
COCÔ, PANTURRILHA, TESTOSTERONA E OUTRAS COISAS
Eloy Melônio, convidado da Academia Poética Brasileira
Seja sincero(a): você examina o seu cocô depois de usar o vaso sanitário? Se sua resposta for afirmativa, parabéns. Se negativa, repense sua atitude.
Sim ou não, imagine-se agora como se tivesse saído da caverna de Platão e entrado numa feira multifuncional num imenso ginásio climatizado. Um cenário iluminado pelas vozes do conhecimento e da informação, com muita gente falando de tudo, vendendo de tudo — inclusive "filosofia". E, aparentemente real, configurado com os tons da facilidade, do "tudo é possível" e do "agora ou nunca".
Pois foi exatamente o que eu, de repente, vi e senti nessa nova onda que, inicialmente, invadiu o Instagram e agora chega às outras praias digitais. Em termos mais específicos, são novos e atraentes aspectos mercadológicos regendo essa rede social. E o público-alvo desses novos influenciadores são pessoas em busca de qualidade de vida, ou seja, saúde, condicionamento físico (fitness), ou até mesmo equilíbrio emocional.
Depois dos "mapas mentais", temos de encarar um exército de promotores explicando, alertando, sugerindo... e tentando vender ideias, produtos, sonhos. Não posso esquecer os bem-intencionados, querendo nos ensinar coisas da vida prática. E confesso que, a cada imersão em suas apresentações, ressurjo motivado por uma ideia ou sugestão e, às vezes — não posso negar — assustado ou estarrecido.
Já estávamos acostumados com os influenciadores digitais mostrando ou explicando coisas que a gente pensava que sabia ou nem sabia se existiam. Ou, como diz uma canção, "Coisas que eu nunca entendi". Por exemplo, como cozinhar e descascar ovos, deixando-os inteirinhos, prontos para comer. Em outra situação, arregalei os olhos quando um senhor, aparentemente sério, avisava: "Seis caroços de mamão podem salvar a sua vida!" Não tive escolha senão pegar alguns dos caroços que passo ao Léo, meu papagaio, nas primeiras horas do dia. Depois desse dia, numa certa proporção, passamos a repartir o seu café da manhã.
Agora entram em cena os influenciadores profissionais: médicos, dentistas, fisioterapeutas, nutricionistas, e por aí vai. E aí o bicho pega "pra valer" — ou melhor, pra vender.
Para complicar, ainda tem esse tal de "algoritmo", que nos entrega de mão beijada a esses senhores e senhoras. E aí passamos à condição de "caça", perseguidos dia e noite. E haja ligações telefônicas e mensagens no nosso e-mail e Whatsapp! Se perceberem que você precisa de uma prótese dentária, vão cutucar você com compressor curto. Abra o seu Instagram, e lá vêm duas, três ou mais clínicas oferecendo o melhor atendimento, o menor preço e o mais lindo sorriso.
Fiz um teste sem caráter estatístico: de cada dez publicações, apenas duas ou três eram de conteúdo social (passeios, aniversários, eventos culturais). As outras: venda, venda, venda.
Neste momento, a "testosterona" — hormônio responsável pelas características masculinas e regulação da função sexual — assume o protagonismo no palco masculino. Não sei de onde saíram tantos especialistas, tantos remédios e tantos métodos para acabar com a tal da impotência sexual. E os argumentos são, no duro, inegavelmente convincentes.
A conversa começa num tom brando de alerta. Depois, falam da decepção, da vergonha. E, por fim, apresentam a solução. Essa, infelizmente, não se joga nos braços do pobre interessado, que precisa morder a isca, ou seja, clicar na tarja com a indicação SAIBA MAIS. "Lá vem o golpe!", sussurra seu instinto de sobrevivência. Se continuar, a porta se abre, e, à sua frente, um longo caminho, pavimentado de argumentos. Em seguida, preços, formas de pagamento. E, por fim, se você não amolecer, levantam o troféu da satisfação prometida.
Bênçãos também estão nesse céu de cuidados terapêuticos, conselhos psicológicos, filosofia de vida. Tenho aprendido coisas interessantes sobre saúde, alimentação e condicionamento físico. E já mudei hábitos e comportamentos. Desde que soube que a panturrilha é o nosso "segundo" coração, responsável por bombear o sangue de baixo para cima (de volta), faço exercícios para fortalecê-la. Se o samba pede "palma da mão/palma da mão", o coração grita "ponta do pé/ponta do pé".
Mesmo assim, não deixo de consultar um especialista do mundo real para validar essas questões. Meu cardiologista, por exemplo, reposicionou a panturrilha no "terceiro" lugar, deixando a "aorta" em sua devida posição.
Antes de concluir, preciso revelar duas atitudes que, efetivamente, podem ajudar muitas pessoas. Se você tem dificuldade para evacuar, experimente sentar-se no vaso, fechar uma das mãos e soprar, como se estivesse enchendo um balão. Depois, com a outra mão, repita o procedimento. Não sei de quantos sopros você vai precisar, nem se isso vai funcionar com você. Mas que o alívio tão esperado vale a pena, ah isso vale!
Também não sei se você examina o seu cocô, mas saiba que essa atitude pode resolver sérios problemas gastrointestinais. Minha esposa não é tão ligada a essa questão, por isso — sempre que estou por perto — pergunto-lhe: _e aí?_ Pelo menos ela já sabe: cocô em bolotas ou de cor preta ou marrom escuro são sinal de que o intestino não está funcionando direito.
Mais compenetrado, faço questão de me antecipar em alto e bom tom: _Caramelo em forma de banana! Perfeito!_
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*eloy melonio* é cronista, contista, poeta e letrista1
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