
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
“O Expresso Polar”, de Chris Van Allsburg, é um daqueles raros livros que parecem nascer já com textura de clássico. A narrativa é simples na superfície – um menino que, na véspera de Natal, embarca em um trem rumo ao Polo Norte – mas o modo como Van Allsburg organiza luz, sombra e silêncio nas imagens transforma a história em uma meditação visual sobre fé e memória. O texto é econômico, quase sussurrado, e deixa que a neve, o vapor do trem e o brilho das janelas contem aquilo que as palavras apenas sugerem.
As ilustrações, que renderam ao autor a Caldecott Medal, trabalham com uma paleta contida, dominada por azuis profundos, verdes escuros e amarelos abafados. Não há exuberância alegre típica de muitos livros natalinos; há uma espécie de penumbra contemplativa. O trem corta a noite como um rito de passagem, e o menino, em vez de ser apresentado como herói exuberante, surge como testemunha de algo que pode ou não ter acontecido. Essa ambiguidade – reforçada pela atmosfera quase cinematográfica das cenas – é o coração estético do livro.
Van Allsburg desloca o Natal do campo da evidência para o campo da experiência interior. O sino do trenó, que só é ouvido por quem ainda acredita, é talvez um dos símbolos mais fortes da literatura infantil moderna: um objeto que resiste ao olhar cínico da vida adulta. A última página, em que o narrador adulto revela que, para muitos, o som do sino já se calou, é de uma melancolia discreta, quase cruel, que eleva o livro acima do consumo sazonal e o coloca no território da arte que interroga o leitor.
Visualmente, “O Expresso Polar” também é um comentário sobre o próprio ato de ilustrar. As perspectivas inclinadas, os close-ups nas rodas do trem, o uso de fumaça e neve para emoldurar os personagens fazem cada página funcionar como um filme jamais rodado – o que explica, em parte, a naturalidade com que a obra migrou para o cinema anos depois. Ainda assim, o livro preserva algo que o filme não pode capturar totalmente: "o tempo de pausa entre uma página e outra, no qual o leitor cria sua própria versão do milagre", como expressam alguns especialistas.
Lido hoje, em um mundo mais cético e saturado de imagens digitais, “O Expresso Polar” funciona quase como um antídoto. Não é apenas uma história sobre um trem mágico. "Sou apixonado por esse livro porque mostra claramente que é um lembrete de que a imaginação infantil não precisa de explicação, apenas de espaço", reforça o jornalista e poeta Mhario Lincoln.
O livro propõe que acreditar no invisível – seja Papai Noel, seja a capacidade de maravilhar-se. É menos uma questão de doutrina e mais uma escolha estética e afetiva. É nesse ponto que a obra se aproxima dos grandes clássicos: fala de Natal, mas, sobretudo, fala da dificuldade de continuar ouvindo, em meio ao ruído do mundo, o som delicado de um sino que só toca para quem ainda aceita acreditar.
Mín. 13° Máx. 20°