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SETE POEMAS CRÍTICO-REFLEXIVOS DE EDMILSON SANCHES

Convidado da Academia Poética Brasileira

16/09/2023 às 11h50
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Edmilson Sanches
Edmilson Sanches

 

 O Autor

EDMILSON SANCHES. Jornalista, escritor, editor, palestrante e consultor em Gestão Pública e Administração de Empresas. Tem graduação e/ou pós-graduação em Administração Pública, Letras, Administração de Empresas, Comunicação e Desenvolvimento Regional. Autor de dezenas de livros nas áreas de Administração, Biografias, Comunicação, Desenvolvimento, História e Literatura. Membro de Institutos Históricos, Academia de Ciências, Conselhos de Administração e Contabilidade e membro efetivo e correspondente de Academias de Letras nos Estados do Maranhão, Pará, Espírito Santo, São Paulo e Estados Unidos. Contatos (palestras / cursos / consultoria): E-mail -  [email protected] n Site: www.edmilson-sanches.webnode.page

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        HOMEM NA PIRÂMIDE

 

O apartamento todo se vai esvaziando

–– já vão saindo os maus-gostos do rococó ––

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e o homem, por vezes pensativo, atento olhando,

                                                                         só.

 

O ronco poderoso  –– o mudanças se vai ––

e o homem, esmagado por invisível mó,

se vê e se sente ali, ele apenas. Sai.

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                                                   Só.

 

Noutro dia, outros móveis, novos, colocados

na ordem, combinação  –– jogo de dominó.

E o homem ali, ser presente, olhos vidrados.

                                                                  Só.

 

Olhando a mesa, apalpando a cama macia

através da suave espessura do ló,

sua imagem é qual espelho: limpa, vazia,

                                                              só.

 

 

O rosto, o corpo que anda, o cérebro que o guia

ao banheiro, donde logo sai um som sem dó

em eco  –– coro uno que àquele homem se alia,

                                                                        só.

 

No centro do quarto, o corpo molhado e nu,

se encontra agora o homem, ereto faraó,

fechado em pirâmide, guardado em baú.

                                                           Só.

 

O apartamento, aquela mobília inconsútil...

O homem sabe que isso e ele tornarão ao pó.

E um ar frio, um torpor súbito, fá-lo sentir-se

                                        estranhamente inútil.

                                                                     Inútil

                                                                     ...e só.

 

****

            

ADVERBIALMENTE

 

Contra o cidadão,

o pior dos males é a violência.

A pior violência, a mentira.

A pior mentira, a mentira política

–– pois dela derivam todos

os outros males e mentiras.

 

Sei, bem sei, que se mente

até involuntariamente

inocentemente

inconscientemente.

Mente-se religiosamente.

Mente-se jornalisticamente.

Mas, principalmente, mente-se

politicamente

--- e, politicamente, mente-se

frequentemente.

E porque mente assim assiduamente,

já não mente o político sorrateiramente,

“respeitosamente”:

ele mente deslavadamente

                 descaradamente

                  de-sa-ver-go-nha-da/mente.

 

E por mentir  –– politicamente ––

tão repetidamente,

tão constantemente,

o político mente... impunemente.

E porque se mente  –– especialmente politicamente ––

tão impunemente,

chegamos à conclusão de que

–– paradoxalmente ––

já não vivemos em um País de mentira:

vivemos em um País... demente.

 

Cidadão,

na hora da verdade,

ao votar em eleição,

não minta para você mesmo.

Vote com consciência.

Vote verdadeiramente.

Vote como quem dá uma porrada.

 

Pois pelo jeito, só assim, um dia,

toda mentira será castigada.

 

*******

               

                MENINOS DO BRASIL

Crianças

sem pai

nem mãe

 

brincam

brigam

rolam

bolam

boiam

na lama

     social

 

     –– lamaçal:

 

                        habeas corpos

                        habeas porcos

 

                        habeas mortos.

 

******

 

           GLOBALIZAÇÃO

 

atum peruano

salsicha vienense

nozes chilenas

uvas argentinas

vinho português

uísque escocês

champanhe francês.

 

Cesta de Natal.

 

Brasileira.

 

*******

                  

                     O ENCONTRO  DAS  PEDRAS

E agora, José?

No meio do caminho

tinha uma pedra. Aliás,

uma pedrada,

que é uma pedra

movimentada.

 

Dizem que a coisa

foi orquestrada

teleguiada.

