Quinta, 11 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

O Viriato Corrêa que todos nós precisamos conhecer: "Eu namorei muito com a Academia Brasileira de Letras"

Poucas pessoas conhecem, de fato, uma das partes mais íntimas do discurso de posse de Viriato Corrêa na ABL. Em 'excertos', o Facetubes traz parte dele.

28/01/2024 às 10h39 Atualizada em 28/01/2024 às 21h10
Por: Mhario Lincoln Fonte: Equipe de Pesquisa do Facetubes
Compartilhe:
Arte e efeitos: MHL
Arte e efeitos: MHL

Equipe de Pesquisa do Facetubes*

Introdução:

Em meio ao cenário literário brasileiro, um nome se destaca pela persistência e pela paixão pela escrita: Viriato Correia. Nascido no interior do Maranhão, Correia era conhecido por suas histórias infantis encantadoras e por sua determinação inabalável de ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar de ser motivo de chacota entre muitos intelectuais, que desconheciam completamente suas qualidades, Correia nunca desistiu de seu sonho. Sua jornada para a ABL foi marcada por obstáculos e críticas, mas ele permaneceu firme em sua busca. Um desses, João Ribeiro, por exemplo, não poupou críticas ao primeiro livro de Correia, “Minaretes”, publicado em 1903. Ribeiro considerou o título, de origem árabe, incompatível com os contos sertanejos que compunham a obra. Sua persistência finalmente rendeu frutos quando, em 14 de julho de 1938, Correia foi eleito para a Cadeira 32 da ABL. Sua eleição para a ABL não apenas validou seu talento como escritor, mas também serviu como um testemunho de sua determinação e paixão pela literatura. Assim, a história de Viriato Correia é uma inspiração para todos os escritores aspirantes, ratificando que a persistência e a paixão pela escrita podem levar ao sucesso literário. E, acima de tudo, sua vitória faz lembrar que "(...) o valor de um escritor não deve ser medido pelas opiniões dos críticos, mas pela qualidade de sua obra e pelo impacto que ela tem nos leitores", disse-nos o jornalista e poeta Mhario Lincoln, ao distribuir essa pauta para nossa equipe de pesquisadores do Facetubes.

Continua após a publicidade

 

QUEM ERA

Viriato Correia, cujo nome completo é Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho, emerge como uma figura multifacetada na história da literatura brasileira. Nascido em Pirapemas, Maranhão, em 23 de janeiro de 1884, e falecido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1967, Correia foi um verdadeiro polímata das letras, abraçando diversas formas de expressão literária ao longo de sua carreira prolífica. Sua trajetória como escritor, jornalista, contista, romancista, dramaturgo e autor de crônicas históricas e livros infantojuvenis o coloca no panteão dos grandes nomes da literatura brasileira do século XX.

A obra de Viriato Correia começou a tomar forma desde sua adolescência, quando, aos 16 anos, já se dedicava à escrita de poesias e contos. O lançamento de sua primeira coletânea, intitulada "Minaretes", em 1903, não foi recebido de maneira calorosa pelo crítico literário João Ribeiro, que manifestou sua desaprovação quanto ao título de origem árabe, alegando incompatibilidade com os contos sertanejos presentes na obra.

Essa crítica inicial não abalou a determinação de Correia, que persistiu em sua carreira literária, contribuindo com inúmeros jornais e revistas, como 'Gazeta de Notícias', 'Jornal do Brasil', 'Correio da Manhã', 'A Noite Ilustrada' e 'Tico-Tico'. Além disso, fundou dois jornais, o 'Fafazinho' e 'A Rua', demonstrando seu compromisso com a disseminação das letras.

Contudo, é inegável que a obra-prima de Viriato Correia é o livro "Cazuza", publicado em 1938. Este livro, que ainda mantém seu apelo e é reeditado com sucesso até os dias atuais, narra as dolorosas experiências escolares de um jovem enfrentando a autoridade de um professor em um remoto povoado no Maranhão, até seus anos de colégio na capital, São Luís.

Continua após a publicidade

A análise de Caio Carvalho ressalta a habilidade de Correia em utilizar a literatura como uma ferramenta de reflexão social, fazendo-nos questionar a maneira como os brasileiros enxergavam sua pátria e como essa visão era transmitida às crianças. Outra crítica, descreve 'Cazuza' como um livro atemporal, que abriu as portas da literatura infantojuvenil para a realidade da vida, demonstrando sua relevância contínua.

