Estou prazeirosamente (e com bastante acuidade elucidativa) resenhando o livro "Coração Tagarela" (Volume 04), de Sinval Santos da Silveira. Já quase no fim, às páginas 176, um texto emocionante me chamou a atenção, não só pela simplicidade e pela objetividade, como também por imensa sinceridade.
Trata-se de “A Esmoleira” que retrata a dura realidade de uma mulher que, devido a circunstâncias infelizes, se vê obrigada a mendigar para sobreviver. A descrição vívida da mulher e a empatia do narrador criam um retrato pungente da pobreza e do desespero humano, em um mundo moderno e diferente daquele em que a personbagem viveu no auge de sua carreira profissional.
Marshall Berman fala disso ao observar que a modernidade pode trazer à existência pessoal e social de certas pessoas, problemas em turbilhão, quase que uma perpétua desintegração pessoal.
e se por outro lado, nas sublinhas, não está um grito pela necessidade de igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres?
Mutatis Mutandi, “A Esmoleira” é uma história emocionante a ser interpretada pelo leitor de várias maneiras, pois destaca as dificuldades enfrentadas pelos menos afortunados em nossa sociedade e nos convida a refletir sobre questões de pobreza, desigualdade e justiça social.
Abaixo, reproduzo o texto impactante ao final.
A ESMOLEIRA
*Sinval Santos da Silveira
Sem forças, esquálida, usando roupas doadas, a mulher se sente humilhada, em esmolar. Um ser humano, que desceu todos os degraus na escala social da vida.
Olhei suas mãos, trêmulas e indecisas, e pude ler, em seus olhos, o sofrimento de alguém que o tempo venceu. Seus cabelos, sem brilho, ainda tentam, em vão, cobrir os profundos sulcos, instalados em sua face. Não consegui esquecer aquele olhar.
Parecia um último pedido de socorro...
No dia seguinte, voltei àquela rua, no centro, na esperança de reencontrá-la. Não estava lá.
Havia alguma coisa, por trás daquele olhar... Procurei saber o seu nome, mas somente o apelido era conhecido. Isto, nada me dizia.
Dirigi-me ao mercado público, pois lá sempre estão esmoleiros. Tive sorte.
Encontrei-a, sentada em um caixote, à sombra de uma parede, esmolando.
Recebi um choque. Minhas desconfianças só aumentavam.
Convidei-a para almoçar, lá mesmo, num bom restaurante do mercado. Ficou assustada com o convite, mas aceitou. Contou-me sobre a falência da sua vida, profissional e familiar. Coisas muito tristes, que envolveram seu marido e seus dois filhos. Não resistiu. Abandonou tudo.
Doente, para a sua sobrevivência, pede esmolas. Perguntou-me, por que eu estava chorando? Não tive coragem de falar a verdade, para não aumentar o seu sofrimento, ou estabelecer um constrangimento.
Apenas, passei a ajudá-la com frequência, com todo o amor, respeito e gratidão, que bem merece a minha primeira professora...
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