados e impotentes, se reúnem para lamentar a morte de Vargas. A data reverberou como um ícone de luto popular e um marco do nacionalismo brasileiro, solidificando-se na memória coletiva através da "Carta-Testamento", uma espécie de manifesto poético-político que apontava o boato da soberania e da justiça social.
Para o crítico literário brasileiro Roberto Schwarz, um dos principais continuadores do trabalho crítico de Antonio Candido, a literatura é "um espaço onde o político e o estético se cruzam de modo a iluminar um ao outro". Neste sentido, o incidente com Vargas trouxe o cerne para obras literárias magistrais. Entre elas, destaca-se "Agosto" de Rubem Fonseca, uma obra que desafia os cânones tradicionais da literatura brasileira. Uma narrativa meticulosa e densa, por vezes tingida de um irônico amargor, revigora a complexidade daquele momento histórico, entrelaçando fato e ficção em um mosaico intrincado que explora as entranhas da política, a fragilidade da moral e a efemeridade do poder.
Fonseca conduz sua narrativa com uma maestria tal que magnetiza o leitor até a última página, oferecendo um vislumbre panorâmico de uma época através de múltiplas perspectivas, frequentemente discordantes. Suas reflexões sobre a corrupção, o jogo político e a manipulação de poder ressoam ainda hoje como um diagnóstico penetrante da realidade nacional.
O episódio também foi dramatizado na minissérie homônima, "Agosto", uma releitura de Jorge Furtado e Giba Assis Brasil, transmitida pela Rede Globo em 1993. O roteiro, que mistura com habilidade os elementos ficcionais e históricos, retrata um universo de tensão, paixão e conflito, centrando-se na figura do comissário Alberto Matos, um homem de índole complexo e moral intacta, mergulhado numa polícia corrompida e num cenário político efervescente.
Na trama, Matos é a encarnação da dualidade humana: ele é ao mesmo tempo amante de Alice, sua namorada dos tempos de juventude, e de Salete, uma prostituta de luxo. A riqueza psicológica dos personagens e suas relações amorosas complexas atuam como espelho da própria complexidade social e política naquele momento.
Dessa forma, o suicídio de Vargas, e todo o circo político e social que o circundou, foram eternizados não apenas nas páginas de livros de história, mas também nos domínios da literatura e da dramaturgia brasileiras. Esses retratos artísticos compõem um conjunto polifônico que continua a estimular reflexões profundas sobre a cultura e a política brasileiras, mantendo viva a memória de um episódio que, para o bem ou para o mal, é inesquecível.
Carta testamento
"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço de seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história."
RÁPIDA RESENHA DA SÉRIE
*Mhario Lincoln
O roteiro teve como base o livro AGOSTO, de Rubem Fonseca, cuja releitura coube a Jorge Furtado e Giba Assis Brasil.
Na narrativa, o episódio em agosto de 1954 no Rio de Janeiro se desenrola como um intrincado enlace entre a ficção e a realidade histórica do Brasil. A série não apenas tece a trama de um assassinato aparentemente simples, mas habilmente entrelaça os fios dessa história com eventos políticos cruciais da época, como o atentado contra Carlos Lacerda e a subsequente crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.
A crítica elogia a forma como a série tece essa teia de acontecimentos, unindo elementos ficcionais com os eventos reais de forma coesa e envolvente. O contexto político e social do Brasil dos anos 1950 é habilmente recriado, proporcionando uma base sólida para a trama fictícia que se desenvolve. A intriga policial serve como uma lente através da qual a audiência pode observar as complexidades morais e éticas dos personagens, assim como as contribuições sociais da época.
A figura do comissário Alberto Matos surge como um elemento central da trama, retratado como um homem de caráter ambíguo, lutando para manter sua integridade em um ambiente policial prejudicado. Sua luta contra a corrupção interna reflete o drama maior do país naquele momento. As relações afetivas complicadas do comissário, especialmente seu envolvimento com duas mulheres tão diferentes, acrescentam camadas de profundidade à sua personagem, revelando suas vulnerabilidades e conflitos pessoais.
A dualidade entre Alice e Salete ( as duas mulheres com as quais Matos convivia), simboliza não apenas a divergência social e econômica da época, mas também reflete as tensões emocionais do comissário Matos. Através dessas mulheres, a série explora temas de amor, desejo, status social e busca por pertencimento, tudo isso emoldurado dentro do contexto político volátil do Brasil pré-suicídio de Getúlio Vargas.
No centro de toda a trama, os vilões Pedro Lomagno e Luciana Gomes de Aguiar emergem como uma encarnação da corrupção e da ambição desmedida, utilizando-se do assassinato para alcançar seus objetivos sórdidos. A complexa interconexão entre esses personagens e os eventos históricos reais é uma demonstração da sagacidade dos roteiristas ao fundir ficção e história de maneira cativante.
Destarte, a série oferece não apenas uma história de crime e investigação, mas também uma janela para compreender as implicações políticas e sociais de um momento crucial na história brasileira. Ao mergulhar nesse mundo de intriga e paixão, o público é convidado a refletir sobre a interseção entre destino pessoal e história coletiva, enquanto desvenda os mistérios entrelaçados da trama e dos personagens.
UM DETALHE HISTÓRICO
Tancredo Neves, alguns anos após a morte de Vargas, contou a Carlos Heitor Cony como foram os últimos minutos de Getúlio. O depoimento de Tancredo saiu na Revista Manchete de 1 de setembro de 1984:
"Por volta das sete e meia, oito horas da manhã, ouviu-se o estampido seco. Desceu o elevador, às pressas, o Coronel Dornelles, um dos oficiais de serviço na presidência. Nós subimos apressadamente para o quarto onde o presidente se achava. Os primeiros a entrar foram o General Caiado, Dona Darci, Alzira, Lutero e eu. Encontramos o presidente de pijama, como meio corpo para fora da cama, o coração ferido e dele saindo sangue aos borbotões. Alzira de um lado, eu do outro, ajeitamos o presidente no leito, procuramos estancar o sangue, sem conseguir. Ele ainda estava vivo. Havia mais pessoas no quarto quando ele lançou um olhar circunvagante e deteve os olhos na Alzira. Parou, deu a impressão de experimentar uma grande emoção. Neste momento, ele morre. Foi uma cena desoladora. Todos nós ficamos profundamente compungidos; esse desfecho não estava na nossa previsão. O presidente em momento nenhum demonstrou qualquer traço de emoção, nunca perdeu o seu autodomínio, jamais perdeu sua imperturbável dignidade, de maneira que foi um trágico desfecho, que surpreendeu a todos e nos deixou arrasados."
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