
SOCORRO GUTERRES, membro eleita da Academia Poética Brasileira.
Daí a César o que retrate a grandeza de César, assim poderia ter sido a solicitação de César Augusto, também conhecido como Otaviano, a Publius Virgílio Maro, a fim de que este criasse um poema épico para glorificar Roma e ainda o apresentasse como descendente do herói troiano Eneias. Desse modo, sob encomenda, a Eneida seria uma elegia para legitimar o poder de Augusto. Escrito no século I a. C. e publicado postumamente em 19 a.C., o poema épico latino apresenta-se no ritmo do hexâmetro datílico, sob a inspiração das epopeias gregas de Homero: a Ilíada e a Odisséia . Embora quase sempre em segundo plano em relação a elas, que eram orais, a Eneida,no uso da escrita, expõe-se como principal poema da civilização ocidental, num aspecto que extrapola a questão linguística, estabelecendo-se mesmo como civilizatória, em cujas páginas há uma singular expressão da complexidade da alma humana.
Com a morte de Júlio César, Otávio Augusto (filho adotivo e sobrinho-neto do primeiro César), pacificou as guerras civis (apesar da continuação das guerras externas), sendo o primeiro imperador romano pós-república. Nesse novo regime político, de pax Romana ou pax Augusta, no qual a cultura está em ebulição e Roma transforma-se na cidade marmórea, encontra-se inserido Virgílio, partícipe dessa nova urbe. Nesse período Otávio Augusto tinha como conselheiro e amigo, Caio Cílnio Mecenas, um patrono das artes, cujo nome viria se tornar sinônimo de proteção à cultura. Assim, Mecenas patrocinou grandes poetas como Virgílio, Horácio e Ovídio, contribuindo para "O século de Augusto", período grandioso do florescimento artístico de Roma.
No chamado Círculo de Mecenas os poetas liam os escritos uns dos outros, enriquecendo-se mutuamente, bem como eram feitas cópias das obras para serem lidas em público. Em Pompeia (visita inesquecivel que fiz anos atrás) é possível encontrar grafites nas paredes atribuídos aos versos da Eneida ,de Virgílio. O poeta viveu por aproximadamente cinquenta e poucos anos, entre 70 e 19 a. C, o que à época era considerado um período longevo. Proveniente das proximidades de Mântua, ao norte da Itália, Virgílio se associou ao poder de Otávio, sobretudo por sua vasta cultura, pois conhecia o grego, o latim, a retórica, a filosofia, as ciências enfim.
Dante na monumental Divina Comédia escolheu Virgílio como guia em sua jornada poética pelo inferno e purgatório, declarando-o como símbolo da mais alta sabedoria humana. Num grupo admirável de poetas e intelectuais, Virgílio destacava-se: além da Eneida publicou As Bucólicas ou Eclógas , de motivação pastoril disposta em dez poemas longos, e ainda As Geórgicas , poema em quatro cantos dedicados à agricultura. O último desses cantos volta-se à apicultura, numa forma didática, usual à época, também adotada por Hesíodo e Lucrécio, no intuito de ensinar.
A Eneida é o poema mais importante para os romanos e apresenta como temas centrais a piedade, o amor, o destino, a justiça e a fundação de uma nação, por meio das viagens e batalhas travadas por Eneias, o ético herói troiano, filho do mortal Anquises e da deusa Afrodite, cujo epíteto ao longo da narrativa é "o piedoso", distinguindo-se assim do ardiloso Ulisses e do intrépido Aquiles. Essa saga é muito anterior ao mito fundacional romano dos gêmeos Rômulo e Remo alimentados pela loba. Ademais, Roma seria fundada por um herói derrotado, Eneias, fugido da Tróia devastada e incendiada na invasão grega, que sucumbiu finalmente ao ardil do cavalo de madeira engenhado pelos aqueus ou dânaos, nomes pelos quais os gregos também eram conhecidos. Ainda que tenha relutado na intenção de fugir, Eneias se vê obrigado a cumprir os vaticínios dos deuses e, desse modo, abandonar Tróia, levando consigo o filho, Ascânio e o velho pai, Anquises, para se juntar aos outros companheiros que conseguem escapar da tragédia imposta aos dardânios ou teucros, denominações igualmente atribuídas aos troianos.
Ressalta-se que Eneias é referido como derrotado nas páginas da Ilíada , nos cantos V e XX, em que se encontram as lutas perdidas pelo troiano frente aos rivais aqueus Diomedes e Aquiles, que só não causam a morte do herói pelas intercessões, respectivamente, da "filha de Zeus", Afrodite, e do "Sacudidor da Terra, Posêidon. Ainda que na pobre e dura língua latina, Virgílio descreve a grandeza incomparável de Roma num poema magnífico, de 12 cantos, cujos seis primeiros livros são como réplica da viagem contida na Odisseia e os seis últimos lembram a guerra da Ilíada A narrativa inicia-se in media res, isto é, no meio da ação, quando Eneias, após a derrota de Troia, navega em busca da Itália para estabelecer as bases da futura cidade de Roma.
