
Querida prima Soraya.
Há alguns anos, a poeta Soraya Felix publicou no Facebook, um texto sobre a "Saudade", essa semana a rede social republicou o texto e ela compartilhou no Instagram. Eu li e imediatamente me convenci de que era um texto que mostrava a saudade de forma muito diferente da usada, muitas vezes, nos poemas, nas músicas, em encontros de paixões. É essa manifestação pura, simples, traduzida em "Hoje é dia de saudade", mas que tem em suas filigranas, uma imensa radiação de energias cósmicas de altíssima voltagem. Isso mostra a virtude que a maranhense Soraya Felix tem, demonstrada nesse texto escrito com palavras do coração. Parabéns, Soraya! Abaixo, o texto:
Hoje é o dia da saudade?
*Soraya Felix, poeta maranhense, integrante da importante coletânea "Incandescência do Crepúsculo"/Litograf/Euclides Sousa.
Não sabia que tinha um dia destinado a mim. Sou saudosista e sentimentalista demais.
Há quem diga que o que passou passou e que o certo é só olhar pra frente, visionando somente o futuro.
Claro, ninguém vive de passado, mas chego a me deliciar com lindas recordações da minha vida. Saudade pra mim tem vida, cor, som, perfume, sabor, clima e até mesmo é pontual em alguns minutos do dia.
Saudade vem em dias de sol, céu azul, céu nublado, vento suave, dias de chuva, noite estrelada. Quem não sente saudade quando olha, vindo por detrás de um majestoso oceano, uma imensa e dourada lua?
Saudade faz rir, chorar, remexe emoções, faz bater forte o coração, refrigera a alma, faz brilhar os olhos com belas lembranças. Saudade traz amores de volta, leva ao colo de amores distantes, é sonhar acordado com esses amores que se foram, com os doces tempos das mãos suadas, o coração acelerado, aquele gostoso friozinho na barriga no encontro com o primeiro amor. Ai, ai meu primeiro amor…por onde anda as pétalas da rosa que me destes roubada de um jardim qualquer? Em que página do livro de poemas elas se perderam? Como deixar que o tempo apague tão linda imagem dos olhares disfarçados, do tímido beijo, que eternizou nossas saudades?
Saudade faz rever anjos que partiram para sempre, dos beijos, carícias, do colo, da voz, das canções que me adormeciam e que voltam sempre quando chamados por um coração saudoso. Assim como o meu".
(Soraya Felix).
Minha análise
Saudade e o Humanismo Renascentista
*Mhario Lincoln
Minha caríssima poeta Soraya Felix. Emocionou-me muito vê-la descrever a saudade de forma incrivelmente diferenciada de muitos dos textos que costumo ler acerca da espontaneidade da palavra "saudade". Sua expressão caligráfica, dá-me a liberdade de levá-la ao campo da filosofia neoplatônica do porquê da saudade, que nesse contexto, pode ser vista, também, como uma ponte entre o material e o espiritual, entre o humano e o divino, refletindo o anseio da alma por se reconectar com o que é eterno e imutável.
Não há como deixar de lado a representação da 'saudade', não apenas como uma emoção, mas como uma experiência temporal que conecta passado, presente e futuro. Essa concepção se alinha com as reflexões filosóficas, sobre o tempo e a memória, especialmente nas obras de autores como Santo Agostinho, cujas ideias apoiaram a influência do pensamento renascentista. Agostinho considerava o tempo como uma extensão da mente humana, onde o passado vive na 'memória', o presente no 'atenção', e o futuro na 'expectativa'. A saudade, sob essa ótica, em que seu texto está incluído, é uma manifestação da capacidade humana de transitar entre essas dimensões temporais, atribuindo o valor às experiências vividas.
Immanuel Kant igualmente nos ensinou ser a 'saudade', moldada pelas estruturas inatas de nossa mente. Nesse sentido, as (suas) saudades, Soraya Felix, são suas qualidades vivas e sensoriais. São manifestações da maneira como a mente humana estrutura a experiência da perda ou ausência. Na verdade, são, ainda, percepções e emoções desempenhando um papel central em nossa compreensão do mundo. Portanto, a sua descrição da 'saudade', como você diz, é algo que tem “vida, cor, som, perfume, sabor, clima” e que é “pontual em alguns minutos do dia”: e mais, é um eco das ideias boas sobre a importância das percepções sensoriais e das emoções na formação de nossa experiência.
Depois de lê-la, estou, confesso, profundamente agradecido pelo texto publicado no "Instagram", fato que me permitiu compreender a saudade como uma experiência mais humana, enraizada nas reflexões sobre a natureza, o tempo, a memória e a transcendência. Desta forma, indo por outra linha que até então desconhecia, a 'saudade' é mais do que uma emoção; é uma expressão do desejo humano por conexão, significado e beleza, temas que estavam no coração do pensamento renascentista.
Teu primo, Mhario Lincoln*
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