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8 de Março: a poesia como instrumento de mudança social. (Poetas convidadas).

Participam: Goreth Pereira, Maura Luza Frazão e Elisa Lago. Linda Barros, Maria do Rocio Vaz, Adriana de Jesus Silva e Gracilene Pinto.

09/03/2026 às 16h52 Atualizada em 09/03/2026 às 18h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura e Arte do Facetubes
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Especial: 8 de Março. SEGUNDA POÉTICA
Especial: 8 de Março. SEGUNDA POÉTICA

Editoria de Literatura e Arte do Facetubes. A SEGUNDA POÉTICA se faz especial porque não celebra apenas um dia, uma data, mas uma travessia histórica de coragem. Ontem foi o oficial "Dia Internacional da Mulher", que nasceu do impulso dos movimentos trabalhistas e foi oficialmente reconhecido pela ONU em 1977. Aqui no Brasil, a luta é contínua, desde que ganhou marcos decisivos com o pioneirismo do Rio Grande do Norte, em 1927, e com a conquista do voto feminino em âmbito nacional, em 1932. Nada disso caiu do céu: cada avanço foi arrancado da resistência, da persistência e da recusa feminina em aceitar o silêncio como destino. Ainda hoje, o próprio TSE reconhece que, apesar das conquistas, permanecem barreiras como a sub-representação e a violência política de gênero.

É por isso que a poesia entra nesta homenagem não como ornamento, mas como força social, memória ativa e linguagem de enfrentamento. A poeta Amanda Gorman, por exemplo, resumiu essa vocação de modo luminoso ao dizer à CBS News que “Poetry is a weapon”,  (..a poesia é uma arma), definindo a poesia como instrumento de mudança social. A frase ajuda a iluminar esta edição: antes de muitas leis mudarem, foi a palavra que abriu fendas no muro; antes de muitos palanques escutarem, foi o verso que denunciou a injustiça; antes de a história registrar, foi a sensibilidade feminina que transformou dor em consciência e consciência em luta. Nesta SEGUNDA POÉTICA, a Plataforma Nacional do Facetubes reverencia as mulheres que fizeram da voz, da inteligência, da ternura e da firmeza uma forma de reconstruir o Brasil por dentro. Na publicação de hoje, alguns exemplos dessa luta infinda, através da lírica de cada uma que atendeu ao convite para está página especial. (Mhario Lincoln, editor-sênior do Facetubes).

Releituras poéticas: Goreth Pereira, Maura Luza Frazão e Elisa Lago.

 

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“De mulher pra mulher — Recado” — Goreth Pereira
O poema de Goreth Pereira é um grito de solidariedade feminina contra a violência mascarada do amor. Sua maior virtude está em nomear com clareza aquilo que tantas vezes a cultura tenta suavizar: tapa, xingamento, manipulação, promessa mentirosa, opressão. A poesia é muito forte porque desloca a mulher do papel de vítima passiva para o de sujeito de resistência, voz e levante.

Goreth Pereira.

De mulher pra mulher: recado

Goreth Pereira

Mulher nasceu com coragem
E no peito tem valor,
Carrega dentro da alma
A semente do amor,
Mas não nasceu pra sofrer
Nem viver sob opressor.

Sempre tem sua palavra
Pro que der e vier,
É firme como a rocha,
É forte como a fé,
Não nasceu pra ser ferida
Por desprezo de qualquer.

Tu és chama que ilumina,
Soberana em teu lugar,
Venha de onde vieres
Tens direito de brilhar,
Tua vida é preciosa,
Ninguém pode te calar.
Goreth Pereira

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Não aceito violência
Disfarçada de paixão,
Nem promessa mentirosa
Pedindo mais perdão,
Quem ama cuida e protege,
Não estende nunca a mão.

“Eu vou mudar”, ele diz,
Depois de te machucar,
Entre tapas e xingamentos
Vem de novo implorar,
Mas amor que é verdadeiro
Não faz ninguém chorar.

Mulher não é propriedade,
Nem objeto de ninguém,
É jardim que floresce
Quando é tratado com bem,
Mas se tentam pisar nela
Ela se levanta além.

Chega de medo na noite,
Chega de viver calada,
Tua voz é resistência,
É bandeira levantada,
Cada passo teu é grito
Contra a vida maltratada.

Mulher é força divina,
É raiz, é construção,
Quando uma é violentada
Sangra toda a nação,
Respeitar cada mulher
É dever do coração.

***

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“Entre costuras, amores e dores” — Maura Luza Frazão
O poema de Maura Luza Frazão - na verdade, uma prosa-poética forte - tem grande vigor social por inscrever a mulher no campo do trabalho, da ancestralidade e da resistência cotidiana. Ele resgata mulheres — criadas, servas, escravizadas, roceiras, parteiras, quebradeiras de coco — e devolve a elas protagonismo histórico. Há aqui uma poética do labor e da sobrevivência, em que a vida feminina é acompanhada de dor, coragem e reinvenção. O texto é grita reparação.

Maura Luza Frazão.

Entre costuras, amores e dores
FRAZÃO, Maura Luza 

Sentinelas das próprias histórias
Costurando seus medos
Em teares do destino
Envoltas em seus muitos afazeres diários 
Suspirando por mudança em seus caminhos.

Mães, avós, sobrinhas, filhas, noras
Criadas, servas, escravizadas
Todas predestinadas a padecer
Resiliência versus perseverança
Forças arraigadas
Em suas distintas maneiras de ser.

Apagadas, silenciadas, ignoradas, relegadas
Protagonismo?
Nunca foram suas opções
Pioneirismo?
Sim!
Algumas delas redefiniram suas situações.

Professoras, donas de casa, 
Roceiras costureiras, parteiras 
Quebradeiras de coco...
Cada uma deixando vasto legado
De coragem e força através das gerações 
Reinventando-se entre criações e superações.

***

"Amor Intenso" — Elisa Lago
No poema “Amor Intenso”, Elisa Lago escolhe a delicadeza como via de acesso ao absoluto, mostrando que o amor verdadeiro não precisa de estrondo para se impor, pois chega “de mansinho” e, justamente por isso, transforma tudo por dentro. é assim que ela homenageia as mulheres neste 8 de Março. Assim, seu poema sugere que o amor é uma experiência de presença que vence a pressa do mundo e ressignifica a brevidade da vida: se “a vida é tão curta”, então amar deixa de ser fantasia e passa a ser uma forma essencial de existir com sentido. A imagem do passarinho, do ninho, do laço e do coração que batuca compõe uma poética do afeto como abrigo, impulso vital e entrega consciente, sem culpa e sem cálculo. Já na parte final, ao opor distância e proximidade — saudade quando longe, fulgor quando perto —, o poema toca uma verdade humana profunda: amar é habitar simultaneamente a ausência e a plenitude, fazendo da ternura uma pequena eternidade vivida no tempo.

AMOR INTENSO

Elisa Lago

Amor tão intenso;
amor de passarinho 
chegou de mansinho,
com carinho se aninhou.

No laço bem laçado,
é vida que pulsa; 
coração acelerado batuca
transbordante de amor.

Nunca foge da luta,
a vida é tão curta...
com razão e sem culpa
a entrega é de amor.

Amor felicidade;
pureza sem alarde;
distante... lembrança é saudade;
pertinho... afagos de intenso fulgor.

Releituras poéticas: Linda Barros, Maria do Rocio Vaz e Adriana de Jesus Silva

“Silêncio” — Linda Barros
Este é um poema duro, conciso e socialmente contundente. A boca que antes dizia amor, prometia e seduzia é a mesma de onde agora escorre sangue, o que revela com brutal clareza a transformação da linguagem amorosa em instrumento de opressão e violência. Lembrou Augusto dos Anjos - Escarra nessa boca que te beija! – Mas, o silêncio final não é paz; é trauma, interrupção da subjetividade, derrota momentânea da fala. Linda Barros constrói um texto breve, mas devastador.

Linda Barros.
SILÊNCIO
  Linda Barros
 
Hoje, do canto de sua boa
escorre   o sangue.
Da mesma boca
que um dia
jorrou palavras bonitas.
Da mesma boca
que um dia 
fez juras de amor.
Essa, é a mesma boca
que foi silenciada
por não ter como fugir.
Hoje, essa mesma boca,
SE CALA,
Por não ter mais nada a dizer.

***

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“Dona” — Maria do Rocio Vaz
“Dona” é um poema de emancipação. Ele parte da invisibilidade — social, familiar e íntima — para construir a cena de um renascimento em que a mulher finalmente assume a própria voz. Um poema que fala de identidade, de autoria e de posse de si, porque a personagem deixa de ser apenas objeto das expectativas alheias e passa a ser sujeito de linguagem.

