*Mhario Lincoln
O "Dia de Finados", comemorado com reverência e memória, traz consigo mais do que o simples ato de lembrar aqueles que partiram. Ele se entrelaça profundamente com os abismos da psique humana, revelando inseguranças, medos e a busca incessante por significado.
Com base nessas observações, geralmente entro numa espécie de reflexão profunda sobre a efemeridade da vida e o destino inexorável que nos aguarda: a morte. Ainda fico muito triste.
Então, passei-me a perguntar: por que os dias que antecedem "Finados" parecem trazer consigo uma névoa de melancolia e tristeza? Nesta semana, pesquisei sobre isso para entender se somente eu sentia essas reações. Não! Centenas de pessoas (possivelmente as que me leem agora) também demonstram as mesmas ansiedades.
A primeira e mais evidente razão - acho eu, a psicológica - é o luto. A perda de entes queridos, seja recente ou distante, pode ser ressuscitada nessa data, onde emergem sentimentos periféricos. O "Dia de Finados" pode atuar resgatando dores que, em outros momentos, são habilmente reprimidas ou evitadas.
Outra dimensão psicológica - a mim estranha e até então imperceptível - reside no confronto com a própria mortalidade. Ou seja, ao me lembrar de meus mortos posso ser “...levado a refletir sobre sua própria finitude. Este confronto direto com a efemeridade da vida pode gerar ansiedade e desespero", e complementa Otto Rank, psicanalista, escritor, professor e terapeuta austríaco: "(...) o medo da morte é o núcleo central de outros medos, tornando-se a principal fonte de criatividade".
Leio isso e acho incrível uma coisa: embora a morte seja uma realidade inescapável, o medo dela pode ser transformado e canalizado de maneira atemporal, incluindo aí, os nossos mortos.
Por que então esse sentimento depressivo, na maioria das vezes que se aproxima o "Dia de Finados"? Pode ser - em muitos casos - uma manifestação de problemas não resolvidos, trazendo à tona certos conflitos pessoais (entre o morto e a pessoa), fatalmente gerando ambivalências e sentimentos contraditórios culminando em depressão.
Meu amigo Luiz Gracindo, psicólogo curitibano me disse certa vez, quando lhe questionei sobre a data: "Mhario, o 'Dia de Finados' pode agir como um gatilho, trazendo à tona sentimentos reprimidos e não resolvidos relacionados à morte e ao luto. Nós, nesta exacerbada complexidade emocional, nem sempre estamos preparados para lidar com tais emoções, o que leva ao estados depressivos".
Na mesma linha, convido para a mesa para explicar melhor, o psicólogo existencialista Rollo Reece May, nascido em Ada, (Ohio), famoso por seu livro "Love and Will", lançado em 1969. Ele disse: "A consciência da morte é o pano de fundo sobre o qual a tela da vida é pintada". Esta percepção ilustra a ideia de que a consciência da morte é uma constante, moldando nossas decisões, ações e sentimentos, mesmo que de maneira subconsciente.
Devo concluir, então, que o peso do "Dia de Finados" não é apenas em memória dos que se foram, mas também no embate com a própria mortalidade. Um confronto diário sobre a impermanência existencial. Tal reconhecimento pode gerar medo e até mesmo ansiedade, pois nos faz questionar o significado e o valor de nossa jornada terrena.
Ao final, vou tentar, junto com outras concepções, seguir o que os budistas ensinam a milhares de ano, quando buscam encontrar significado e propósito no luto. Ao fazerem isso, podem ajudar a pessoa falecida em sua jornada contínua de consciência.
Acho que com mais leituras e observações de minhas atitudes e objetivos, talvez consiga, no amanhã, me sentir melhor diante dessa data. Afinal, "(...) a chave é abraçar essa jornada com coragem, fé e amor, buscando sempre a luz do entendimento e da esperança", como ouvi certa vez, em uma interessante palestra espírita de Divaldo Franco.
Curitiba, 02/11/2023/Dia de Finados,
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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