
Editoria de Comportamento Social da Plataforma Nacional do Facetubes*
“A humildade é o único instrumento que nos faz aceitar que a evolução do outro não é nossa diminuição — é nosso desafio.” — Mhario Lincoln, jornalista e poeta.
Ódio, ciúme e inveja não são “defeitos genéticos”. São emoções humanas com raízes biológicas e aprendizado social. Há predisposições temperamentais mensuráveis, mas modestas, e o que decide seu peso no comportamento é a história vivida: vínculos, perdas, cultura, regras do grupo. A genética sugere tendências; a experiência escreve o enredo.
Na clínica, o ciúme patológico existe e pede cuidado: quando vira convicção inabalável, invade a vida, pune afetos e eleva risco de violência. Há também a autossabotagem que a psicanálise chama de “inveja de si”: ataques à própria potência, como se o avanço pessoal violasse algum pacto interno. Em ambos os casos, tratamento e linguagem certa devolvem a proporção do sentimento.
O pior de tudo é que, em algum momento, qualquer um de nós vai se deparar com alguém que pensa da seguinte forma: “sou amigo, mas ele não pode ser melhor do que eu”. A chamada "amizade com restrições". Nessa premissa (e ela acontece a todo momento em Academias de Letras, nos locais de Trabalho, nas Rodas Sociais e Redes Sociais etc), a comparação social torna mais aguda a dor quando o outro é semelhante e o domínio é central para a nossa identidade. Mas a inveja, até deve ser benigna quando puxa o indivíduo para cima, para se automelhorar, rever projetos, planos etc e fazer perceber meritocracia no sucesso alheio) ou maligna (quando puxa sem piedade, para baixo). Em outras vezes - há "relações ambivalentes” — ora de apoio, ora competitivas, ora de puro ódio. Isso agrava o relacionamento além de gerar mais “stress”, além de azedar a amizade; em muitas ocasiões, sem volta.
Por isso, a cultura brasileira oferece retratos nítidos de amizades abaladas por "ego e competição". Mário de Andrade e Oswald de Andrade viveram proximidade intensa, produção a quatro mãos e, em 1929, uma ruptura que nunca se recompôs. Cartas, dossiês e estudos recentes mostram admiração mútua, ironias, vaidades e mágoas; Mário escreveu que a amizade “foi das mais nobres”, mas ficou “ferido crudelissimamente”. O caso ilumina como proximidade e identidade partilhada — os dois “Andrades” do modernismo — amplificam a comparação e transformam o dissenso estético em fratura pessoal.
Outro exemplo da história recente, enumera um dos casos mais conhecidos no Brasil com polêmicas sérias entre poetas. É o caso da relação entre Ferreira Gullar e Augusto de Campos, poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e musical brasileiro que ao lado de Haroldo de Campos, seu irmão, e Décio Pignatari, formou o grupo Noigandres, um dos representantes da poesia concreta no Brasil). Começou como vizinha de vanguarda e virou contenda pública ainda nos anos 1950. Gullar participou da fase inicial do concretismo e da I Exposição Nacional de Arte Concreta, mas, entre 1956 e 1957, rompeu com o núcleo paulista. Em entrevista, ele relata que discordou do “plano-piloto” e do que via como racionalismo excessivo, citando um artigo de Haroldo de Campos, irmão de Augusto — “Da fenomenologia da composição à matemática da composição*” — como estopim simbólico da divergência.
A virada teórica de Gullar se consolida com o Manifesto Neoconcreto (1959), publicado no Suplemento Dominical do "Jornal do Brasil", em que critica a “exacerbação racionalista” do concretismo e revaloriza experiência, corpo e subjetividade na obra de arte. Esse texto, hoje fonte primária do cisma, marca a passagem do poeta do campo concretista ao neoconcretismo e reorganiza alianças no eixo Rio–São Paulo. (Para saber mais: ICAA Documents )
Nos anos 1960, a polêmica saiu das mostras e entrou no ensaísmo. Em 1965, Gullar revê a própria trajetória e ataca a ortodoxia concretista; Augusto responde com “Poesia concreta: memória e desmemória” (redigido em 1966 e publicado depois), contestando o relato de Gullar sobre a gênese do movimento e sua “memória” do período. Esse vai-e-vem de textos, reeditado ao longo das décadas, sedimentou a disputa por primazia estética e histórica.
Outro fato que ilustra essa matéria mexe com o coração da Bossa Nova, onde o diálogo criativo entre João Gilberto e Tom Jobim alternou admiração e tensão. Relatos críticos e testemunhos apontam atritos em estúdio e um “stress” que comprometeu a amizade dos dois, turbinados por escolhas de gravação e caminhos artísticos distintos, como o célebre episódio das gravações de Jobim com Frank Sinatra. O talento de cada um redefinia o lugar do outro — e, quando a obra é o “eu”, qualquer divergência estética soa como ameaça identitária.
Até "O Pasquim", libertário etc etc, não fugiu ao contexto. Lá, era laboratório de amizade e vaidades. Porém, cheio de competição por voz e direção. E tal fato, cobrou seu preço. A crise dos anos 1970 levou Millôr Fernandes a impor uma guinada profissionalizante; a patota reagiu, e as divergências sobre rumos editoriais e “autocensura” culminaram em sua ruptura com o jornal em 1975. Pesquisas históricos descrevem conflitos de egos e cisões que reconfiguraram o semanário, revelando o custo relacional de disputas por autoria, pauta e protagonismo.
