
João Ewerton, Designer, Roteirista de cinema e televisão, dramaturgo com mais de 30 espetáculos encenado, com uma premiação superior a quarenta prêmios no nível nacional.
Mais uma vez, o Boi Caprichoso e o clamor ancestral no coração do Amazonas, onde tradição e arte se fundem com resistência e espiritualidade. Mais uma vez, o Boi Caprichoso deu o tom do Festival de Parintins com um tema de arrepiar: “É Tempo de Retomada”. Mais do que um enredo, o espetáculo é um manifesto vibrante pela valorização dos povos originários, da cultura afro-amazônica e da própria floresta como entidade viva – a mãe que sustenta toda a grandiosidade do universo visível e invisível da Amazônia, conhecida e desconhecida. Da Amazônia preservada ou destruída.
O backstage da arena do bumbódromo fervilha como se um pelotão de quase quinhentos técnicos das mais diversas funções tomam posição e agir rápido para ajustar as gigantescas estruturas que surgem diante do portão do backstage. Movem-se como se já tivessem ensaiado para entrar por ali, dispensando qualquer grito apavorado de um suposto comandante de tropa tentando evitar um desastroso impacto das alegorias com as paredes do portão. Bem ali, a gente já tem noção do avanço técnico dos bois de Parintins – bem diferente e muito à frente das escolas de samba, que exibem tecnologia nova a cada desfile, mas, em compensação, nos bastidores, a guerra é sinistra, e o trato entre eles, muitas vezes, vergonhoso e arrogante.
Sem querer julgar, mas ver a tranquilidade de Rossy Amoedo perto do portão de entrada do Caprichoso, transmitindo uma confiança inabalável aos seus comandados, é algo digno de registro e elogio. Pois trabalhei muito nesse setor com escolas de samba e sei das crises de estrelismos e estresses que presenciei.
A marujada de guerra do Caprichoso, assim como a batucada do Garantido, causam um impacto arrepiante quando adentram a arena, e você está perto da sua entrada. Ali, se vê os rostos do povo nativo presente, ansioso e orgulhoso de fazer parte daquele espetáculo – ou melhor, de ser o próprio coração do festival, aquele que dita o ritmo de tudo e adentra o coração e a alma de todos que assistem: no bumbódromo, nas TVs localizadas em quase todas as casas de Parintins, e do restante do mundo que vê pela televisão em vários países. É algo que me traz lágrimas aos olhos, me reconhecendo naqueles irmãos indígenas diretos e outros, como eu, por herança atávica.
É inominável a emoção que nos arrebata naquela passagem e no posicionamento, que acaba se tornando uma cerimônia sagrada ditada pelo acúmulo de inúmeras etnias e ancestralidades plurais reunidas naquele batalhão de mais de 300 percussionistas, com o espírito rítmico dos ancestrais no coração, nas mãos e na memória. Algo que só se consome por instantes, ao ser surpreendido pelas gigantescas partes de uma alegoria em forma de um Homem Gavião, dividida em vários módulos, que adentra a arena imediatamente atrás da marujada e forma uma rotunda animada, iluminada e povoada de composições humanas que executam movimentos coreografados carregados de significados profundos.
Enfim, o Caprichoso, nessa primeira noite, trouxe para o palco da arena 3 alegorias gigantescas (como é padrão dos dois bois de Parintins), mais 2 módulos alegóricos, 300 marujos e 1.800 brincantes.
É praticamente impossível descrever as minúcias dos três dias de espetáculo do Festival de Parintins, por isso vou me ater a falar um pouco sobre a primeira noite de apresentação dos dois bois, tentando dar um panorama desses magníficos espetáculos – principalmente naquilo que tange a questão conceitual, pois é nesse viés que eles ganham a proporção que os tornam tão grandiosos.
A primeira coisa que chama atenção nesse formato de espetáculo é a total desvinculação da estrutura deles em relação ao teatro, à ópera e ao cinema, pois apresentam uma métrica cênica diferente de todas essas linguagens. Isso se nota nas aberturas dos espetáculos, onde não se conta com a urgência dramática normalmente usada nas linguagens cênicas convencionais – aquela que tenta prender a atenção do público com ações impactantes e dinâmicas, determinando a ritmoplastia seguida pelo roteirista, dramaturgo e diretores, para que o espetáculo seja arrebatador e deixe o público colado na cadeira.