A inserção de Viriato Correia na Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira 32, empossado em 14 de julho de 1938, é um testemunho da sua notável contribuição para a literatura brasileira, e seu legado perdura através de suas obras. Sua incursão no campo da narrativa histórica o coloca em destaque, ao lado de nomes como Paulo Setúbal, que também se dedicou ao gênero.

Enquanto Setúbal preferiu explorar o romance, Correia optou por historietas e crônicas, com o claro objetivo de se conectar com o leitor comum. Dentre suas obras notáveis nesse gênero, destacam-se 'Histórias da nossa História' (1921), 'Brasil dos meus avós' (1927) e 'Alcovas da História' (1934).

Buscando tornar a História acessível ao público infantil, ele adotou a figura do amável ancião que reunia crianças em sua chácara para transmitir conhecimentos escolares, como pode ser visto em livros como 'História do Brasil para crianças' (1934) e 'As belas histórias da História do Brasil' (1948). Correia também deixou um legado na ficção infantil, com o romance 'Cazuza' (1938) destacando-se como um dos clássicos da literatura brasileira para crianças, retratando cenas de sua própria infância.

Sua influência nas artes cênicas, adquirida através de sua atuação como crítico de teatro e posteriormente como professor de história do teatro, consolidou seu domínio das técnicas dramáticas, tornando-o um dos mais celebrados autores teatrais de sua época.

Com cerca de trinta peças em seu repertório, que incluem dramas e comédias ambientados tanto em cenários sertanejos quanto urbanos, Correia se insere na tradição do teatro de costumes, seguindo a linhagem de escritores como Martins Pena e França Júnior.

Continua após a publicidade

Vale também mencionar que Viriato Correia teve uma atuação política, servindo como deputado estadual no Maranhão em 1911 e como deputado federal pelo Estado do Maranhão em 1927 e 1930. Essa incursão na política revela outra faceta de sua vida, onde sua paixão pela literatura e seu compromisso com o país se entrelaçaram de maneira fascinante.

Portanto, o maranhense Viriato Correia é um nome incontornável da literatura brasileira do século XX, um artista versátil que transcendeu as barreiras de gêneros literários e contribuiu significativamente para a compreensão da história e cultura do Brasil.

Sua capacidade de tocar corações, educar mentes e provocar reflexões sobre a sociedade e a infância através de suas palavras é uma marca indelével em sua vasta e diversificada produção literária.

Abaixo, algo praticamente inédito nos meios de Comunicação deste país. Trata-se de um excerto do discurso de Viriato Correia, quando de sua posse na ABL. Vale notar que nesse discurso, Viriato Correia faz uma metáfora entre seu longo desejo de ingressar na Academia Brasileira de Letras e um namoro. Ele destaca que, mesmo sendo um crítico literário de destaque, nunca teve a intenção de atacar a instituição, mas sim o desejo de ser parte dela. Ao longo dos anos, seu desejo se tornou uma espécie de piada nacional, com muitas brincadeiras sobre suas várias tentativas de eleição para a Academia. Viriato Correia descreve sua persistência e paixão pelo objetivo de ingressar na Academia, ressaltando que o amor pela imortalidade literária é a única virtude que ele trazia para a instituição.

 

"O Sonho de Viriato Corrêa". Arte: MHL

Excerto do discurso de posse.

(Terceiro ocupante da Cadeira 32, eleito em 14 de julho de 1938, na sucessão de Ramiz Galvão e recebido pelo Acadêmico Múcio Leão em 29 de outubro de 1938. Recebeu nos Acadêmicos Josué Montello, Luís Edmundo e Raimundo Magalhães Júnior.).

"O namorado da Academia"

Posso até gabar-me de ser o mais velho namorado da Academia. Porque, o que eu tive, senhores, através de tantos e tantos anos pela ilustre Companhia, outra coisa não foi senão um verdadeiro namoro.

"Foi Briand, o célebre político francês, quem afirmou: aos vinte anos somos incendiários, aos quarenta – bombeiros".

No Brasil, a gana maior dos moços é contra a Academia. Pois mesmo na flama da minha juventude, quando eu andava de facho aceso incendiando céus e terras, mesmo naquela fase, nunca, senhores acadêmicos, pretendi torrá-los numa fogueira. A fascinação da imortalidade era em mim mais forte que os meus frenesis de petroleiro.

