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Cultura TEXTOS ESCOLHIDOS

Bicentário de Gonçalves Dias. Texto escolhido: "DO AMOR CORTÊS E DAS MUSAS"

Autora: Ceres Costa Fernandes, acadêmica da Academia Maranhense de Letras e convidada da Academia Poética Brasileira.

08/11/2023 09h01
Por: Mhario Lincoln Fonte:  Ceres Costa Fernandes
Arte: MHL
Arte: MHL


                           
 Ceres Costa Fernandes*


Não há poetas sem musas, ponto. Condição sine qua non para a existência de poemas de amor. Quem fala em Dante, lembra Beatriz; em Petarca, lembra Laura; em Abelardo, lembra Heloísa; em Gonçalves Dias, lembra Ana Amélia. Apenas para ficarmos entre os casais  mais votados.


O exercício literário de adoração à mulher é criação do amor cortês, na Idade Média. Ao sagrar-se cavaleiro, o jovem prometia defender seu Deus, sua honra e sua dama. Por um simples sorriso da “dona”, ele ia às justas ou partia para a guerra, levando como prenda um lenço, um cinto, um objeto qualquer dado por ela, a defender suas cores até a morte.

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De origem controvertida, o amor cortês, que partiu da Provença para toda Europa, pode ter nascido da necessidade dos menestréis e jograis agradarem às ricas senhoras do sul da França: únicas em todo o continente a poder herdar bens e dispor deles – uma espécie de feministas da época. Por se postarem os mancebos em adoração às suas damas, alguns historiadores da literatura universal quiseram ver a pretensa origem do preito amoroso no culto a Nossa Senhora. Essa afirmação, defendida pelos românticos, carece de base histórica, pois as manifestações do amor cortês precedem às dos poetas mariológicos, não havendo notícia de adoração à Virgem na primitiva Idade Média.


De qualquer forma, desenvolveu-se um grande número de poetas mariológicos, que poetavam paralelamente aos trovadores provençais, fazendo como que um “intercâmbio” de influências: enquanto os trovadores adoravam a mulher, colocando-a como deusa, com um amor prenhe de delicadeza espiritual; os poetas cantores de Maria introduziam tons em erotismo místico em suas composições.


O traço distintivo maior destas musas era a inacessibilidade. Para ser musa tinha que ser inatingível. As “atingíveis” desciam ladeira a baixo, da categoria de musa para de amante; ou quiçá para a de esposa (esta última categoria, mais rapidamente destituída das prerrogativas poéticas enaltecedoras que a anterior).


Petrarca, adepto do neoplatonismo, persegue a perfeição da “ideia” e defende que o amor não necessita da consumação amorosa, pois o amante encerra em si o ser amado, estando assim completo. Vide Camões, seguidor do neoplatonismo (somente na poesia, pois teve movimentada vida amorosa na realidade – que ninguém é de ferro), nos seus sonetos: “Transforma-se o Amador na Cousa Amada” e “Alma Minha Gentil, que te Partiste.”


O Romantismo, herdeiro do ideário medieval, mormente na lírica amorosa, vai cultuar, do mesmo modo, a mulher idealizada - se bem que menos deusa e mais mulher – mas igualmente proibida. A escola é idealista, execra o cotidiano, o prosaico. Nos romances românticos, o clímax é a união dos amantes via casamento, após o que, a ação decai e o autor faz só ligeiras referências aos fatos posteriores ao himeneu e remata com o famoso “foram felizes para sempre.”
As grandes musas da literatura universal, algumas já referidas, jamais casaram com seus cantores. Se chegaram a casar, tiveram a felicidade de morrer em seguida, escapando, por esta via, da indiferença do amado e do  esquecimento da posteridade. A paixão, inspiradora dos grandes poemas, que resiste a sofrimentos, guerras, perseguições e quejandos; não resiste ao cotidiano. Note-se: dizemos paixão, que é um estado patológico do ser humano, compatível com a loucura, difícil de ser vivida as 24 horas do dia; não amor, sentimento menos exaltado, mais duradouro.


Diríamos, sem querer fazer “blague”, em boa hora morreram Romeu e Julieta. Já pensaram o que seria do famoso par, após alguns anos de convivência consentida pelas famílias? Capuletos e Montecchios, em santa paz, a cuidar dos netos? Podemos imaginar Julieta, irritada: “Não dá para tirar essa toalha molhada de cima da cama”? E Romeu: “Ah é? E o meu barbeador que você usou de novo”? 

