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Cidades Colunistas

Do livro "A Paz na Linha da Vida", outra crônica de Edomir Martins de Oliveira: "Para Defunto, Velas ou Sal?"

Edomir Martins de Oliveira é Vice-Presidente Nacional da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA – APB.

01/10/2023 10h16 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edomir Martins de Oliveira/Vela ou sal
arte MHL
arte MHL

Edomir Martins de Oliveira

 

Aproveitando os dias das comemorações da semana da Pátria, fomos a São Vicente de Ferrer, município maranhense, onde reside um tio da minha esposa Elma, o Sr. Adauto Ferreira Santos, que estava a completar seus 99 anos de idade.

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Ali, foi com grande animação que participamos, junto com sua esposa, todos seus filhos, netos, bisnetos, noras, genros, sobrinhos e amigos, das comemorações da sua nova idade. Vimos o aniversariante caminhar só com o auxílio de uma bengala e, como herança da vida política, ainda fazer um discurso de agradecimento a todos pelas presenças.


Ele, alegremente e com postura ainda elegante, voz firme, nessa ocasião formulou convite para estarmos juntos, comemorando seu primeiro século de vida no próximo ano, como fez questão de frisar.


O aniversariante sempre foi um exímio contador de fatos presenciados durante toda sua vida. Aproveitou a ocasião para contar um caso que tinha sabido recentemente. Perguntou se alguém se lembrava do Bacurau, seu antigo eleitor quando ali residia.

– “Escutem este fato: ele procurara o prefeito do município, onde agora estava morando, para lhe dar a triste notícia do falecimento de sua mãe, e pedir ajuda para comprar o caixão para enterrá-la.

Devo explicar que o apelido “Bacurau” veio porque ele tinha o hábito, desde jovem, de pedir roupas e outras coisas emprestadas e não as devolvia ao seu dono, agindo sempre como a ave, conforme nos conta uma lenda do folclore caboclo. “Reza a lenda que para participar de uma festa no céu, a ave Bacurau pediu emprestado penas de diversos pássaros. Porém, no dia seguinte, não as devolveu e foi castigado por São Pedro, tornando-se uma ave de hábitos noturnos que solta o grito “amanhã eu vou” referindo-se a devolução das penas. ”

Voltemos à história onde Bacurau foi procurar o tal prefeito e lhe explicar a necessidade de um caixão. Nesse momento, o prefeito explicou-lhe que seria impossível atender seu pedido, porque não tinha dinheiro em casa, disponível. Só iria ter mesmo dinheiro 2 dias depois. O choroso filho pediu-lhe então ao menos dez reais para comprar velas, para que a alma da mãe não ficasse no escuro. Esse pedido também seria impossivel de atender, disse-lhe o prefeito.

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Foi uma decepção para o pobre Bacurau! Naquele municipio tinha votado nesse prefeito que, durante a campanha eleitoral, prometia sempre estar a disposição dos seus eleitores, ajudando-os no que precisassem. “Dois dias, seu Prefeito? Isso é um deboche, pois um corpo vai exalar mau cheiro e se decompor. Isso é uma falta de respeito”.

 

Art: MHL-DELL-E

Então, Bacurau revoltado e em tom de ironia, disse ao prefeito que lhe “emprestasse” ao menos dois reais. O Prefeito disse-lhe que não tinha no momento e lhe perguntou: 


- O que vais fazer com dois reais, Bacurau? 

- Vou comprar um pacote de sal, para salgar o corpo da minha mãe, enquanto espero os dois dias para receber a ajuda que o senhor prometeu. Passe bem, seu Prefeito! Na próxima eleição nós estaremos lhe esperando em nossa comunidade.


Triste história! Só lhe restou retornar para velar o corpo da sua genitora. Mas, as pessoas mais carentes são solidários entre si. Ajudam-se sempre que necessário. Felizmente, um vizinho marceneiro juntou-se a outros, se cotizaram e compraram umas tábuas e pregos e o marceneiro improvisou um caixão, onde colocaram o corpo da falecida, o que a impediu de ser enterrada em uma rede.

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Indignados, os vizinhos de Bacurau disseram que jamais votariam nesse prefeito que gastava dinheiro público com festas desnecessárias, pagando bandas caríssimas e comprando fazendas e gado de elevado preço, conforme dizia o povo. Bacurau fizera muito bem em zombar do prefeito pedindo apenas dois reais, para salgar o corpo da mãe.

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Socorro PiorskHá 3 anos atrásSão Luís MAQuerida amiga quero te agradecer pela oportunidade de ler mais uma crônica de um ilustre escritor o Prof. Edomir “uma excelente crônica” Que ELE continue iluminado!!
Adriana BritoHá 3 anos atrásSão Luís/MATexto forte, habilmente redigido de forma à levar a uma profunda e necessário reflexão. Culturalmente enriquecedor. Desconhecia a lenda do bacurau. ????????????????????????????????
Fernanda FigueiredooHá 3 anos atrásSão Luís MAParabéns, Edomir. Não conhecia essa lenda do bacurau, ave feia, assustadora. Já o texto é belo e muito interessante. Aplausos ????
Ana Maria AlmeidaHá 3 anos atrásSão LuisQue história interessante! Parabéns Sr. Edomir, mais uma para coletânea.
Pe SalvadorHá 3 anos atrásEstudando evangelização aqui, em Connecticut, EUAPastor Edomir, São Vicente de Paulo, apóstolo e testemunha da Caridade de Cristo: ensina-nos a amar a Deus com obras e com verdade e, acima de tudo, na pessoa dos pobres e necessitados que a sua Providência coloque no caminho da nossa vida. Ensine-nos a não desviar o olhar dos feridos da vida, mas sim para nos dirigirmos a eles, para torná-los nossos vizinhos. ------------------- AMÉM.
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