*Mhario Lincoln
A poetisa Laura Amélia Damous é considerada uma das grandes expressões femininas da poesia brasileira. Membro da Academia Maranhense de Letras, despontou como uma das escritoras mais promissoras de sua geração por construir sua lírica de maneira forte e expressiva. Prova disso: "Dois de Novembro", abaixo reproduzida.
Acredito que a poesia em questão parece se enraizar nas emoções e sentimentos íntimos da poeta. Deste modo, não será surpresa se convidar para nossa mesa de análise dois dos poetas líricos, verdadeiros legados da Grécia Antiga: Safo e Alceu. Eles expressavam de maneira profunda e sensível suas vivências emocionais. Assim, esses predicados, a meu ver, se confundem com a construção lírica de Laura Amélia, inserida num contexto em que o tom introspectivo e melancólico, igualmente se sobressaem.
Afora isso, alguns versos refletem imagens cotidianas, como "a xícara branca", "formigas", "pudim no forno", que são elementos que parecem simples, mas são carregados de significados. Posso afirmar, tal forma, ser algo que parece muito com a maestria da 'mimesis', tornando reais os impulsos criativos; ou seja, Laura Damous captura o cotidiano e o reflete de uma maneira pessoal, que intensifica a emoção de quem lê.
Sem a menor sombra de dúvidas, "Dois de Novembro", me fez sentir uma atmosfera única. Há em meio a tudo isso, mensagens subliminares quase imperceptíveis, porém, de grande importância no enredo do poema.
O verso “um tigre esfacelou/ meu rosto no/ agitado sono do meio-dia", por exemplo, a mim me parece evocar uma sensação de força. Mesmo que mais adiante - ela confesse, "eu tenho muito medo/ de morrer/ num dia feio assim", reconheça a própria natureza efêmera da vida.
Esses dois versos fortes também me levam a buscar para a mesma mesa Friedrich Nietzsche e Walt Whitman. Nietzsche, explorou temas de sobre a manifestação da ‘vontade de poder’; um impulso fundamental para a autopreservação e a afirmação da vida.
Por sua vez, Whitman frequentemente abordava temas de morte e transitoriedade, mas sempre com uma sensação de admiração e reverência ao sentimento pessoal - “tigre esfacelou” - como beleza selvagem e indomável, enquanto o “medo de morrer” - como a necessidade de apreciar cada momento da vida.
O que me chama a atenção também é a estrutura fragmenta da poesia, com linhas curtas e quebras abruptas, refletindo a inquietação interna da poeta. Quem sabe, uma amostragem do estilo de Píndaro, que frequentemente utilizava as ‘quebras abruptas’ em seus poemas para refletir o 'status quo' emocional.
Consequentemente, a poética de Laura Damous, nesse poema específico, encapsula versos impregnados de sutis emoções e pensamentos hermenêuticos. Acho que esse tipo de explosão lírica é a mais correta, pois obriga o leitor a interagir com o que eu denomino de dúvidas de significado - muito perto da "ambiguidade semântica" - para buscar, dentro de si mesmo, e não fora, o significado emocional de cada verso, como fui, eu, obrigado a fazê-lo.
Esses versos, enfim, acolhem uma interação entre o cotidiano e o transcendente, pois refletem, de forma categórica, uma sensibilidade existencial da autora, onde a introspecção, o cotidiano e a morte se entrelaçam como linhas que tecem um tapete de sonhos e realidade.
Evoé, poeta!
Dois de novembro
Laura Amélia Damous
a xícara branca
me encara do
outro lado da mesa
um tigre esfacelou
meu rosto no
agitado sono do
meio-dia
as formigas fizeram
um novo caminho
da cozinha à sala
sem um único volteio
meus dedos pesam
mais que nunca
e afundam junto
com o pudim no forno
eu tenho muito medo
de morrer
num dia feio assim
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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