
Chancela: Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
“Mulher Mistério Sagrado” — Elle Marques
O poema de Elle Marques ergue a mulher como princípio simbólico de força, fecundidade e transcendência, aproximando o feminino de uma energia quase cosmogônica. Há nele uma visão filosófica do sagrado feminino que ultrapassa a mulher como corpo e a reposiciona como centro de criação, consciência e resistência diante da cobiça e da perversidade.
2. “Ser Mulher” — Maria José da Silva
Este poema é uma linguagem simples e afetiva para defender algo essencial: ser mulher não deveria significar sofrer, mas viver com dignidade, ternura e respeito. Quase uma pedagogia da delicadeza, lembrando que amor verdadeiro não combina com dor, humilhação ou agressão.
3. “Dona” — Maria do Rocio Vaz
“Dona” é um poema de emancipação. Ele parte da invisibilidade — social, familiar e íntima — para construir a cena de um renascimento em que a mulher finalmente assume a própria voz. Um poema que fala de identidade, de autoria e de posse de si, porque a personagem deixa de ser apenas objeto das expectativas alheias e passa a ser sujeito de linguagem.
4. “Força que move o horizonte” — Marlene Ribeiro
O poema de Marlene Ribeiro trabalha com uma ideia solar da mulher: ela é fonte, semente e movimento transformador. Trata-se de uma leitura mais afirmativa do feminina, apenas, em que a mulher aparece como energia civilizatória, alguém cuja presença organiza a vida e favorece a paz.
5. “Luz em forma de mulher” — Joizacawpy Muniz Costa
Aqui a mulher é elevada a uma dimensão luminosa e quase metafísica. O poema faz da luz um princípio total, associando a mulher à criação, ao ventre, ao cuidado e à capacidade de recriar o mundo. Há uma concepção de mulher como força originária, quase ontológica, como se nela a existência ganhasse claridade e direção. Os elementos cósmicos — galáxias, cometas, clarão — ampliam essa grandeza e conferem à figura feminina um estatuto universal.
6. “Parabéns, Mulheres!” — Elisa Lago
O texto de Elisa Lago tem o tom de manifesto afetivo e coletivo. Ao repetir “somos”, o poema constrói uma identidade plural que reúne amor, resiliência, prece, canção e verdade; transformando a condição feminina numa experiência de luta e beleza partilhadas. O poema rompe com a ideia de que a valorização da mulher caiba num único dia simbólico, pois insiste na presença permanente do feminino na estrutura da vida.
7. “Mulher: ainda e sempre” — Nauza Luza Martins
Este é talvez o mais claramente político entre os poemas apresentados. Nauza escreve a mulher do presente histórico, aquela que já não aceita o silêncio, a posse, a redução estatística nem a homenagem vazia. O poema tem forte densidade social porque substitui a retórica da idealização pela linguagem da cidadania: respeito, equidade, corpo, identidade e justiça.
8. “Entre costuras, amores e dores” — Maura Luza Frazão
O poema de Maura Luza Frazão tem grande vigor social por inscrever a mulher no campo do trabalho, da ancestralidade e da resistência cotidiana. Ele resgata mulheres — criadas, servas, escravizadas, roceiras, parteiras, quebradeiras de coco — e devolve a elas protagonismo histórico. Há aqui uma poética do labor e da sobrevivência, em que a vida feminina é acompanhada de dor, coragem e reinvenção. O texto é grita reparação.
9. “Mulher” — Mônica Puccinelli
O poema de Mônica se apoia numa visão ética e espiritual da mulher, menos centrada na celebração exterior e mais na interioridade, no caráter e na capacidade de servir com amor. A lírica sugere que a verdadeira beleza não reside no olhar do outro, mas na afinidade moral, na semelhança de alma e na serenidade cultivada com o tempo.
10. “Bom dia, mulher!” — Alcina Maria Silva Azevedo
Este poema abandona o elogio contemplativo para adotar o tom de chamado, quase de advertência fraterna, contra a violência doméstica e a naturalização do abuso. Seu eixo é nitidamente social: Alcina questiona a permanência da mulher em relações marcadas pelo medo, pela dependência econômica e pela agressão física e moral. É uma fala direta, sem rodeios, e justamente por isso eficaz porque transforma o poema em gesto de encorajamento e denúncia.
11. “Devaneios” — Maria José Lima
“Devaneios” é uma celebração clássica da criação poética como território íntimo, noturno e
quase sagrado. Este poema sugere que o poeta não produz apenas versos, mas sentidos que escapam à lógica comum e se revelam num espaço onde alma, silêncio e imaginação se encontram. Há algo de romântico e de metafísico nessa visão da poeta como aquele que colhe o invisível e o transforma em linguagem.
