
MHARIO LINCOLN - Em “Elegia à Mulher sem Nome”, José Claudio Pavão Santana recusa a redução simbólica da mulher a uma data comemorativa e a recoloca no centro da história, da vida social e da experiência humana como presença contínua, fundadora e indispensável, convertendo o poema numa defesa da mulher não como ornamento do calendário, mas como sujeito permanente da civilização, da memória e do afeto. Nesse sentido, o texto dialoga com uma leitura histórica mais ampla, pois ecoa a longa travessia das mulheres, tantas vezes invisibilizadas, embora tenham sustentado famílias, comunidades e culturas inteiras, quase sempre entre a delicadeza exigida e a força imposta. Socialmente, o poema denuncia, com suavidade e firmeza, a hipocrisia de homenagear a mulher por um dia e esquecê-la no restante do tempo, propondo em seu lugar um pacto ético de reconhecimento cotidiano. Sob uma lente kantiana, essa mulher “sem nome”, que pode ter todos os nomes, surge como fim em si mesma, jamais como meio para convenções, ritos vazios ou gestos superficiais, pois sua dignidade não depende da utilidade que tenha para o outro, mas de seu valor intrínseco, absoluto e humano". (C/editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes)
A PENA DO PAVÃO, publicado em Crônicas, Poesia. Ano 14 – vol. 03 – n. 25/2026
ELEGIA À MULHER SEM NOME
José Claudio Pavão Santana
https://doi.org/10.5281/zenodo.18911219
Não.
Recuso-me a reduzir-te a um único dia.
Como caberia em vinte e quatro horas
a grandeza de quem sustenta o mundo
com mãos tão delicadas
e coração tão vasto?
Não te basta uma data no calendário.
Tu és mais do que isso.
És presença contínua,
luz que atravessa os dias comuns
e os transforma em esperança.
Há quem ainda não saiba disso.
Há quem duvide.
Mas eu sei.
Por isso não aceito que te concedam apenas um dia
como quem entrega uma flor
para logo depois esquecê-la.
Bastar é palavra pequena,
e tu não cabes no finito.
Se preciso for,
eu digo em voz alta —
quase como quem reza:
meu amor por ti não conhece limites.
Ele não termina na noite
nem se perde na passagem do tempo.
Mulher sem nome,
que poderia ter todos os nomes,
mãe, filha, amante, amiga, companheira,
mistério e abrigo.
Em ti há um caleidoscópio de cores e afetos,
um universo inteiro que pulsa
entre força e ternura.
Às vezes és tempestade,
às vezes silêncio,
mas sempre verdade.
E então façamos um acordo simples,
desses que não precisam de testemunhas:
hoje —
e em todos os dias que ainda virão —
eu em ti,
tu em mim.
Sempre.
Até o fim.
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