
"(...) pela falta de tempo, e talvez por isso certos microtempos, como o do banheiro, tenham virado alvo simbólico de disputa entre hábito e pressa".
MHARIO LINCOLN, editor - Durante décadas, o banheiro foi um dos poucos lugares realmente privados da casa brasileira. Essa privacidade transformou o cômodo num pequeno laboratório do cotidiano, onde a leitura cabia em fatias curtas, um caderno de jornal, uma revista, um livro de crônicas. O problema é que quase ninguém mediu isso com método. As grandes pesquisas brasileiras de leitura registram o que se lê, com que frequência, em quais suportes e contextos, mas não isolam “ler no banheiro” como categoria. Portanto, qualquer relação direta entre “hábito de ler no banheiro” e “quantidade de impressos” fica no terreno da hipótese, não da estatística. Por isso, pedi a equipe da Plataforma Nacional do Facetubes que descobrisse algo mais intenso para se escrever um texto sobre o assunto. E o resultado não poderia ter sido melhor. Compartilho com os leitores, agora:
****
O que dá para afirmar, com números nacionais, é que o Brasil entrou no século XXI com uma leitura mais rarefeita e mais desigual do que gostaria. Em 2024, a Pesquisa Retratos da Leitura aponta 53% de não leitores, definidos como pessoas que não leram livro inteiro ou em partes nos três meses anteriores. Mas, com ou sem leitores assíduos, na verdade, o varejo editorial brasileiro encerrou 2025 com cerca de 60,01 milhões de livros vendidos e R$ 3,08 bilhões em receita. Isso siugnifica que as vendas de livros impressos subiram para 762,4 milhões de exemplares em 2025 nos pontos monitorados pela Circana BookScan.
Ou seja, a presença do papel continua maior do que muitos imaginam. Maior que o números de leitores físicos. Mutatis mutandi, o leitor brasileiro ainda declara (mesmo que não leia tanto), forte vínculo com o livro impresso e, quando se observa preferência, o papel segue vencendo o digital em muitos segmentos. É uma pista de que o “canto de leitura” doméstico ainda existe, mesmo que comprimido pela falta de tempo, e talvez por isso certos microtempos, como o do banheiro, tenham virado alvo simbólico de disputa entre hábito e pressa.
A cultura também registra o fenômeno com nomes próprios. Ziraldo, escritor e cartunista, contou em conversa publicada pela SP Leituras que lia muito no banheiro, com estante à frente, chamando o vaso sanitário de “melhor lugar para ler”. É uma confissão que vale menos como recomendação e mais como retrato de uma geração para quem leitura era também improviso, feita onde coubesse.
Há outra cena, ainda mais didática: Luis Fernando Verissimo, ainda menino, produziu com a irmã e um primo um jornal doméstico com notícias da família e afixava o impresso na porta do banheiro, com o título O Patentino. A história é engraçada sem ridicularizar ninguém porque revela um princípio simples, leitura vira hábito quando se mistura com rotina e afeto, mesmo em formatos caseiros e pequenos.
Se no século passado o banheiro era o refúgio do impresso, neste século ele virou vitrine do digital. Um estudo publicado na PLOS One, com adultos, encontrou 66% usando smartphone no banheiro. Entre as atividades, “ler notícias” aparece como a mais comum. O dado não mede leitura literária, mas mostra a troca de suporte, sai o caderno, entra a tela, e o banheiro continua sendo um tempo de consumo de texto.
Só que o século das telas trouxe um efeito colateral mensurável. No mesmo estudo, o uso do smartphone no vaso sanitário apareceu associado a maior tempo sentado e a 46% mais chance de hemorroidas, após ajustes estatísticos. É um alerta que desloca a discussão da moral para a ergonomia e o tempo. O problema não é ler, é alongar o “intervalo” até virar permanência.
Por isso, quando se fala em “técnicas” para quem insiste em ler nesse contexto, o mais honesto é começar pelo que dizem as orientações clínicas. A Cleveland Clinic recomenda não ficar muito tempo sentado no vaso e evitar esforço prolongado. O NHS britânico também orienta não permanecer tempo demais, não forçar, inclinar o tronco ligeiramente para a frente e manter os pés um pouco elevados. Traduzindo para a prática, se a pessoa lê no banheiro, que escolha textos curtos, cronometráveis, que não empurrem o tempo além do necessário, e que não trate o celular como convite ao prolongamento.
E a pergunta sobre cognição merece cuidado. Leitura frequente se associa, em estudos de longo prazo, a melhores desempenhos em linguagem e memória ao longo do envelhecimento, mas isso não transforma o banheiro numa “academia do cérebro”. O lugar não faz milagre, o que conta é a constância e a qualidade do encontro com o texto. Talvez a lição mais provocante seja esta, o Brasil precisa de mais leitura ao longo do dia inteiro, não apenas nos poucos minutos em que a casa silencia atrás de uma porta fechada.
Mín. 13° Máx. 20°