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“SOBRE HOMENS E DEUSES”, por Socorro Guterres

Socorro Guterres é membro da Academia Poética Brasileira.

08/10/2025 às 17h59
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
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Socorro Guterres, da APB-RGN
Socorro Guterres, da APB-RGN

Socorro Guterres

 

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Para explanar sobre a ira de Aquiles na Ilíada de Homero certamente invocarei as Musas, deusas da memória, pois essa obra-prima (primeira da literatura ocidental) com seus mais de 15 mil versos despende tempo e concentração no apreender da trama do poema épico composto por volta de 700 a. C.; na verdade a Ilíada antes de ter sido finalmente escrita, circulava oralmente, numa  tarefa magistral disposta em 24 subdivisões ou cantos, os quais discorrem sobre o último ano do cerco dos gregos a Ílion, uma cidadela na região de Tróia (Ásia Menor) na atual Turquia. O conteúdo histórico em que a obra está inserida indica o surgimento da pólis, aristocrática e escravocrata, ressaltando valores importantes da época como a areté e a philia, ou seja, a excelência  guerreira e as relações pessoais. Praticamente nada se sabe sobre Homero, contudo a poesia desse período tinha objetivos educacionais, religiosos, políticos e sociais, sobretudo por apresentar uma "verdade" sob a inspiração das Musas. Assim temos no início do Canto I:

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Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus e tantas almas valentes lançou no Hades, ficando seus corpos como presa para cães e aves de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus), desde o momento em que primeiro se desentenderam o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles. (HOMERO, Íliada, I.1-7).

 

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Aquiles, o Pelida, filho do mortal Peleu com a ninfa Tétis, se desentende com Agamêmnon, o Atrida, filho de Atreu e rei de Micenas, o qual é irmão mais velho de Menelau, cuja esposa, Helena, foi seduzida e raptada por Páris, príncipe de Tróia. No Canto I, Agamêmnon desperta a fúria do deus Apolo, por negar-se a devolver um dos seus espólios de guerra, Criseida, "de lindo rosto", filha de Crises, sacerdote desse deus, o qual se revolta e atinge os aqueus (gregos) com uma peste que perdura por nove dias. Para findar o tormento o chefe dos gregos volta atrás e resolve devolver a escrava, mas em troca pretende ficar com Briseida, também "de lindo rosto", que teria ficado como  prêmio para  Aquiles. Desse modo, o ódio de Aquiles conduzirá a história da Ilíada, na qual Zeus, Hera, Atena, Afrodite, Apolo, Posêidon e Tétis são figuras centrais, tomando lados entre os contendores gregos e troianos. Os deuses são movidos por ciúmes, rancores e simpatias pessoais, como exemplifica-se com a figura de Páris, preferido de Afrodite por tê-la escolhido como a mais bela numa disputa entre essa deusa, Atena e Hera. A trivialidade dos deuses na Ilíada realça a essência da condição humana, a coragem e a excelência (a busca da areté). A consciência da mortalidade humana, não partilhada pelos deuses, realça os atos heróicos dos homens.

Prosseguindo no primeiro canto, o todo poderoso do Olimpo, Zeus, decide restaurar a honra de Aquiles, que pretende afastar-se sobretudo por discordar do motivo principal que causou  a guerra dolorosa: o rapto de Helena por Páris, filho do rei Príamo de Tróia. Decerto que estas breves linhas destacarão apenas alguns momentos de tão grandiosa obra, que é sucedida, por outra igualmente magnífica, a Odisséia, também atribuída a Homero. Nos Cantos II, III e IV, persiste a ausência de Aquiles nos campos bélicos, o que causa muitos acontecimentos e mortes, pois o "pés velozes", assim chamado Aquiles por sua velocidade nos campos de batalha, era inigualável guerreiro e desfalca de sobremaneira as hostes gregas. O Canto V é especialmente belo, como demonstra o  destaque para a deusa Atena, que veste as roupas de Zeus na luta pelos aqueus, cena que inclusive repete-se em parte no canto VIII, isto devido a origem da _Ilíada, como épico oral, cuja repetição por meio de frases e epítetos era um facilitador mnemônico:

 

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Porém, Atena, filha de Zeus detentor da égide, deixou descair sua veste macia no chão de seu pai – veste bordada, que ela própria fizera com suas mãos. Vestiu a túnica de Zeus que comanda as nuvens e envergou as armas para a guerra lacrimosa. (HOMERO, Ilíada V.733- 737).

