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BOMBA: poucos conhecem o verdadeiro Holocausto Brasileiro

Surpreendentemente, cerca de 70% dessas pessoas não apresentavam diagnóstico de doença mental.

25/01/2026 às 16h42 Atualizada em 26/01/2026 às 16h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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*Mhario Lincoln

Discute-se nas últimas semanas, assuntos pertinentes à massacres, brigas étnicas, religiosidade. Todavia, poucos brasileiros, especialmente mineiros se deram conta de uma das maiores tragédias brasileiras (com seus próprios filhos brasileiros, sem religião, sem ideologia, sem partidos políticos) acontecida entre muros de um Manicômio na cidade de Barbacena/MG.

Garimpando minhas prateleiras - e pensando em escrever algo pertinente - descobri o livro da corajosa jornalista Daniela Arbex, o Holocausto Brasileiro - Gonocídio que matou 60 mil pessoas no maior hospício do Brasil, no interior mineiro.

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Até antes de Daniela, era um capítulo sombrio, esquecido nas páginas empoeiradas da história brasileira. No livro-reportagem que marca sua obra, Daniela Arbex resgata a brutalidade e a desumanidade que marcaram a maior parte do século XX no Brasil. Sua investigação meticulosa lança luz sobre o genocídio perpetrado pelo Estado brasileiro no maior hospício do país, conhecido como Colônia, localizado na cidade mineira de Barbacena.


Entre os muros da Colônia, pelo menos 60 mil vidas/mortes passaram por lá, a maioria delas internadas à força.

"Surpreendentemente, cerca de 70% dessas pessoas não apresentavam diagnóstico de doença mental. Eram, na verdade, epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas e até mesmo indivíduos considerados 'incômodos' para a sociedade. Havia ainda meninas grávidas violentadas, esposas confinadas para facilitar a vida dos maridos infiéis, e filhas de fazendeiros que haviam transgredido normas sociais", conta o livro.


Ao chegarem à Colônia, os internos eram despojados de sua humanidade. Tinham suas cabeças raspadas, suas roupas arrancadas e seus nomes substituídos por outros escolhidos pelos funcionários. 

Daniela Arbex devolve a essas vítimas esquecidas não apenas seus nomes, mas também suas histórias e identidades. Entre elas estavam Maria de Jesus, internada por se sentir triste, e Antônio Gomes da Silva, que, sem diagnóstico, passou 21 anos mudo porque ninguém se preocupou em perguntar se ele podia falar.

A vida na Colônia era um verdadeiro inferno. Os pacientes chegavam a comer ratos, beber água contaminada, dormir ao relento em noites geladas e serem espancados e violados. 

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Mulheres grávidas tentavam proteger seus bebês passando fezes sobre suas barrigas para evitar serem tocadas. No entanto, os recém-nascidos eram frequentemente retirados de seus braços e doados.  Alguns pacientes morriam de frio, fome, doença ou devido aos brutais tratamentos, como os eletrochoques tão intensos que chegavam a derrubar a rede elétrica da cidade.


A desumanidade atingiu níveis ainda mais perversos quando corpos de pacientes falecidos eram vendidos para faculdades de medicina entre 1969 e 1980. Quando o mercado para esses corpos encolheu, eles eram decompostos em ácido, diante dos olhos dos pacientes, para que suas ossadas pudessem ser comercializadas.

O impacto dessa tragédia era tão profundo que, em visita à Colônia, o fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro, a descreveu como "um assassinato em massa". Já o psiquiatra italiano Franco Basaglia, lutador pelo fim dos manicômios, comparou o local a um campo de concentração nazista, afirmando que nunca havia presenciado tamanha tragédia em sua vida.

Daniela Arbex, com sua investigação corajosa e minuciosa, lançou um olhar crítico sobre esse capítulo obscuro da história brasileira, dando voz aos que foram silenciados e trazendo à tona uma verdade dolorosa que não pode mais ser ignorada.

 

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Daniela Arbex.

DANIELA ARBEX

Daniela Arbex é uma das jornalistas do Brasil mais premiadas de sua geração. Repórter especial do jornal Tribuna de Minas há 18 anos, tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso. O mais recente recebido em 2012 com a série "Holocausto brasileiro", dois prêmios Vladimir Herzog (menção honrosa), o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa).  Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa).

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Joizacawpy Há 2 anos São Luís Eu não conhecia essa história, chocante, desumana e cruel, e temos que está atentos ao contexto que envolveu esse episódio, para entender como essa crueldade pode ter tido espaço para acontecer. Obrigada pela matéria, mais um aprendizado.
Renata da Silva de BarcelllosHá 2 anos Rio de JaneiroA temática é um dos meus interesses. Precisamos manter a memória fresca quanto a este é outros genocídios cometidos no Brasil, como o contra os indígenas.
Juarez CastroHá 2 anos Belo Horizonte MGÓ Marlene, olha aqui? Isso não é um joguinho de Paz e que a gente tem que aprender com os erros do passdo. Isso fica pra filósofo. O que se vê nesse livro é uma tremenda falta de responsabilidade coletiva na proteção dos direitos humanos. Ele mostra como a omissão da sociedade contribuiu para a perpetuação dos abusos na Colônia.
Marlene SabrinaHá 2 anos Rio de Janeiro, escritora.Caro senhores, o livro nos lembra da importância de conhecer e compreender nossa história, mesmo que seja dolorosa. Ela destaca como eventos passados podem lançar luz sobre questões atuais e nos ajudar a evitar a repetição de erros do passado.
MTRHá 2 anos São Luís MaUm absurdo. Mas era assim que os manicômios funcionavam. Em São Luís a Colônia Nina Rodrigues era assim. Alcoólatras eram muitos. Eu, por exemplo, passei 45 dias lá tomando remédios malucos para o tratamento de alcoolismo. Imagina. Vou deixar minhas iniciais.
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