Nota do Editor: neste DOMINGO POÉTICO, a presença sempre bem-vinda de uma poeta e psicanalista de altíssimo nível nacional: trata-se de Tereza Braúna Moreira Lima. Ela carinhosamente atendeu ao pedido da equipe do Facetubes para fornecer três obras líricas, publicadas, abaixo. O importante nisso tudo é saber como se dá essas contruções tão incríveis. Destarte, me arvorei a analisar a poesia de Tereza Braúna Moreira Lima em suas minúcias porque em suas líricas, há, sim, uma abordagem rica e interessante para compreender a profundidade e os elementos psicológicos presentes em seus versos, que parecem emergir de uma autorreflexão e representar uma forma de catarse lírica. Claro que já li vários livros da autora e resenhei um deles, “Digitais da Essência“, (Poesia), cuja obra é um marco inicial na carreira poética de Tereza. (Mhario Lincoln).
*Mhario Lincoln
Quanto aos poemas recebidos, e abaixo publicados, me fixei, mormente, em dois versos de cada poema; e no último, em todo momento do verso três, completo, pois me foi necessário introspectar e explorar comparativamente a linhagem da psicologia humana, alinhavando-a liricamente à poética da autora, a fim de que também pudesse mergulhar nas profundezas da concepção êxoda e nas emoções sudorizadas dos póros virando poesia.
Tudo isso para analisar a linguagem, as metáforas e os símbolos usados; elementos que apoiam a construção da atmosfera emocional e psicológica de seus poemas. Desta forma, acredito ser estrutura poemática de Tereza Braúna Moreira Lima, uma jornada emocional e psicológica do seu "eu lírico".
Posso até mesmo ampliar essas minhas concepções acerca da poética de Tereza sugerindo que sua escrita poética também pode funcionar como uma espécie de catarse para esse "eu lírico". Agora eu pergunto: e se esse elemento catártico representasse desejos inconscientes, conflitos internos ou aspectos da psicologia do "eu lírico" e servisse de combustível para essa esplêndida produção poética dessa vate, ao longo dos anos?
Só a autora mesmo pode responder a esse questionamento. Contudo, ao começar a analisar os poemas enviados, logo nesses dois primeiros versos de "PAÍSES IMOLADOS" - "Entre libras de carne e o murmúrio da linguagem/ Transita o mundo em seu embate." - a poeta parece explorar a dualidade entre a materialidade do corpo humano e o poder da linguagem na representação e compreensão do mundo.
Já em "Rasgo, costurando no corpo que se esgarça e se cerze/ regenera-se e sobrevive ao espasmo dos acontecimentos." - do poema "SOBREVIVENTE", Tereza parece evocar a ideia de transformação e resiliência do corpo humano diante dos desafios e existenciais da vida. A metáfora do corpo como uma superfície que rasga e se costura sugere a capacidade de cicatrização e recuperação do ser humano. Aliás, será que se pode incluir aqui o que pensou Michel Foucault, acerva de ser, "(...) o corpo visto como um lugar primário, mas fundamental na existência humana"?
E, por último, destaquei os seguintes versos do poema "EXPURGO", que diz assim: "...à deriva voavam recordações/ que irmanando-se às nuvens,/ sombreavam tréguas, desabrochando sementes,/ chovendo paisagem." Seriam, com conseguinte, esses versos, uma conexão entre memórias, natureza sofística e emoções? Porque neste meu olhar hermenêutico, a ideia de memórias “à deriva” e “voando” a mim me parece relacionar-se à teoria psicanalítica de Sigmund Freud sobre o inconsciente. Freud acreditava que nossas memórias e experiências passadas, muitas das quais estão escondidas em nosso inconsciente, têm um grande impacto em nosso comportamento e emoções subsequentes. Mas, parei para refletir sobre essa imagem lírica: “sombrear tréguas”. Seria um período de calma ou paz que é temporariamente obscurecido ou interrompido, fato que comparo a máxima de Friedrich Nietzsche quando se refere ao “eterno retorno”, onde alegria e sofrimento são vistos como partes inerentes da existência humana?
Aqui, me coça os dedos para escrever rapidamente sobre meu entendimento de "eterno retorno". Antes, uma pergunta matreira: será mesmo se Nietzsche acreditava na verdade literal do "eterno retorno" ou, se não, o que ele pretendia demonstrar com isso? Ao ver pela primeira vez essa premissa em “A Gaia Ciência”, depois fortemente explorada em “Assim Falou Zaratustra”, entendi, aparentemente, tal citação como uma proposta de que cada dor e cada alegria, cada pensamento e suspiro, e tudo inexprimivelmente pequeno ou grande em sua vida, terá que retornar para você, tudo na mesma sucessão e sequência.