Ao ver a abertura do Caprichoso (com ritmo semelhante ao início do Garantido), percebe-se uma preocupação exclusiva para com a plasticidade, sem nenhuma pressa com o tempo de cena ou plot de virada. Ali existe penas a determinação de iniciar um espetáculo em que a grandiosidade é o seu plot point e arco dramático.
Como diretor cênico e cenógrafo, eu fico sem fôlego diante da ousadia da logística, ao ver surgir no céu uma composição alegórica suspensa a quarenta e cinco metros de altura, pelo braço de um guindaste gigantesco que custa 30 mil reais por dia e chega a Parintins uma semana antes do festival, só saindo de lá mais de uma semana depois – devido ao seu difícil transporte nas balsas, que precisam ser próprias. Além disso, uma vez que esse equipamento exige um preciso apoio do serviço de meteorologia, porque não se pode levar aquela peça em período de vento ou tempestade, sob risco de naufrágio.
É impossível não admirar o espírito arrojado e desafiador do presidente do Caprichoso, Rossy Amoedo – um visionário tão audacioso para o Festival de Parintins quanto Joãozinho Trinta foi para o Carnaval do Rio de Janeiro. Rossy, esse escultor e visionário com trabalhos gigantescos em vários estados brasileiros (executados com tecnologias exclusivas criadas por ele), vem modificando o visual urbano desses lugares com suas esculturas monumentais, além de exportar sua mecatrônica para as alegorias do Rio e São Paulo – o que ele faz questão de fazer exclusivamente com a sua equipe e supervisionar pessoalmente, sem ceder seu know-how a terceiros.
Rossy é tão convicto da segurança da sua tecnologia que se dá ao luxo de colocar as joias do seu conjunto cênico, dentro de uma composição alegórica em forma de Homem Gavião, que surgiu no espaço carregando em suas garras uma estrutura menor, semelhante a uma sacada guardada por grades baixas, onde estavam o Levantador de Toada, Patrick Araújo (o Item 2), o Boi Caprichoso e o incrível apresentador do Caprichoso, Edmundo Oran (o Item 1) – um jovem indígena formado pela escola de talentos do Caprichoso, que tem fornecido todos os tipos de profissionais para a estrutura técnica do boi azul e branco, através do trabalho de base feito junto a jovens das periferias de Parintins.
Antes da composição tocar o chão da arena, Patrick Araújo já arrebata o bumbódromo com seu canto empolgante, com a garra que o espetáculo exige – e ele acrescenta alguns pontos acima com sua energia e paixão azul.
Agora, quero comentar – com todo o meu respeito, como afro-indígena e como diretor cênico, com toda reverência aos meus antepassados e companheiros de etnias –, digo, como profissional de cena, que respeito o trabalho de todos os profissionais que produzem cultura, seja ela popular, folclórica ou erudita, especialmente quando se trata dos fazedores de cultura vindos dos povos originários e das etnias de origem africana. Pois nós sabemos como é o caminho tortuoso, acidentado e traiçoeiro que temos que percorrer para chegar ao palco do mercado.
Digo isso porque acho que temos que separar muito bem as funções, para não comprometermos a nossa qualidade e o brilho lapidado de um determinado trabalho – para não significarmos uma peça colocada no lugar errado, que prejudique tanto o trabalho em questão quanto, principalmente, a imagem do próprio profissional.
Foi exatamente isso que aconteceu com a participação da escritora indígena Truduá Dorrico, na abertura da primeira noite do Caprichoso, lendo um texto com sem a mínima noção dos valores das palavras proferidas. Um texto muito forte pelo que estava escrito, mas que foi quase destruído pela falta de noção de interpretação da escritora. A gente tentava adivinhar a intensão da narrativa e a cada vez que as palavras iam se juntando, aumentava proporcionalmente a desastrosa distância entre a interpretação dada pela escritora e o significado real do texto – destoando totalmente da qualidade impecável daquele espetáculo.