Na verdade, a psicologia social pode explicar o porque das amizades entre “pares” azedarem. Pode se dizer que quanto mais próximos e semelhantes somos do outro — irmão, colega de sala, parceiro de ofício, confrades —, mais a comparação fere os territórios que sustentam nossa identidade. "Se enxergamos mérito no sucesso alheio e sentimos controle sobre nosso caminho, nasce a inveja (benigna) que impulsiona a crescer; se percebemos injustiça e impotência, emerge a inveja (ruim) a que empurra a rebaixar o outro. Esses vínculos ambivalentes, que misturam afeto e rivalidade, cobram um custo fisiológico e emocional maior do que relações francamente positivas", disse em recente entrevista o jornalista e poeta Mhario Lincoln.
Destarte, perfis de personalidade ajudam a entender rupturas: rivalidade narcisista, maquiavelismo e traços psicopáticos reduzem empatia e inflam a necessidade de superioridade. Em tempos de vitrines digitais, a exposição contínua do sucesso alheio amplifica disparidades, estreita a tolerância à frustração e acelera o afastamento. O roteiro costuma seguir três vias: silenciamento progressivo, convivência compartimentada ou corte de relações de forma direta (ou indireta). Isso é explícito em várias comunidades virtuais: poucos são os membros (ou seguidores) que curtem a obra do outro. Ou simplesmente deixam de publicar (até se desligam das redes), por não ter que ver os aplausos (que deveriam ser para 'eles'), sendo "gastos" com seus pares.
E isso não um caso em separado ou alucinações teóricas. Nossa cultura registra casos em que a proximidade virou fricção. No esporte, o exemplo internacional maior foi a rivalidade Senna–Piquet, mostrando a face crua da comparação em ranking escasso: não houve espaço para amizade. Mas nem tudo é negativo. Por exemplo, Romário e Bebeto exemplificam que vínculos se refazem quando o eixo de conflito é reconhecido e renegociado; o reencontro público décadas depois ensinou que memória comum pode superar a política e a mágoa.
A natureza, por sua vez, porque tudo está relacionado, também oferece metáforas úteis. Entre animais, há sensibilidade à desigualdade e defesa de laços; quando o recurso é curto, alguns pássaros desaparecem dos ninhos. Entre árvores, “timidez das copas” desenha corredores de convivência; plantas “amas” ajudam plântulas a vingar; redes de raízes e fungos podem facilitar trocas. Não há moral, há ajustes que equilibram competição e cooperação para que o conjunto natural, em seu todo, possa seguir vivo.
Claro que existem muitos outros exemplos dessa competição 'desumana" no mapa da vida, seja vegetal ou carnal. E dentro do contexto nosso - de livres pensadores - as amizades são por demais necessárias. Então, pegando carona no que sempre escreve nosso editor-sênior, é hora "de chamar para a mesma mesa", Aristóteles: " Ele afirma, especialmente, no plano afetivo, que “sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo possuindo todos os outros bens” (Ética a Nicômaco, VIII, 1155a5–6). Já Thomas Hobbes descreve a existência fora do convívio regulado — sem sociedade e sem leis — como uma vida “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta” (Leviatã, cap. XIII), para mostrar por que precisamos nos associar.
Contudo, ainda há aqueles que preferem ser "sozinhos", mesmo que estejam envolvidos em círculos comunitários. Cultuam a solidão, a fim de que toda a honra e glória a eles sejam depositadas. Há ainda os que defedam sistematicamente a solidão de modo incisivo; esses são seguidores de Blaise Pascal que escreveu: “Tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos, dans une chambre.” (Toda a desgraça dos homens vem de uma só coisa: não saber permanecer em repouso, num quarto). Western Kentucky University/penseesdepascal.fr
Bem à propósito, Henry David Thoreau, poeta, naturalista, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista, disse certa vez: “Nunca encontrei companheiro tão companheiresco quanto a solidão.” Mesmo caso de Arthur Schopenhauer, nos "Aforismos para a Sabedoria de Vida": “A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.” Contudo, há um outro lado dessa história que precisa também ser analisada. E vem justamente com Freud. Ele, em um de seus estudos, afirma que a tradição psicanalítica passou a nomear esse 'desconforto público/solidão' de “retirada narcísica” (narcissistic withdrawal): "um movimento de recolhimento do investimento afetivo e evitação de vínculos como defesa do self" — no qual autores como André Green, (egípsio, formado em medicina com especializção em psiquiatria e psicanálise) e Otto Kernberg (conhecido por suas teorias psicanalíticas sobre a organização da personalidade borderline e a patologia narcisista). Eles afirmam, de certo modo, que esse recolhimento, essa autosolidão provocada, esse isolamento usado mesmo diante de riscos sociais, é, sim, explícitos sintomas de 'narcisismo patológico'.
Portanto, com base na frase de abertura deste texto, continua mais que claro que a "humildade é o único instrumento que nos faz aceitar que a evolução do outro não é nossa diminuição — é nosso desafio.” — Mhario Lincoln, jornalista e poeta.
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O ensaio se chama “Da fenomenologia da composição à matemática da composição” (1957). A íntegra aparece em coletâneas do grupo Noigandres e em volumes de ensaios do próprio Haroldo. Livro: Teoria da poesia concreta: textos críticos 1950–1960 (coletânea Noigandres). Edições estão em acervos universitários (USP, Unesp, etc.) e em bibliotecas públicas de referência. A caixa fac-símile da revista Noigandres, editada pelo ICCo, também reúne os materiais fundamentais do grupo e é uma via segura para consulta.
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Crédito: Editoria de Comportamento Social da Plataforma Nacional do Facetubes.
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