
A Explosão Poética de uma Estrela
(*) Mhario Lincoln
Os cientistas cósmicos sempre falam no nascimento de uma nova estrela no universo em períodos grandes de tempo. E ela nasce pra valer quando a temperatura e a densidade do seu núcleo ficam tão altas que seus átomos de hidrogênio se fundem, virando hélio.
E como tudo está interligado, coloco esse exemplo para justificar o nascimento dessa superpoeta chamada Nauza Luza Martins, maranhense, de Monção (MA), hoje residente em Brasília, onde desenvolveu suas qualidades sensoriais de forma exemplar.
E como fazer essa análise empírica com o Cosmos? Fácil. Nauza realmente nasceu para a poesia quando a densidade de seu núcleo sensorial conseguiu debulhar sentimentos reclusos e, até então, intocáveis. Assim, nesse mergulho infinito deu-lhe a temperatura suficiente para se fundir à vontade de exportar, do orgânico para o físico, tal condição.
Vide: “Quero sair de mim/Tirar toda essa roupagem/Que me envolve/ Com noites de lua cheia/ Com essa sofrência insana/Recorrente, reticente e provocante/ Sou aprendiz de saberes (...)”. Essa, a contagem regressiva e orgânica para o lançamento ao universo da poesia física.
Há nesse turbilhão de versos – são dois livros a que tive acesso: “Interlúdio Poético” e “Jogo de Palavras”, ambos pela editora Chiado/Portugal – mensagens fortes, onde o erótico feminino se desprende do simples prazer do gozo, interfere no social e se revolta contra a grotesca interpretação masculina do ‘fazer amor’:
“Estava nua e fria/ Sob teu olhar desatento/ Chovia dentro de mim/ Nem uma gota sequer de lágrimas/ Rolava dos meus olhos/ Nenhuma roupa sequer/ Cabia em meu corpo/ (...) /Queria que a chuva/ Dentro de mim/ Virasse tempestade, / Te arrastasse/ De vez para teu mundo/ de Vaidade e hipocrisia. / Vá, siga seu rumo. / Me deixa em paz“.
Mutatis Mutandi, é bom lembrar que houve um tempo em que poemas eróticos sobre o corpo feminino na maioria das vezes, eram produzidos por vozes masculinas, e, por isso, refletiram a imposição hierárquica de gênero e poder entre os dois seres íntimos. Porém, algumas reações visivelmente espetaculares, mudaram essa história.
Tanto que, no decorrer dos anos, muitos trabalhos poéticos femininos ganharam liberdade de especular: afinal, por que só ele comanda a relação? Por que o julgo dele sobre mim? Por que não parar tudo isso quando não estiver em meu perfeito gozo?
Como se leu, acima, essa foi a reação, o grito de liberdade da poeta Nauza Luza, quando fê-lo, o parceiro, saber da angústia da relação a que era submetida. O ‘fazer amor’, no caso, não se consumou!
Na mesma linha, nomes como da brasileira Leila Míccolis, da portuguesa Maria Teresa Horta e da angolana Paula Tavares, começaram a ruptar esse estigma de submissão e transformaram a poética antes vista apenas de baixo, para uma posição mais privilegiada: de cima. Passaram a comandar as ações, “Ponho um beijo/ demorado/ no topo do teu joelho/ Desço-te a perna/ arrastando/ a saliva pelo meio” (Maria Tereza Horta). Nesta citação, a análise empírica se prende ao comando da ação poética. Nessa inversão de liberdade, antes mesmo de ser uma inversão de valores. Como nos versos de Nauza, uma amostra explícita do trabalho de conscientização do mote, descontruindo de forma corajosa, esse, antes, espaço de problematização e desconstrução de um desejo reprimido.
No outro volume, que ora leio, “Jogo de Palavras”, há uma nebulosa brilhante no universo dela mesma, nessa pegada lírica, porém forte e consciente. São mais de 100 composições poéticas retratando a força desse firmamento estelar: “(...) à sociedade importa manter a situação/ Da mulher-complemento relegada à condição/ Do eterno feminino na esfera do privado/ Ficando para o ‘macho’/ O espaço público reservado”.
Como se vê, cada vez que mais energia – como uma supernova – adentra no universo lírico de Nauza, mais força ganha para produzir quase diariamente suas poesias, demonstrando que o hidrogênio aedo de sua construção plasmática continua efervescente e grandioso. Mais que isso:
Surpreendente, até: “No terceiro gole de champanhe/ Me transformo em outra mulher/ Moderna, livre e sonho com Paris (...)”.
Ou espantoso, até: “Tudo que sonho, que quero e que sei/ É viver do meu jeito narcísico de ser (...)”.
Ou romântica, quase em sua plenitude: “Conhecer você foi para mim um reencontro/ Vi diante dos meus olhos, parte de mim mesma, / a outra metade que veio realizar um sonho antigo/ Me tornar completa, me fazer mulher!”.
Portanto, como no Cosmos, terão que se passar bilhões de anos para que essa nova estrela perca força e energia e morra. Porém, como é da lei do universo, logo renascerá ainda mais forte.
Bom te ler e recordar, Nauza. Feliz aniversário (02.12).
(*) Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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