Enfim, aplaudo a poeta Tereza Braúna Moreira Lima por criar imagens tão significativas nesse mesmo poema, como “desabrochar sementes, chovendo paisagem”. Mas nem tudo é o que se lê. Basta atentar um pouquinho mais para sentir um impacto: claro, partimos do pressuposto que é uma metáfora poética. Todavia, é rica se a diluirmos nas águas da fonte de Martin Heidegger. Esse filósofo alemão falou sobre a ideia de “desvelamento” ou “revelação” em sua obra. Ele acreditava que a verdade se revela através do processo de desvelamento. A frase “desabrochar sementes”, então, poderia ser vista como uma metáfora para esse processo de desvelamento - as sementes desabrochando representam a revelação da verdade ou do conhecimento. Além disso, Heidegger também explorou a ideia de “habitar” e a relação entre os seres humanos e o mundo natural. A frase “chovendo paisagem” eu particularmente (cada um tem suas interpretações) interpretaria como uma representação dessa relação - a paisagem poética não é apenas um pano de fundo passivo, mas algo que está ativamente envolvido nossos existenciais de agosto ou do ano inteiro, enquanto somos demasiadamente humanos.
Não sei se consegui, mas tentei enxergar a alma desses três poemas me enxertando na consciência do "eu lírico" de Tereza, em minha análise. Meu íntimo é muito buliçoso - até conversei com o filófoso Rogerio Rocha sobre isso e nos descobrimos com certas atitudes que beiram os altos índices de TDAH literário, com uma espécie inquietação e impulsivida para ler e escrever. E isso me dá uma vontade imensa de dissecar sabores e sussurros, quando diante de uma peça lírica. Na prática, aprendi isso lendo Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes: “Não há nada mais enganoso do que um fato óbvio”. Além disso, Walt Whitman também foi nessa linha: “a contenção, a certeza, mas não a excessiva certeza...". Desta forma, ler e entender Tereza Moreira Lima, obrigatoriamente se tem que atentar aos princípios ensinador por Holmes (Doyle) e por Whitman.
Destarte, minha querida poeta e amiga. Seja sempre bem-vinda ao DOMINGO POÉTICO do Facetubes. Abaixo, os poemas:
Entre libras de carne e o murmúrio da linguagem
Transita o mundo em seu embate
Espaço nem sempre almejado desse mal entendido
causado entre humanos acossados
Herança de batalhas em guerras passadas
Futuro do pretérito que não se quer mais presente
Cavalos de fogo em céu ardente
Terrível visão em olhos de riacho
Afogam sonhos e se veem
Perseguidos , refugiados
Interesses vis
Moeda amaldiçoada
Desfazem a suposta ilusão
Que homens entre si sejam irmãos
Tereza Braúna
************
Sobrevivente
Luta
lida com o luto obrigatório das coisas vivas
Liame do real
em torno do fio da faca
corte afiado
fazendo talho e entalho no tempo
Rasgo, costura no corpo
que se esgarça e se cerze
regenera -se e sobrevive
ao espasmo dos acontecimentos
Tereza Braúna
************
O trem da memória voltava aos trilhos após décadas de exílio
vomitando o passado nublava o momento num réquiem de fumaça
enquanto lembranças amargas eram esmagadas na corrida sobre os trilhos
nos vagões, o sacolejo de fatos ancestrais, abriam janelas para respirar
à deriva voavam recordações
que irmanando-se às nuvens,
sombreavam tréguas, desabrochando sementes, chovendo paisagem
************
Tereza Braúna Moreira Lima recebeu a Comenda "Hugo Napoleon Robalino", considerado "O Poeta do Século XX", na América Latina.
Tereza Braúna é maranhense, escritora e psicanalista, autora de 6 livros publicados, dentre os quais destacam-se “Desafio de Ser” e “Digitais da Essência“ (Poesia).
Estudiosa da Psicanálise há aproximadamente 30 anos, integrou a Instituição Intersecção Psicanalítica do Brasil e desde 2005 é participante da Delegação-Ma / Escola Brasileira Psicanálise, atualmente Associação Psicanalítica do Maranhão.
Seu mais recente livro de Poesias “Psicanálise e Artifício Poético”, conjuga a vertente da Psicanálise com a Poesia, suas duas paixões!
Acerca do último livro, diz Tereza:
- "(...) poemizo-me paralelamente à tessitura de minha experiência analítica, onde conceitos são vividos na própria pele. E com um estilete devassador desbrido vísceras, escavo refúgios, torcendo e retorcendo a lógica ao mostrar o nonsense do meu estranhamento".
Sobre a Comenda
Esta Comenda leva o nome do Vice-Presidente Internacional da Academia Poética Brasileira, membro-fundador, considerado "O Poeta do Século XX", na América Latina. Humberto Napoleon mora em Quito-Equador e tem participação em muitos eventos literários no Brasil e na Europa.
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*Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira.
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