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Quem não lembra da famosa e rápida entrevista de Clarice Lispector com Pablo Neruda, publicada em duas edições do Jornal do Brasil (12 e 19 de abril de 1969), quando o poeta estava hospedado na casa de Rubem Braga, no Rio?
Pois bem! Esse texto nasceu do contraste entre a ansiedade de Clarice — que admite a própria “timidez ousada” — e a economia verbal de Neruda, que entrega respostas tão curtas quanto afiadas, todas escritas previamente.
O núcleo dessa conversa ficou focada na ética e na poética do chileno. Assim, quando Clarice perguntou se escrever “melhora a angústia de viver”, ele respondeu:
“Sim… se amas teu ofício; senão é infernal”, enunciando um programa de trabalho e destino;
Neruda também definiu o “homem completo” como “político, poético, físico”, ele costura, em três substantivos, o vínculo entre militância, linguagem e corpo: “toda literatura é engajada”, fixa uma posição histórica e estética que recusa neutralidades.
Há lampejos de humor e metafísica. Ao ser instado a “dizer algo que surpreenda”, escreve apenas “748”, número que Clarice registra com espanto, como se fosse um gracejo de alquimista. À pergunta “Quem é Deus?”, solta: “Todos, às vezes. Nada, sempre” — síntese seca que combina desconfiança teológica e confiança na experiência coletiva.
Vale destacar que essas frases, tão curtas quanto radiantes, funcionam como autorretratos instantâneos de Neruda: o poeta da forma simples, do gesto político e do riso que desarma.
O diálogo também mapeia o olhar de Neruda para o Brasil. Ele nomeia Drummond, Vinícius e Jorge de Lima entre os que admira, confirmando um trânsito afetivo-literário já antigo com a cena brasileira.
Em tom patriótico, diz ele: “se tivesse de nascer mil vezes, ali [no Chile] quero nascer” —, afirma, sem abrir mão da América Latina como horizonte, definindo-se “poeta local do Chile, provinciano da América Latina”.
essa conversa foi publicada no Caderno B do "Jornal do Brasil", na época, o mais influente suplemento cultural do país, que pautava debates e funcionava como referência de jornalismo cultural, o que ajudava a explicar a circulação do texto entre leitores e meios literários cariocas naquele momento.
Contudo, outros registros críticos posteriores chamaram também a atenção para a forma “telegráfica” do encontro, referiundo-se às respostas que foram entregues por escrito, o que frustrou Clarice e acentuou a concisão nerudiana. Talvez essa seja a razão do texto ser lembrado como peça singular dentro das entrevistas feitas por Clarice para o próprio JB.
Desta forma, no ponto de vista editorial, a entrevista ganhou sobrevida: foi reeditada nas coletâneas de crônicas de Clarice e aparece com frequência em antologias e sites — sinal de que, mais que “nota de ocasião”, virou documento de alto valor simbólico sobre o pensamento do chileno no Brasil. O próprio site do Instituto Moreira Salles, guardião do acervo de Clarice, destaca suas entrevistas “inusitadas” (entre elas, a de Neruda) como parte do período Jornal do Brasil.
Vale, ainda, dizer que Neruda manteve relações estreitas com escritores brasileiros e visitou o país em fins dos anos 1960; em 1968 circulou por Bahia e Minas Gerais, incluindo Ouro Preto. Em abril de 1969, de passagem pelo Rio, hospedou-se na casa de Rubem Braga; ali concedeu a Clarice a entrevista em destaque.
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Fontes essenciais:
Clarice Lispector, A descoberta do mundo (publicação original no Jornal do Brasil, 12 e 19/4/1969).
nessageografia.files.wordpress.comPatrícia F. S. Lima, estudos sobre o Caderno B do Jornal do Brasil (trajetória e influência).
Academia.eduCamila N. R. Alves e BNDigital — histórico do Caderno B e seu papel no jornalismo cultural.
Periódicos UFF. Instituto Moreira Salles — notas sobre Clarice no Jornal do Brasil e suas entrevistas.
Clarice Lispector. Leituras críticas recentes sobre o formato e a recepção do texto (caráter “bem breve” e respostas por escrito).
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