No palco, dentro de um espetáculo tecnicamente elaborado, não cabe amadorismo, e os próprios profissionais têm que saber domar sua vaidade e entender onde podem ou não estar presentes. Nenhum dos grandes astros do cinema mundial ficaram famosos por aceitarem qualquer papel que as produtoras lhes oferecem – não. Eles têm estilo e qualidade as quais eles exigem dos roteiros que aceitam trabalhar. É por isso que quando vamos ao cinema sem conhecer o argumento do filme, já sabemos da qualidade apenas pelos nomes citados no elenco. E ainda assim, às vezes, nos decepcionamos.
Não entendo como a competentíssima equipe diretora do Caprichoso, que organiza esse espetáculo grandioso, planejado e exaustivamente ensaiado, não pensou em criar um quadro cênico onde um excelente ator (ou atores) declamasse aquele texto, e a senhora Truduá Dorrico fizesse parte como a figura de destaque desse quadro, onde sua biografia pudesse ser divulgada. Assim ela sairia, ovacionada, pelo reconhecimento da qualidade dos textos que produz, muito mais valorizada do que com essa participação melancólica.
Ao contrário da senhora Truká Dorrico, o Mestre Bacuri, Raimundo Fernandes Rodrigues, aos 74 anos (com 52 de marujada), que representa sempre um momento de arrepiar no espetáculo do Caprichoso pelo seu significado - como o Tambor que Desperta o Caprichoso e o guardião sonoro da alma do universo azul.
Desde 2007, ele é o responsável por dar os três toques iniciais no surdo que rege a entrada dos tambores da marujada anunciando o início do espetáculo do Boi Caprichoso no Festival. Seu gesto é mais do que tradição: é ritual, é encantamento, é o ponto de ignição da magia que toma conta do Bumbódromo a partir dos seus três toques. Nascido no coração de Parintins, Mestre Bacuri começou a tocar ainda menino, improvisando instrumentos no quintal de casa. Sua paixão e talento o levaram à Marujada de Guerra, onde galgou seu espaço até se tornar uma figura lendária. Porque os três toques que ele executa no surdo não são apenas marcações rítmicas: são sinais sagrados. O primeiro toque invoca os mestres ancestrais dos sons. O segundo toque chama os presentes à ação: os marujeiros se alinham, o povo se levanta, a energia pulsa. O terceiro toque é uma oferta ao futuro, abrindo caminho para que o boi brilhe, emocione e vença.
Por isso, sua presença na arena – destacada por iluminação teatral para solista – envolve o bumbódromo num manto de profundo silêncio respeitoso. Todos se voltam para ele com o olhar atento e a respiração quase parada, aguardando a baqueta descer como um raio e bater naquele surdo, fazendo-o retumbar como trovão, anunciando que o Caprichoso chegou.
Naquele instante, Bacuri não é apenas um homem indígena – é símbolo, é arquétipo e, acima de tudo, é o primeiro respiro do espetáculo. Sem o Mestre Bacuri, o boi não desperta. Sem seu tambor, a floresta não dança.
Assim, com uma encenação grandiosa, marcada por alegorias monumentais, toadas emocionantes e coreografias de arrepiar, o Caprichoso fez do seu desfile uma convocação poética e política ao mesmo tempo. O grito era claro: é hora de resgatar o que é nosso – a memória, o saber ancestral, o equilíbrio com a natureza e a dignidade dos povos da floresta, usando como eixos centrais os temas:
Amyinpaguana: Retomada pelas Lutas – enfatizando a resistência indígena e as lutas históricas dos povos da Amazônia. Kizomba: Retomada pela Tradição – resgatando a memória, os rituais e as tradições culturais de herança africana da região. Kaá-eté: Retomada pela Vida – exaltando a vida na floresta, a espiritualidade e a conexão com a natureza, incluindo homenagens a figuras como Chico Mendes e à deusa Waurãga, guardiã da mata. São recados que chegam ao mundo inteiro.
Mín. 13° Máx. 20°