Mas, Zé, compreenda:

há muita insatisfação,

e o povo passa fome, arrocho,

precisão.

Você, não.

 

É preciso se-

parar o joio

do trigo.

Mas onde está o trigo, meu Deus?!

Ele já não é subsidiado

–– só o povo continua

subalimentado.

 

E o povo, já sem razão,

responde

com quatro pedras

na mão.

 

José, você que é,

que é católico, rezador,

talvez diga que nem só de pão

vive o “home”;

entanto, ouça:

acima da guerra,

há o grito da fome.

 

José, sabe como é:

o povo se contenta

com pouco.

Boca cheia

não grita.

Bucho vazio

deixa louco.

 

Sei, não precisa repetir:

atiraram a primeira pedra.

Mas, José, e por que a outra?

Lançada de catapulta,

com destaque em jornal,

apedrejaram o povo com a Lei

de Segurança Nacional.

Lei de Talião,

pagou-se com a mesma moeda.

Ou pedra.

(Mas, José,

duro

com duro

não faz

bom muro).

 

Não sei, José,

não sei como é.

Tudo serve

de exemplo.

E com pedras também

se constrói

um templo.

 

Vamos juntar todas essas pedras

e talvez, quem sabe, um dia

com ela terminaremos,

“não mais que de repente”,

o prédio transparente

da democracia.

 

E aí, povo forte,

Nação em pleno viço,

botaremos uma PEDRA

em cima disso.

 

*******

 

         PALHA

 

Palha

no mato

 

Palha

na cerca

 

Palha

na casa

 

Fogo

nomatonacercanacasa

 

Fogo

de palha

 

espalha

 

ex-palha.

 

********

   

 

             PRESOPOEMA

 

Hoje, que desgraça farei:

mato o presidente

ou me proclamo rei?

 

Faço desvio de influência?

tráfico de (oh!)posição?

sinto alta a indecência

livre na contramão?

 

Meto a mão no fundo bolso

pesquisando uma rima,

tirando dinheiro falso

e dando-o ao cego da esquina?

    

Critico a “democracia”?

sequestro meu país?

rezo o pai/pão do dia

sugando o infeliz?

 

Tisno-me de branco?

atendo o bicha num rogo?

procuro meu canto

ou vira ficha do jogo?

 

Reclamo do salário

ou peço minha demissão?

(Não tem garantia meu trabalho

nem fundos a rescisão.)

 

Hoje, que desgraça farei:

mato o presidente

ou me proclamo rei?

 

(Faço charada:

Envernizei um pouco

o homem público. 2-2)

 

Proclamo-me rei

ou mato o presidente?

(Alguma desgraça farei

durante a noite silente.)

 

Que faço da roupa?

(Eu não nasci assim.)

Que faço da pele?

Que faço de mim?

 

Pinto o sete?

Toco em banda?

Dobro o frete?

Vou pra Uganda?

 

Processo o modo general?

Condeno a (falta de) União?

(Pleito e/lei/mortal litoral,

promessa é treva e aguilhão.)

 

Torno-me criança em cabaré?

Elejo cavalo “Seu Dotô”?

Trepo morro pensando em muié?

Ponho barba preta no meu vô?

 

Sou preso residente

  esporte    nado

preso/e/dente

generalizado.

 

(Depois vieram.

Vou preso prum cubículo:

Salafrário!

 

E compuseram

o orgulho dum currículo

literário.)

 

Censurada a minha mente,

meu escrito.

Mas, conquanto rudemente,

tenho dito!

 

(1976)

      

 

 

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Carmen Regina DiasHá 3 anos CascavelSigo lendo e sinto a presença de Omar Khayyan: "O apartamento, aquela mobília inconsútil... O homem sabe que isso e ele tornarão ao pó. E um ar frio, um torpor súbito, fá-lo sentir-se estranhamente inútil. Inútil ...e só." Que poder!!! Meninos do Brasil abre o portal para a percepção da realidade que nos cerca, da real condição humana reinante... Grande Poeta, grande escritor, resenha fantástica, um brinde ao conhecimento e à consciência. Gratidão.
Antonio Guimarães de Oliveira Há 3 anos São Luís Maranhão Edmilson Sanches, na atualidade, um dos grandes pensadores do Maranhão.
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Sobre o blog/coluna
Edmilson Sanches é um dos intelectuais brasileiros mais aplaudidos em diversas áreas da literatura contemporânea. É jornalista, consultor, palestrante, editor, bacharel em administração pública e licenciado em letras.
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