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Sábia D. Lourença que, recusando a mão da filha a Antônio Gonçalves dias, gênio poético, sim, mas D. Juan, volúvel e mulherengo, livrou-a a condição de esposa e deu-lhe a interdição requerida à categoria de musa. Musa é distante, musa é inatingível, Igual sorte não teve a mulher de Gonçalves Dias. Quem, fora os pesquisadores, sabe seu nome? Todos nós sabemos o nome de Ana Amélia, a inspiradora do amor imorredouro. Musa à altura de Beatriz e Madona Laura. Todos nos emocionamos com o amor que não foi consumado jamais; chama que não se apagou.


Por isso neste bicentenário de nosso poeta maior, não lamentemos a crueldade do fado  que separou Gonçalves Dias de Ana Amélia, e sim louvemos a sabedoria do Destino que, tirando-lhes a oportunidade de serem felizes, deu ao cantor e à sua Musa a imortalidade e nos legou, a nós, seus cultores, os mais belos poemas inspirados nesse amor impossível,  “Ainda uma Vez - Adeus”,  “Leviana”, “ Teus Olhos”, “És Tu?”, “Se se Morre de Amor” . “Retratação” e outros  tantos poemas que embalam nossas emoções.  


 E, se  “o poeta é um fingidor?” Ainda assim, não importa o real, e sim a sua versão: a que ficou nos poemas. Gonçalves Dias  e Ana Amélia vivem e embalam o imaginário amoroso dos casais apaixonados, sobretudo o coração dos ludovicenses e caxienses.

 

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(*) A autora: 

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 É Licenciada em Letras – Inglês e Português – Universidade Federal do Maranhão – UFMA (1974) e Mestra em Letras – pela Pontifícia Universidade Católica – PUC –RJ (1987). Possui os seguintes cursos de especialização: Especialização em Metodologia do Ensino Superior, Semiologia Aplicada à Literatura e Ensino à Distância. Foi professora da TV Educativa do Maranhão (1973-82) e é professora aposentada do Curso de Letras da UFMA (1975-96), onde ministrou Inglês, História da Literatura, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

MEDALHAS E HONRARIAS:

Medalha do Mérito Timbira (2013),categoria cavaleiro, Governo do Estado do Maranhão; Medalha João Lisboa, 200 Anos.Academia Maranhense de Letras, 2012; Medalha dos 400 anos de São Luís. Assembleia Legislativa do Maranhão, 2012; Medalha São Luís 400 Anos – Vale, 2012; Palmas Universitárias, UFMA, 2009; Medalha Laura Rosa (concedida às mulheres educadoras que se destacaram em outros ramos do saber), 2008; Medalha Odorico Mendes da Academia Maranhense de Letras; Medalha do Mérito Timbira (2006), Governo do Estado do Maranhão; Comendadora do IV Centenário de São Luís, 2012, Governo do Maranhão.

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JaimeHá 3 anos atrásBrasília /DF Sempre nós trazendo essas preciosidades. Aplausos de pé!!!
Professeur Louse Montenpeux. Marseille. FranceHá 3 anos atrásProfesseur Louse Montenpeux. Marseille. FranceLa passion, bien qu’elle puisse inspirer de grandes œuvres d’art et résister à des défis extrêmes tels que la souffrance, la guerre et la persécution, ne peut souvent pas survivre au quotidien. C’est-à-dire que les émotions intenses peuvent être alimentées par des circonstances extraordinaires, mais elles peuvent s’épuiser sous la routine et la monotonie de la vie quotidienne. C’est une observation intéressante sur la nature humaine et la durabilité des émotions.
Santanna, JoanaHá 3 anos atrásBelém do Pará.Excelente avaliação.
Kalil Guimarães Há 3 anos atrásBrasília DFOs textos da Ceres são maravilhosos. Deleito-me lendo o que ela escreve. Meus aplausos.
Joizacawpy Há 3 anos atrásSão Luís Um passeio na história da literatura guiado pela grande Ceres, que traz como foco principal o papel da musa que se reflete no poema cujo inspirado poeta movido pelo desejo inatingível imortaliza um ideal romântico. Trazer Romeu e Julieta para um contexto do cotidiano caso a história não tivesse o fim que teve, é uma sacada fantástica. E como exemplo mais emblemático pra nós a figura de Gonçalves Dias e Ana Amélia, imortalizada na pena do poeta maior. Obrigada pelo texto professora Ceres.
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