
NOTA DA EDITORIA: "Por quase todo o mês de dezembro, a direção da Plataforma do Facetubes tentou convencer o Pastor Ecumênico e cofundador da Igreja Evangélica do Canto Sagrado, com sede em Salvador/Ba, Pr. Aldir d'Anta Caramujo a mostrar suas análises de algumas das maiores passagens bíblicas que a humanidade já leu. Ele pensou muito porque suas releituras são profundas, filosóficas e, em alguns momentos, provocativas. Mas finalmente decidiu estrear hoje. Portanto, boas leituras e tirem suas conclusões. Os comentários estão abertos para opiniões".
João 14:6 na visão Cristã, Filosófica, Ateia e Umbandista
Ọdàbó-A dúpé,
Pr. Ecum. Aldir d'Anta Caramujo
Caro Mhario Lincoln e equipe,
Antes de tudo é uma honra escrever nesta brilhante plataforma democrática e aberta às discussões genéricas que incluem inclusive, nossa filosofia cristã, vamos dizer assim.
Desejo começar interpretando uma das passagens mais citadas da Bíblia sagrada nestes últimos 3 mil anos de cristianismo. Trata-se da passagem de João 14:6, onde Jesus declara:
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.
Nela, não há dúvidas de que é uma afirmação central do Cristianismo, esta, assim, alvo de interpretação e reflexão ao longo dos séculos, tanto na teologia quanto na filosofia.
Enfoquemos, pois, em primeira instância, o ponto de vista teológico, como a única maneira de se reconciliar com Deus e alcançar a vida eterna, de forma singular e exclusiva. Ela estabelece Jesus como o mediador supremo entre Deus e a humanidade, representando a opinião cristã na necessidade de uma relação pessoal com Cristo para a salvação, ressaltando a verdade absoluta encontrada na pessoa de Jesus e em sua mensagem, bem como a vida plena que Ele oferece aos crentes.
Portanto, cabe aqui, nesse raciocínio, citar também o Apóstolo Paulo, que embora ele não tenha repetido essa afirmação de forma idêntica, suas escrituras refletem a mesma verdade fundamental de que a salvação vem por meio de Jesus Cristo. Paulo enfatiza a graça de Deus manifestada através de Jesus e a importância da fé nele para a justificação e a vida eterna. Por exemplo, em Romanos 10:9, Paulo escreve: "Se, com a tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo."
Ótimo posicionamento Cristão. Mas, do ponto de vista da filosofia pura, essa passagem de João 14:6 levanta questões profundas sobre a natureza da verdade, da religião e da exclusividade, claro que, assim, desafiando a ideia de relativismo religioso, argumentando que há uma verdade objetiva e uma maneira específica de chegar a Deus. No entanto, também levanta questões sobre a inclusão e o respeito pelas crenças de outras tradições religiosas.
Aliás, são inúmeras interpretações acerca dessa mensagem Bíblica. Escolhi essas, abaixo, para analisarmos juntos:
Além do Cristianismo, a interpretação dessa afirmação pode ser muito diferente em outras tradições religiosas que têm diferentes entendimentos sobre a salvação e o divino. Por exemplo, algumas tradições podem não reconhecer Jesus como o único caminho para a salvação ou para o Pai.
Voltando à perspectiva filosófica, à luz de conceitos como exclusividade, verdade e realidade, a ideia de que há apenas um caminho para a verdade ou para a realidade pode ser contestada por filosofias que defendem o pluralismo ou o relativismo. Tanto que dois dos grandes pensadores do século XX também opinaram acerca disso. Friedrich Nietzsche e Mahatma Gandhi.
Nietzsche, por exemplo, viu na afirmação de Jesus em João 14:6 como "uma expressão de dogmatismo religioso e uma tentativa de estabelecer um monopólio sobre a verdade espiritual". Nietzsche ainda argumentou que o Cristianismo, ao promover a ideia de que a salvação só é possível através de Jesus Cristo, contribuiu para a repressão da individualidade e a submissão das pessoas a uma autoridade religiosa. Ele via "a moral cristã como uma forma de moral de rebanhos (...)” que "sufocava a expressão livre do indivíduo".
Já Gandhi (eu cheguei a ler matéria sobre ele aqui nesta Plataforma), também tinha uma perspectiva crítica em relação ao cristianismo institucional. Ele respeitava o ensinamento de Jesus, incluindo a passagem de João 14:6, mas criticava a conduta "(...) muitas vezes hipócrita dos cristãos e a exploração colonial perpetrada pelas nações cristãs (...)". Gandhi acreditava que os cristãos muitas vezes "não viviam de acordo com os princípios de amor e não violência pregados por Jesus(...)". Ele diferenciava entre o Cristianismo de Jesus e o Cristianismo institucionalizado.
Claro que ambos, Nietzsche e Gandhi, ofereceram críticas ao Cristianismo, mas suas perspectivas eram diferentes. Nietzsche era um crítico filosófico que questionava a validade da religião em geral, enquanto Gandhi era um ativista social que respeitava os ensinamentos de Jesus, mas condenava a conduta contraditória dos cristãos. Suas interpretações da passagem de João 14:6 refletiram suas visões mais amplas sobre a religião e a moral.
Agora uma figura ímpar nesse cenário que merece um pouco mais de atenção. Spinoza E como ele, hipoteticamente, interpretou João 14:6? Em minhas pesquisas, pouco coisa desse filósofo do século XVII se refere ao tema. Porém, por hermenêutica, Spinoza sempre defendeu uma visão universalista da religião, enfatizando a unidade de todas as coisas em Deus. Portanto, não necessariamente limitada a uma única figura histórica, pela "importância da razão e da ética na vida religiosa(...)".
E na Umbanda? Como seria a interpretação da frase de Jesus “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”? Existem variações do mesmo modo como em qualquer tradição religiosa, dependendo das crenças individuais e do contexto. No entanto, é importante notar que a Umbanda, como muitas outras tradições religiosas, valoriza a diversidade de caminhos espirituais e reconhece a validade de várias abordagens para o divino. Portanto, embora Jesus seja uma figura respeitada na Umbanda, sua afirmação pode não ser vista como excluindo outros caminhos para o divino.
Por outro lado, os Orixás são vistos como divindades ou espíritos poderosos que podem também ajudar os seres humanos em sua jornada espiritual. Eles não são vistos como juízes das crenças individuais, mas como guias e protetores.
E aí, em que lâmina de pensamento você se inclui? Deixei uma lacuna, claro, a fim de que o leitor pudesse opinar de forma saudável sobre esse assunto.
Ọdàbó-A dúpé,
Pr. Ecum. Aldir d'Anta Caramujo
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