Meu namoro com a Academia era de tal maneira escandaloso que se tornou até um dos pratos mais ricos da zombaria nacional. De norte a sul do País o humorismo jornalístico punha-o de quando em quando à mesa, para o agrado dos leitores.

Diziam-se de mim coisas bem ridículas. Certo humorista, aludindo aos constantes insucessos das minhas eleições acadêmicas, chamou-me Romeu sem escada, Romeu que não conseguia chegar aos braços de Julieta por não ter degraus de seda para subir ao balcão do amor.

Um outro chamou-me “tia” da Academia. “Tia” na acepção de solteirona.

Realmente não foi senão de solteirona o papel que representei com o meu namoro.

Na janela do sonho, mais de dois lustros me debrucei à espera do noivado da imortalidade. Diante dos meus olhos passaram cortejos nupciais, carruagens engrinaldadas, de noivos felizes. Aos meus ouvidos chegaram muitas e muitas vezes rumores de festas esponsalícias que se faziam nesta sala.

E eu ficava de cabeça zonza, olho comprido, água na boca, palpitando, suspirando, desejando...

De onde em onde, queimado pela febre da esperança, eu fazia um penteado novo (um novo livro, que atirava ao público), punha pó no rosto e carmim no lábio. Mas o noivado não vinha.

Iam-se casando as minhas irmãs, iam-se casando as minhas vizinhas. E, para mim, em vez de noivo, eram os cabelos brancos que chegavam. E eu palpitando, desejando, suspirando, água na boca, olho comprido...

Eram tão conhecidas as minhas inclinações pela Academia, que muita gente já me imaginava aqui de dentro. Em começo de 1930 tive a surpresa de receber um emissário de Guilherme de Almeida. O grande poeta de Simplicidade, candidato à vaga de Amadeu Amaral, mandava-me pedir o voto.

O amor de quem muito espera é um amor de altas calorias, que se refinou à prova de fogo. É esse amor a única virtude que trago para a ilustre Companhia."

--------------------

VÍDEO BÔNUS

Depoimento do poeta, escritor e pesquisador Natinho Costa Fênix sobre Viriato Corrêa

-----------------------

*Equipe formada - de forma espontânea - por estudantes de Biblioteconomia e Literatura, Artes e Filosofia, de Faculdades Pública e Particular, do Paraná.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Massa, né? Carlinhos TravassosHá 2 anos BlumenauOlha só a importância desse cara? Tem um endereço na Universidade de Santa Catarina só dele: https://www.literaturamaranhense.ufsc.br/autores/?id12516
José de Ribamar Santos.Há 2 anos LageadoO que fizeram da casa de seu Viriato em Pirapemas? Nada mais existe por lá que lembre o imortal. O que houve? alguém pode me explicar? Só o rio passando ao largo.
Luciana MonteiroHá 2 anos Professora e Contadora de Histórias Teresina PIOi gente boa. Faltou incluir algumas obras de VC: Novelas doidas (1921); Os meus bichinhos (1931); Gaveta de sapateiro (1932); O gato comeu (1943); A bandeira das esmeraldas (1945); O grande amor de Gonçalves Dias (1959).
Tetê Milhomen SoaresHá 2 anos São PauloIncrível. Não sei se no Maranhão tem. Mas aqui em São Paulo tem:Biblioteca Viriato Côrrea – Temática em Literatura Fantástica. Inaugurada em julho de 1952 no bairro de Vila Mariana, atuou principalmente com o público infanto-juvenil até novembro de 2008, quando passou a ser também temática de Literatura Fantástica. Endereço: Rua Sena Madureira, 298. Bairro: Vila Mariana – 04021-050 – São Paulo, SP.
Lilico Macedo (nasci em Pirapemas no Maranhão)Há 2 anos São Paulo SPÉ importante a gente abrir um informativo de manhã e ler algo tão precioso sobre minha terra. Pirapemas.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
15°
Parcialmente nublado

Mín. 13° Máx. 20°

15° Sensação
1.38km/h Vento
96% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sex 19° 11°
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Atualizado às 19h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,01%
Euro
R$ 5,91 +0,14%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 343,885,82 +0,33%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias