
Editoria de Literatura e Arte do Facetubes. A SEGUNDA POÉTICA se faz especial porque não celebra apenas um dia, uma data, mas uma travessia histórica de coragem. Ontem foi o oficial "Dia Internacional da Mulher", que nasceu do impulso dos movimentos trabalhistas e foi oficialmente reconhecido pela ONU em 1977. Aqui no Brasil, a luta é contínua, desde que ganhou marcos decisivos com o pioneirismo do Rio Grande do Norte, em 1927, e com a conquista do voto feminino em âmbito nacional, em 1932. Nada disso caiu do céu: cada avanço foi arrancado da resistência, da persistência e da recusa feminina em aceitar o silêncio como destino. Ainda hoje, o próprio TSE reconhece que, apesar das conquistas, permanecem barreiras como a sub-representação e a violência política de gênero.
É por isso que a poesia entra nesta homenagem não como ornamento, mas como força social, memória ativa e linguagem de enfrentamento. A poeta Amanda Gorman, por exemplo, resumiu essa vocação de modo luminoso ao dizer à CBS News que “Poetry is a weapon”, (..a poesia é uma arma), definindo a poesia como instrumento de mudança social. A frase ajuda a iluminar esta edição: antes de muitas leis mudarem, foi a palavra que abriu fendas no muro; antes de muitos palanques escutarem, foi o verso que denunciou a injustiça; antes de a história registrar, foi a sensibilidade feminina que transformou dor em consciência e consciência em luta. Nesta SEGUNDA POÉTICA, a Plataforma Nacional do Facetubes reverencia as mulheres que fizeram da voz, da inteligência, da ternura e da firmeza uma forma de reconstruir o Brasil por dentro. Na publicação de hoje, alguns exemplos dessa luta infinda, através da lírica de cada uma que atendeu ao convite para está página especial. (Mhario Lincoln, editor-sênior do Facetubes).
“De mulher pra mulher — Recado” — Goreth Pereira
O poema de Goreth Pereira é um grito de solidariedade feminina contra a violência mascarada do amor. Sua maior virtude está em nomear com clareza aquilo que tantas vezes a cultura tenta suavizar: tapa, xingamento, manipulação, promessa mentirosa, opressão. A poesia é muito forte porque desloca a mulher do papel de vítima passiva para o de sujeito de resistência, voz e levante.
De mulher pra mulher: recado
Goreth Pereira
Mulher nasceu com coragem
E no peito tem valor,
Carrega dentro da alma
A semente do amor,
Mas não nasceu pra sofrer
Nem viver sob opressor.
Sempre tem sua palavra
Pro que der e vier,
É firme como a rocha,
É forte como a fé,
Não nasceu pra ser ferida
Por desprezo de qualquer.
Tu és chama que ilumina,
Soberana em teu lugar,
Venha de onde vieres
Tens direito de brilhar,
Tua vida é preciosa,
Ninguém pode te calar.
Goreth Pereira
Não aceito violência
Disfarçada de paixão,
Nem promessa mentirosa
Pedindo mais perdão,
Quem ama cuida e protege,
Não estende nunca a mão.
“Eu vou mudar”, ele diz,
Depois de te machucar,
Entre tapas e xingamentos
Vem de novo implorar,
Mas amor que é verdadeiro
Não faz ninguém chorar.
Mulher não é propriedade,
Nem objeto de ninguém,
É jardim que floresce
Quando é tratado com bem,
Mas se tentam pisar nela
Ela se levanta além.
Chega de medo na noite,
Chega de viver calada,
Tua voz é resistência,
É bandeira levantada,
Cada passo teu é grito
Contra a vida maltratada.
Mulher é força divina,
É raiz, é construção,
Quando uma é violentada
Sangra toda a nação,
Respeitar cada mulher
É dever do coração.
***
“Entre costuras, amores e dores” — Maura Luza Frazão
O poema de Maura Luza Frazão - na verdade, uma prosa-poética forte - tem grande vigor social por inscrever a mulher no campo do trabalho, da ancestralidade e da resistência cotidiana. Ele resgata mulheres — criadas, servas, escravizadas, roceiras, parteiras, quebradeiras de coco — e devolve a elas protagonismo histórico. Há aqui uma poética do labor e da sobrevivência, em que a vida feminina é acompanhada de dor, coragem e reinvenção. O texto é grita reparação.
Entre costuras, amores e dores
FRAZÃO, Maura Luza
Sentinelas das próprias histórias
Costurando seus medos
Em teares do destino
Envoltas em seus muitos afazeres diários
Suspirando por mudança em seus caminhos.
Mães, avós, sobrinhas, filhas, noras
Criadas, servas, escravizadas
Todas predestinadas a padecer
Resiliência versus perseverança
Forças arraigadas
Em suas distintas maneiras de ser.
Apagadas, silenciadas, ignoradas, relegadas
Protagonismo?
Nunca foram suas opções
Pioneirismo?
Sim!
Algumas delas redefiniram suas situações.
Professoras, donas de casa,
Roceiras costureiras, parteiras
Quebradeiras de coco...
Cada uma deixando vasto legado
De coragem e força através das gerações
Reinventando-se entre criações e superações.
***
"Amor Intenso" — Elisa Lago
No poema “Amor Intenso”, Elisa Lago escolhe a delicadeza como via de acesso ao absoluto, mostrando que o amor verdadeiro não precisa de estrondo para se impor, pois chega “de mansinho” e, justamente por isso, transforma tudo por dentro. é assim que ela homenageia as mulheres neste 8 de Março. Assim, seu poema sugere que o amor é uma experiência de presença que vence a pressa do mundo e ressignifica a brevidade da vida: se “a vida é tão curta”, então amar deixa de ser fantasia e passa a ser uma forma essencial de existir com sentido. A imagem do passarinho, do ninho, do laço e do coração que batuca compõe uma poética do afeto como abrigo, impulso vital e entrega consciente, sem culpa e sem cálculo. Já na parte final, ao opor distância e proximidade — saudade quando longe, fulgor quando perto —, o poema toca uma verdade humana profunda: amar é habitar simultaneamente a ausência e a plenitude, fazendo da ternura uma pequena eternidade vivida no tempo.
AMOR INTENSO
Elisa Lago
Amor tão intenso;
amor de passarinho
chegou de mansinho,
com carinho se aninhou.
No laço bem laçado,
é vida que pulsa;
coração acelerado batuca
transbordante de amor.
Nunca foge da luta,
a vida é tão curta...
com razão e sem culpa
a entrega é de amor.
Amor felicidade;
pureza sem alarde;
distante... lembrança é saudade;
pertinho... afagos de intenso fulgor.
“Silêncio” — Linda Barros
Este é um poema duro, conciso e socialmente contundente. A boca que antes dizia amor, prometia e seduzia é a mesma de onde agora escorre sangue, o que revela com brutal clareza a transformação da linguagem amorosa em instrumento de opressão e violência. Lembrou Augusto dos Anjos - Escarra nessa boca que te beija! – Mas, o silêncio final não é paz; é trauma, interrupção da subjetividade, derrota momentânea da fala. Linda Barros constrói um texto breve, mas devastador.
***
“Dona” — Maria do Rocio Vaz
“Dona” é um poema de emancipação. Ele parte da invisibilidade — social, familiar e íntima — para construir a cena de um renascimento em que a mulher finalmente assume a própria voz. Um poema que fala de identidade, de autoria e de posse de si, porque a personagem deixa de ser apenas objeto das expectativas alheias e passa a ser sujeito de linguagem.
DONA
Maria do Rocio Vaz
Não era vista no mundo,
Não era vista em casa,
Sequer no espelho.
De seus pais não foi o sonho
Seu nome, herdado da santa
Que ela nunca foi.
Invisível, procurou o amor
Que jamais a encontrou...
Apagada, entregou sua luz.
A mulher que calou seus ais
Deu luz às palavras,
Para apagar seu algoz.
Hoje foi vista na rua:
Vestido vermelho-paixão,
Sapato de salto alto.
Dona do seu papel,
Ela dá ordens aos verbos
E eles sangram poesia.
***
“Ser mulher é ser força” — Adriana de Jesus Silva
O poema de Adriana de Jesus Silva reúne atributos clássicos da valorização feminina — delicadeza, amor, compaixão — com elementos mais contemporâneos, como autonomia, autoestima, conquista e luta por direitos. O texto tenta equilibrar ternura e protagonismo, recusando a ideia de que a mulher só deva ser admirada por sua doçura. Há nele uma defesa da mulher como sujeito completo, singular, dono de si e de seu caminho.
Ser Mulher é ser Força
Adriana de Jesus Silva
Ser mulher é ser força,
Com ideais e emoções,
É ser delicada e inspirar paixões.
Ser mulher é conquistar o mundo,
Com determinação e coragem,
É desafiar limites em cada viagem.
Ser mulher é ser dona de si,
Com resiliência e autoestima,
É lutar pelos direitos com toda a estima.
Ser mulher é ser amor,
Com ternura e compaixão,
É espalhar a paz em cada coração.
Ser mulher é ser única,
Com singularidade e poder,
É ser versão completa do ser.
***
“Ser Mulher”, Gracilene Pinto.
Aqui, Gracilene Pinto constrói uma visão elevada e simbólica do feminino, associando a mulher à continuidade da criação, à coragem diante da dor e à harmonia entre força e ternura. Há um apoio na ideia quase ontológica da mulher como espelho do infinito — não apenas alguém que gera vida, mas alguém que participa do próprio mistério da existência ao unir matéria, afeto e transcendência.
A imagem do “cinzel que traz no coração” é especialmente feliz, porque transforma o ato de gerar e cuidar numa obra de arte moldada pelo amor. Ao final, quando compara a mulher à natureza — sol, luar, rio, mar, pássaro e flor —, o poema amplia essa figura para além do humano imediato e a inscreve como princípio de beleza, movimento e renovação.
SER MULHER
Gracilene Pinto
Ser mulher é espelhar o infinito
Dando sequência à divina criação,
Modelar células criando um ser bonito
Com o cinzel que traz no coração.
Ser mulher é ser guerreira, ser valente,
E ao mesmo tempo saber manter a calma,
Ainda que a tempestade se apresente,
Ainda que o medo que lhe invada a alma.
Ser mulher é reunir toda beleza
E a capacidade de amar
Que se recebe do divino Criador.
Ser mulher é espelhar a natureza,
Ser sol e luar, ser rio e mar,
Pássaro e flor.
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