DONA

Maria do Rocio Vaz

Não era vista no mundo,
Não era vista em casa,
Sequer no espelho.

De seus pais não foi o sonho 
Seu nome, herdado da santa
Que ela nunca foi.

Invisível, procurou o amor
Que jamais a encontrou...
Apagada, entregou sua luz.

A mulher que calou seus ais
Deu luz às palavras,
Para apagar seu algoz.

Hoje foi vista na rua:
Vestido vermelho-paixão,
Sapato de salto alto.

Dona do seu papel,
Ela dá ordens aos verbos 
E eles sangram poesia.

***

“Ser mulher é ser força” — Adriana de Jesus Silva
O poema de Adriana de Jesus Silva reúne atributos clássicos da valorização feminina — delicadeza, amor, compaixão — com elementos mais contemporâneos, como autonomia, autoestima, conquista e luta por direitos. O texto tenta equilibrar ternura e protagonismo, recusando a ideia de que a mulher só deva ser admirada por sua doçura. Há nele uma defesa da mulher como sujeito completo, singular, dono de si e de seu caminho.

Ser Mulher é ser Força

Adriana de Jesus Silva

Ser mulher é ser força,
Com ideais e emoções,
É ser delicada e inspirar paixões.

Ser mulher é conquistar o mundo,
Com determinação e coragem,
É desafiar limites em cada viagem.

Ser mulher é ser dona de si,
Com resiliência e autoestima,
É lutar pelos direitos com toda a estima.

Ser mulher é ser amor,
Com ternura e compaixão,
É espalhar a paz em cada coração.

Ser mulher é ser única,
Com singularidade e poder,
É ser versão completa do ser.

***

 

Releitura poética: Gracilene Pinto

“Ser Mulher”, Gracilene Pinto.  

Aqui, Gracilene Pinto constrói uma visão elevada e simbólica do feminino, associando a mulher à continuidade da criação, à coragem diante da dor e à harmonia entre força e ternura. Há um apoio na ideia quase ontológica da mulher como espelho do infinito — não apenas alguém que gera vida, mas alguém que participa do próprio mistério da existência ao unir matéria, afeto e transcendência.

A imagem do “cinzel que traz no coração” é especialmente feliz, porque transforma o ato de gerar e cuidar numa obra de arte moldada pelo amor. Ao final, quando compara a mulher à natureza — sol, luar, rio, mar, pássaro e flor —, o poema amplia essa figura para além do humano imediato e a inscreve como princípio de beleza, movimento e renovação.

 

Gracilene Pinto.

SER MULHER 
          Gracilene Pinto

Ser mulher é espelhar o infinito
Dando sequência à divina criação,
Modelar células criando um ser bonito
Com o cinzel que traz no coração.

Ser mulher é ser guerreira, ser valente,
E ao mesmo tempo saber manter a calma,
Ainda que a tempestade se apresente,
Ainda que o medo que lhe invada a alma.

Ser mulher é reunir toda beleza 
E a capacidade de amar
Que se recebe do divino Criador.

Ser mulher é espelhar a natureza, 
Ser sol e luar, ser rio e mar,
Pássaro e flor.

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Raimunda Pinheiro de Souza Frazão Há 3 meses Ribamar-MA Parabéns a todas nós! Gratidão a Deus ao Mhario Lincoln e a todas e todos da Academia Poética Brasilrira!
Linda BarrosHá 3 meses São Luís -MaranhãoQueridas Alcina e Maria Luiza o olhar de vocês é puro lirismo, não é só Sonoridade, é visão apurada sobre um texto sobre todas nós. Grata!!!!
Linda BarrosHá 3 meses São Luís -MaranhãoQueridos, muito obg. Caro Florêncio, vai ser muito bem vindo à mossa bela São Luís, uma "mulher calejada" mas que transpira arte por toda parte. E sim, a AMEI ainda existe. Nos veremos.
alcina maria silva azevedoHá 3 meses Campinas- SPTodos os poemas aqui publicados são maravilhosos, mas,o poema "SILENCIO", da autora Linda Barros, é emocionante.
Maria Luiza SaldanhaHá 3 meses São Luís Ma Que desfile de competência e amor e luta e força. Poetisas da mais alta qualidade. Linda Barros escreveu com o coração e com uma chibata na mão. É necessário falar isso.
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