  

No Canto IX, Agamêmnon, o comandante da expedição a Tróia (porque colabora com mais navios), convoca uma assembleia e chega a chorar com o rumo da guerra. Mas Diomedes, "excelente em auxílio", impede sua fuga da contenda, e no Canto X esse valoroso guerreiro une-se ao astuto Ulisses, rei de Ítaca (herói da Odisseia) e grande favorito de Atena, para uma incursão no campo inimigo a fim de obter dados importantes a favor dos gregos. No Canto XI vemos como os sentimentos personificam-se e assim surge a Discórdia no acampamento dos aqueus. Como solução para o impasse é sugerido a Patróclo, escudeiro e amigo de Aquiles, usar as armas do herói que reluta em voltar à guerra, a fim de intimidar os troianos. No Canto XII podemos atribuir a modernidade do termo spoiler a trechos da narrativa homérica em que ocorre a previsão sobre a destruição de Ílion no seu décimo ano de cerco. Contudo, isso não prejudica a narrativa, pois o leitor (ou ouvinte) não sabe como os fatos acontecerão. Spoiler que ocorre em outras passagens da trama, como no canto XV com nova previsão de Ílion saqueada e Aquiles de volta à guerra.  Ressalta-se ainda que Aquiles sabe a dualidade do seu destino prescrito pelos deuses: o renome eternizado na morte precoce ou a vida longa sem glória. Essas antecipações podem ser observadas, por exemplo, nas falas finais de Patróclo, mestre cavaleiro, ao ser golpeado pelo bronze afiado de Heitor, filho de Príamo, deixando para trás "a virilidade e a juventude", no decisivo Canto XVI:

 

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Mas dir-te-ei outra coisa; e tu guarda-a no teu espírito: não será por muito mais tempo que viverás, mas já a morte de ti se aproxima e o fado irresistível, pois morrerás pelas mãos do irrepreensível Eácida, Aquiles. (HOMERO, Ilíada, XVI, 851- 854).

 

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A partir do Canto XVIII ressurge a fúria de Aquiles pela morte do amado Patróclo. Novas armas lhe são confeccionadas por Hefesto, deus da forja, a pedido de Tétis. Então, há uma esplêndida descrição desse artefato como um microcosmo do mundo, a espelhar cenas da vida grega, festividades e batalhas nas diversas esferas existenciais. No canto XIX, Aquiles retoma Briseida e jejua, enquanto seus exércitos de Mirmidões, lendários povos tessálicos, banqueteiam-se antes da grande contenda que se aproxima. Aquiles pede aos cavalos imortais, Xanto e Bálio, que o tragam de volta após saciar-se da guerra. Ao que então, responde Xanto, dotado com o dom da fala pela deusa Hera, prevendo assim a morte do herói de "pés velozes", sendo posteriormente silenciado pelas Erínias:

 

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Pois desta vez te salvaremos, ó possante Aquiles. Mas perto já está o dia em que morrerás. Culpados não seremos nós, mas um deus poderoso e o Fado tremendo. (HOMERO, Ilíada, XIX, 408- 410).

 

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Já no Canto XX, destaca-se o grande guerreiro e conselheiro Enéias, num confronto com Aquiles. O troiano filho da deusa Afrodite e do mortal Anquises sobreviverá a tragédia de Ílion, pois é destinado a fundar a raça romana na Itália, como nos conta o relato extraordinário da Eneida, de Virgílio. Nos cantos XX e XXI, o poderoso Zeus se dispõe a não mais intervir e deixar a contenda à sorte dos homens e dos seus deuses protetores. Observa-se que na mitologia grega todos os rios são deuses e por conseguinte Aquiles lutará até mesmo contra o rio Xanto (curiosamente sob o mesmo nome do cavalo de Aquiles), ou Escamandro, um dos principais rios de Tróia, "de lindíssimo fluir", o qual tenta afogar Ulisses, devido ao grande número de troianos mortos:

 

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Em seguida o herói gerado por Zeus deixou a lança na ribeira, inclinada contra um tamarindo, e mergulhou como um deus, segurando apenas a espada: planejava no espírito trabalhos ruins. Pôs-se a dar golpes com a espada, às voltas no rio. Surgiram gritos pavorosos dos que ele feria; a água ficou vermelha de sangue. (HOMERO, Ilíada, XXI, 17-21).

 

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Nos cantos XXII e XXIII, Aquiles confronta o próprio deus Febo Apolo e termina por matar Heitor, sob o olhar choroso dos familiares do príncipe troiano que acompanham o duelo no alto das muralhas protetoras de Tróia, como se vê no lamento do velho rei, pai de Heitor:

 

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Gemeu o ancião e bateu na cabeça com as mãos, levantando-as bem alto, e com grandes gemidos suplicou seu filho amado, que estava parado à frente dos portões, em ávida fúria de combater com Aquiles. (Homero, Ilíada, XXII, 33- 36).

 

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Heitor compreende que vai morrer e aceita sua moira executando algo que será cantado por muitas gerações vindouras. Dá-se, então, no canto XXIV, a ida de Príamo ao acampamento aqueu a fim de resgatar o corpo de Heitor, no comovente encontro com Aquiles, num sentimento de mútuo luto:

 

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E ambos se recordavam: um deles de Heitor, matador de homens e chorava amargamente, rolando aos pés de Aquiles; porém Aquiles chorava pelo pai, mas também, por outro lado, por Patrócio. (HOMERO, Ilíada, XXIV, 509- 512)

 

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Tróia assim celebrará numa trégua de doze dias o funeral do seu maior herói, Heitor, "o domador de cavalos", encaminhando-se, então, para a ruína final. E o destino de Aquiles? Caso alguns leitores queiram saber nos encontramos em um próximo contar, sobre a Odisséia, se os deuses assim o permitirem.

 

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Ana Clara GuterresHá 8 meses Natal/RNTexto impecável! Aguardando ansiosamente a parte 2.
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