*Mhario Lincoln
Meu fascínio pela dança flamenca acabou me levando a renavegar pelo universo dessa arte milenar, que expressa a cultura e a alma do povo Andaluz.
Confesso que esta rápida crônica me foi inspirada pela foto da poeta e atriz Linda Barros, que interpreta uma bailarina flamenca. Ela acabou me relembrando 1996, quando tive que estudar essa tema, a fim de participar de um concurso de ensaios, promovido pela Embaixada da Espanha, no Brasil. E como um 'nó puxa outro', acabei resgatanto, também, um de meus poemas épicos, premiado em Portugal, que celebra a beleza e a força dessa manifestação artística: "A Cigana do Flamenco".
Aqui no texto, claro, destaque para a performance de Linda Barros ao interpretar um elemento tradicional e simbólico da dança flamenca, desde o vestido, às cores e às rendas, criando um conjunto de encanto e de história.
Aliás, o poeta espanhol Federico García Lorca foi quem mais soube captar, em seus versos, a essência do "Cante Jondo", o primitivo canto Andaluz, que acompanha a dança flamenca, uma poesia em movimento, que narra a música e a coreografia, com riquezas líricas e emocionais. É uma dança que evoca o mistério e o romance, a paixão e a força, o virtuosismo e a sensibilidade: que reflete a vida e a identidade de um povo.
Tal qual a performance (individual) de Linda Barros, essa alegoria flamenca me fez voltar no tempo e alcançar momentos em que tive muitas felicidades, quando ainda iniciava, de forma corajosa, meu mundo de poeta e escritor, abandonando, depois, gradativamente, minha carreira de jornalista profissional diário.
Abaixo, a letra do poema épica, "A Cigana do Flamenco", que teve duas interpretações magníficas. Uma do grande ator e diretor de teatro Domingos Tourinho e outra, no "Curta metragem", do ator Claudio Marconcine. A atriz convidada é a curitibana Isabelle Aguilar, filha da confreira APB/PR, Dione MS Rosa. A música é minha e de Chiquinho França (também premiada). "Amanhecer", do CD "Baixada", que está no Spotify.
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A CIGANA DO FLAMENCO
(*) Mhario Lincoln
Por ti sonhei deveras
pelas hóstias, comunguei,
sinceras vezes, refiz,
minha Eucaristia.
Loucos sonhos me abraçam,
na tez noturna, soturna,
louc'ardente sofrimento.
Meu lamento é mortuária urna,
sangue dilacerado pelo ontem.
Espanca, ode a ela, Florbela,
Pois minha dor é letal,
meu pobre coração arde.
Mas já é tarde. Foi-se a carne.
Ficou a saudade, o lume
O inesquecível perfume
da tua tarde cigana,
Ah! Amor do meu Palco,
atordoas meu cansaço pueril.
Ah! Cigana do Flamenco,
deixa-me ainda viver em teu elenco,
com minhas privações
de ancião vazio, beijando tua sombra.
Amor ineficaz de Pirro, loucas paixões,
assombradas pela alma que vagueia.
Longe de meus olhos, atrás de mim.
E minha cabeça, levem-na ao cadafalso.
Que a guilhotina corte a jugular
de uma saudade desatina.
E só, minha pobre alma saqueia,
como pirata em meu mar descalço,
todas as esperanças, sem piedade.
Mas, por favor,
dançarina de Flamenco.
Onde estás?
Não sou mais teu, nem rapaz,
mas sou gente imerso em chamas,
dependente, indulgente!
E se lembrares, um dia,
Paco de Lucía,
ou Carmen Linares,
Sente o perfume de quem te beijou um dia,
sente o abraço de quem morreu por ti.
Sente o grito de pavor quando te vi sumir.
Olha pra trás e vês, quantos passos,
Passos, passos, passos, passos milhares,
que te seguiram, seguiram, seguiram...
sem rancor, sem destino,
pura incoerência,
...até se perder no deserto
da minha inconsciência!
Mhario Lincoln/Julho de 2010
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