12. “De mulher pra mulher — Recado” — Goreth Pereira
O poema de Goreth Pereira é um grito de solidariedade feminina contra a violência mascarada do amor. Sua maior virtude está em nomear com clareza aquilo que tantas vezes a cultura tenta suavizar: tapa, xingamento, manipulação, promessa mentirosa,
opressão. A poesia é muito forte porque desloca a mulher do papel de vítima passiva para o de sujeito de resistência, voz e levante.
13. “Voragem” — Andréa Motta
“Voragem” é um poema de interioridade rarefeita, quase feito de sopro, em que a fragilidade não aparece como fraqueza, mas como forma refinada de percepção.
Filosoficamente, o texto trabalha a ideia de renascimento pelo delicado: escrever, reverberar, ressignificar e renascer tornam-se gestos de reinvenção do eu. A poeta se move entre silêncio, lua, vento e sagrado, como se a linguagem brotasse de uma zona anterior ao ruído do mundo. É um poema de sutileza e densidade, onde a vulnerabilidade vira força estética e espiritual.
14. “Silêncio” — Linda Barros
Este é um poema duro, conciso e socialmente contundente. A boca que antes dizia amor, prometia e seduzia é a mesma de onde agora escorre sangue, o que revela com brutal clareza a transformação da linguagem amorosa em instrumento de opressão e violência. Lembrou Augusto dos Anjos - Escarra nessa boca que te beija! Mas, o silêncio final não é paz; é trauma, interrupção da subjetividade, derrota momentânea da fala. Linda Barros constrói um texto breve, mas devastador.
15. “Hematoma (In)visível” Anna Lissandra
Este poema é dos mais fortes em elaboração imagética. A casa, que deveria ser abrigo, surge como “território minado”, e o corpo feminino aparece como mapa de tempestades, o que traduz com alta potência poética a experiência do medo doméstico. Trata-se de uma denúncia sofisticada da violência invisível, daquela que fratura por dentro antes de deixar marcas legíveis por fora. O final, porém, desloca o poema da mera dor para a insurgência: na garganta nascem gumes. Ou seja, da mudez pode nascer arma verbal, consciência e ruptura.
16. “Ser mulher é ser força” — Adriana de Jesus Silva
O poema de Adriana reúne atributos clássicos da valorização feminina — delicadeza, amor, compaixão — com elementos mais contemporâneos, como autonomia, autoestima, conquista e luta por direitos. O texto tenta equilibrar ternura e protagonismo, recusando a ideia de que a mulher só deva ser admirada por sua doçura. Há nele uma defesa da mulher como sujeito completo, singular, dono de si e de seu caminho.
17. “Mulher” — Raimunda Frazão
Raimunda Frazão escreve a mulher a partir de uma matriz de fé, trabalho e luta. O poema articula espiritualidade cristã, sensibilidade e diversidade profissional para mostrar que a mulher ocupa todos os espaços sem abandonar sua capacidade de amar e resistir. A fé aparece como fundamento de dignidade, enquanto socialmente o poema reconhece a longa travessia feminina em busca de igualdade. Sua força está justamente nessa fusão entre devoção e consciência histórica: a mulher é celebrada como amor, mas também como trabalhadora, combatente e construtora de futuro.
18 - “Ser Mulher”, Gracilene Pinto.
Aqui, Gracilene Pinto constrói uma visão elevada e simbólica do feminino, associando a mulher à continuidade da criação, à coragem diante da dor e à harmonia entre força e ternura. Há um apoio na ideia quase ontológica da mulher como espelho do infinito — não apenas alguém que gera vida, mas alguém que participa do próprio mistério da existência ao unir matéria, afeto e transcendência. A imagem do “cinzel que traz no coração” é especialmente feliz, porque transforma o ato de gerar e cuidar numa obra de arte moldada pelo amor. Ao final, quando compara a mulher à natureza — sol, luar, rio, mar, pássaro e flor —, o poema amplia essa figura para além do humano imediato e a inscreve como princípio de beleza, movimento e renovação.
19- "INTEIRA"- SHAELENE SERRA - No poema de Sharlene Serra, a figura feminina surge como uma ontologia da resistência, alguém que não apenas sofre o mundo, mas o reelabora por dentro, convertendo dor em movimento, silêncio em memória e fragilidade em potência. Há, nesses versos, uma filosofia do ser que lembra que a grandeza humana não está na ausência das quedas, mas na arte de ressignificá-las, como quem faz do cansaço uma ética de permanência. Quando o texto diz que ela “carrega oceanos”, afirma a vastidão interior de uma existência que abriga profundezas, correntes e tempestades, sem perder a capacidade de florir em meio ao áspero, como os “girassóis e cactos” que coexistem nela. A escrevivência, aqui, não é apenas expressão literária, mas testemunho do existir com densidade, como se a mulher fosse ao mesmo tempo raiz, árvore e luz — fundamento, narrativa e transcendência — numa imagem belíssima de quem resiste não por dureza, mas por ter aprendido que a delicadeza também é uma forma superior de força.
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