
A ENTREVISTA
LC – Discordo um pouco do Mestre, quando diz que “só é poesia o que não se sabe” porque para a mim a poesia é a revelação de tudo que não sei, daí podemos dizer que a poesia é também uma descoberta, sobretudo pela capacidade de revelar novos significados, ainda que nos convide a explorar o desconhecido.
LC – O meu processo de leitura iniciou-se muito cedo, muitos desses autores(as) foram fundamentais na minha formação. nos anos 80 ao passar férias em Teresina encontrei na casa de meu irmão,uma estante recheada de “autores e autoras” que me atravessaram e me encantaram de imediato: Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Murilo Mendes, Lima Barreto, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros…
ainda adolescente li os autores citados , além de Garcia Márquez, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos …
A lista é enorme!
Para não me alongar muito, destaco algumas obras que imprimiram em mim o espanto e o encantamento :
A paixão segundo G.H
(Clarice Lispector)
A confissão de Leontina
(Lygia Fagundes Telles)
Grande sertão veredas
(Guimarães Rosa)
Cem anos de solidão
(Gabriel Garcia Márquez)
Admirável mundo novo
(Aldous Huxley)
Lolita
(Vladimir Nabokov)
Isto sem falar em tantos poetas de ontem e de hoje, que são faróis a iluminar os meus caminhos.
LC – Este cenário tem sido marcado por uma diversidade impressionante de vozes, temas e estilos, sobretudo das vozes outrora silenciadas, das ditas minorias, das periferias, que vem rompendo as barreiras tradicionais de publicações, e aqui eu destaco o papel importantíssimo das mulheres escritoras.
Essa diversidade, reflete as complexidades da sociedade atual, abordando questões como identidade, gênero, raça, política e outras questões sociais, o que enriquece a cena Literária oferecendo perspectivas multifacetadas e estimulando diálogos importantes.
Quanto ao cenário maranhense, é impossível falar de poesia, sem citar, Ferreira Gullar, Nauro Machado e Salgado Maranhão, porém o campo Literário é vasto e em constante evolução, há uma nova safra de excelência na poesia contemporânea maranhense e um movimento forte de autores e autoras de um potencial criativo que alargam a força da literatura de nosso estado, onde, modéstia à parte, nos inserimos.
LC – Desde muito cedo.
Eu penso que a poesia nos escolhe bem antes de sabermos se é isso que queremos para nós. Eu sempre tive uma sensibilidade exacerbada, que me faz vê além do racional, aliada à leitura de mundo e de livros, só que em 2016 isso foi “atestado” com a publicação do meu primeiro livro “ Palafitas “ que foi muito bem aceito e me apresentou ao mundo Literário de fato.
LC - Não tenho muitas regras preestabelecidas, o primeiro critério sempre foi a leitura (eu leio muito). Guimarães Rosa já dizia:"Quando escrevo repito o que já vivi antes". No meu caso em particular,para criar eu preciso de uma provocação, do abstracionismo, das inquietações, mas meus olhos precisam se espantar com algo materializado: Um rio, um caminho, um babaçual, uma rosa…
Eu cito aqui um trecho do poema "Dois dedos abaixo do nível do mar" do livro “Palafitas” que bem define a minha relação com a escrita: A minha palavra é de coisa vivida"
LC - Quando criamos o coletivo Vozes do Vale pensamos, que além de agregarmos poetas da nossa região, poderíamos oferecer uma visão abrangente de diferentes estilos, temas e vozes.
Por isso a importância da publicação desta antologia que você me ajudou a organizar com a participação e parceria de Anna Liz, Carlos Vinhort, Evilásio Júnior e Luis Henrique Sousa Costa.
Antologia esta, que também surgiu da necessidade e da importância de se revelar à nossa região, ao nosso estado e ao mundo, a qualidade e a força do que vem sendo produzido fora dos grandes centros, além de funcionar como um registro histórico desta época e de seus movimentos Literários.
LC – Sim! Necessário e importante.
Ao levarmos poetas e poesia para as escolas, que é um dos objetivos do projeto, nós contribuímos para o desenvolvimento da sensibilidade estética e linguística dos alunos,incentivando uma apreciação mais profunda da linguagem e da arte. Sim! A literatura na escola pública desempenha um papel fundamental na formação humana dos estudantes, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, linguísticas e críticas, além de promover a sensibilidade, a empatia e a apreciação estética.
Falo isso como estudante, que fui e sou e como poeta que percorre escolas.
LC - Precisamos lutar contra a aridez de sentimentos, contra a voragem tecnocrática, sonhar um mundo mais humano, mais justo, precisamos levar para as escolas, ruas, praças, o discurso íntimo, trágico e salvador da poesia, Que a arte, a educação, a sensibilidade sejam escudos contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição dos valores da vida.
Mín. 13° Máx. 20°