Maio de 1880. Aluísio Azevedo, tendo já desenhado na imaginação todo o enredo de O Mulato, com as cenas, os lugares e os personagens – com o qual introduziria oficialmente o Naturalismo no Brasil –, aquiescendo a um convite do amigo Virgílio Cantanhede, resolve embarcar numa canoa a vela em direção a Alcântara, para assistir às festividades do Divino Espírito Santo.
A travessia deve ter sido amena, uma vez que no mês de maio não costuma haver ventos fortes na temida Baía de São Marcos.
Ao chegar à Velha Tapuitapera, não se sabe se a cidade já estava em quase ruínas ou ainda respirava ares de aristocracia – isso não diz o autor de O Cortiço.
O que nos conta é que, chegando à cidade e subindo a ladeira do Jacaré, assistiu certamente as festividades com as caixeiras, o mastro na Praça da Matriz, perto do Pelourinho, fartou-se das guloseimas que os organizadores dispuseram aos participantes do Divino. Depois, convidou o amigo para sentar num banco da velha Igreja do Carmo e narrou-lhe todo o enredo que já tinha na cabeça.
Detalhe da foto: Igreja do Carmo, em Alcântara
Quem nos conta os detalhes do episódio é o próprio Aluísio:
“O bom rapaz, com uma resignação de amigo sacrificado, ouviu-me atentamente o romance, assentado junto de mim, debaixo de uma bela árvore, num dos bancos do largo da igreja do Carmo. Não foi debalde que pus toda a alma na recitação, porque, ao terminá-la, o meu companheiro tinha os olhos arrasados d’água; não sei se chorava de comovido ou de cansado.” (In Prefácio à 3ª edição de O Mulato, 1889)
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