Resumidamente, pois esta breve explanação é apenas um convite ao leitor para a leitura integral, procurarei ressaltar particularidades de alguns cantos. No livro I o poeta apresenta-se em primeira pessoa, faz alusão às Bucólicas e às Geórgicas e diz que irá cantar as guerras; para tanto invoca as Musas, num início que, posteriormente, servirá de inspiração aos versos dos Lusíadas , de Camões. Logo se evidencia o ódio da deusa Juno, que ciente das previsões das Parcas vê a ameaça troiana se personificar em Eneias, na chegada a Cartago, e provoca a tempestade no mar a fim de que o herói não alcance o futuro engendrado por outros deuses. No livro II Eneias narra a guerra de Troia para Dido, rainha de Cartago, que acolhe toda frota troiana. O livro III dá prosseguimento a narrativa no encontro com Andrômaca, sobrevivente da família real troiana, destacando-se também o relato da morte de Anquises. No livro IV, para mim especialmente tocante, o poeta expressa a paixão da rainha pelo herói, bem como a partida deste, motivo do desatino da fenícia Dido e seu sacrifício final. O livro V, como para atenuar a tensão do trágico amor, Virgílio num tom alegre, nos permite vivenciar os jogos em honra de Anquises, na Sicília, onde o pio Eneias, ao prosseguir viagem para a Itália, deixará as mulheres, os velhos e os desencorajados.
No livro VI, centro do poema, ocorre o encontro com a Sibila de Cumas, em que Eneias pede para descer ao mundo dos mortos, encerrando a parte "odisséica" com a descida aos infernos, numa evocação da filosofia platônica da transmigracão das almas pelos corpos, formidável atemporalidade que permite ao poeta expor o encontro de Eneias e o pai dele, Anquises, assim também como o colóquio com figuras históricas e míticas, e ainda visualizar os Campos Elísios, onde as almas dos justos e virtuosos têm o descanso na dignidade da paz, alegria e beleza.
Desse modo, o público contemporâneo de Virgílio vê nas páginas da epopeia o seu próprio tempo integrado ao passado de Roma numa magnífica construção de Virgílio, em que o passado longínquo, falado no presente, mostra o futuro, quando então Eneias passa a acreditar na sua heroicidade. Essa passagem mostra o personagem fundador de Roma a deparar-se com a Fome, a Pobreza, as pálidas Doenças, a Morte seguida do irmão gêmeo Sono, o Temor, a triste Velhice, os Gozos proibidos do espírito, A Fúria, Os Trabalhos penosos, a Guerra e a insensata Discórdia. Sob a condução da Sibila o herói atravessa o Aqueronte e vê Cérbero, o cão de guarda tricéfalo, às portas do Hades e, às margens do rio Letes (rio do esquecimento), Eneias observa as almas que desejam retornar para a vida terrena.
Do livro VII em diante está a parte bélica da Eneida , com a chegada à Itália, o combate suscitado por Juno na região do Lácio entre Turno, rei dos rútulos, e Eneias, na disputa pela região do Lácio, bem como pela mão de Lavínia, filha do rei Latino; batalhas que provocam a assembleia dos deuses. A ação torna-se mais intensa e os episódios cada vez mais marcantes, como exemplifica o escudo de Eneias, fabricado pelo Deus da forja Vulcano, que expõe uma écfrase, ou seja, um recurso retórico épico para descrever cenas significativas no contexto da narrativa, permitindo a perspectiva futura de Eneias e culminando na grandeza de Augusto e sua vitória no Áccio contra Marco Antônio e a egípcia Cleópatra, dentre outras maravilhas do destino de seus descendentes que Eneias admira no escudo de Vulcano, presente de sua mãe, Vênus, no qual o público leitor vê a história de Roma. O belo episódio de Niso e Eurílo, guerreiros unidos por singular amor, e a morte de Palante, filho do rei Evandro (de Palanteia), aliado dos troianos contra os rútulos, são eventos que engrandecem a narrativa até o desenrolar final do livro XII, no combate encarniçado entre Turno e Eneias, na disputa derradeira por Lavínia e pelo Lácio.
Assim, Virgílio cumpre o propósito de cantar a grandeza de Roma, num patriotismo visível que se desprende dos versos de uma poesia de puro sentimento que ele soube expressar em palavras num poema que é o sentido estrito do que podemos chamar de clássico, o qual através da figura mitica de Eneias narra a etiologia da figura histórica de Augusto, consagrando Virgílio a uma inigualável posição na cultura europeia. Reafirmo, portanto, o meu convite para embarcar com Eneias na viagem épica de Virgílio.
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