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"O SONHO OU A VIDA: PARA ALÉM DO ESPELHO QUEBRADO"

Sobre o livro "ESPELHO DE EVA"

09/12/2020 às 14h45
Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
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Capa. Original do texto.
Capa. Original do texto.

Sobre o livro "ESPELHO DE EVA"

O SONHO OU A VIDA: PARA ALÉM DO ESPELHO QUEBRADO.*

Jeanderson Mafra*

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Talvez seja um pormenor da minha maneira de aprender e assimilar,  mas os poemas de Sharlene Serra me soaram mais belos sendo lidos que declamados. Talvez ela mesma não tenha conseguido, pela voz, imprimir o que queiram soar. Sim, isso é chato, e qualquer poeta vive esse dilema entre si e sua criação. Mas essa singularidade que verifico na obra "Espelhos de Eva" é somente o início de uma compreensão acessível a quem está disposto a entendê-la. 

"Espelhos de Eva" é um título muito dócil, muito raso, pequeno até, para aquilo que ela demonstrou tão sutilmente na obra homônima. Mas tudo bem, as impressões não cessam assim, e quero dizer que tais observações são positivas, oriundas da própria leitura que se faz, onde o paradoxo é cada pedaço de espelho, refletindo o que quiser. 

É que tenho aversão a alusões religiosas. No entanto, Sharlene Serra acabou por puxar um fio do frágil novelo do Patriarcado com um nome feminino que este adora na seara do que postula ao feminino. 

Sem o aparente propósito, é como se tivesse dado uma isca para ser  palatável. Pois não se lê a Eva "bela, recatada e do lar" mencionada, senão, muito mais que esta promessa, lê-se Lilith e sua rebeldia odiada pelos homens e pelo próprio demônio Javé, um elohim pequeno do panteão mesopotâmico. Sua ditadura contra a mulher livre e imortal ainda perdura nas narrativas arquétipicas impregnadas na cabeça dos homens medíocres, tão só pelos desdobramentos da antiquíssima religião retrógrada javista-eloísta que serviu para unificar o antigo Império da Babilônia e suas extensões territoriais do então mundo conhecido. Infelizmente, o ruim dessas narrativas nos alcançou. 

Tais lendas mesopotâmicas,  copiadas e readaptadas de império a império, serviram para doutrinar  normativamente a sociedade e suas pulsões rebeldes, principalmente as liberdade sexuais e políticas que viam na mulher apenas mais um território a ser dominado. São, portanto, imagens e direções morais das quais devemos nos livrar e substituir por uma ética e humanização da vida em suas mais diversas instâncias. 

Sharlene não sabe, mas tocou esse território inexplorado do jardim,  onde Eva se encontra presa, para mostrar a esta que o jardim é, na verdade, o inferno; e dali premia  libertar-se. E como a liberdade é uma conquista diária, ela deve ser sempre promovida. Sendo a arte, a literatura, as letras e tudo que for de criativo - de feminino - um dos caminhos mais prementes para tomar a Bastilha de seios ao vento,  mostrando às mulheres sua natureza e condição ante tais grilhões. 

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Sharlene Serra, a autora.

Sharlene Serra entoa esta marselhesa.  

É mister notar suas venturas, seus métodos, suas reminiscências, o seu inconsciente em resgate, criando e desbravando o caminho de volta ao sonho. É preciso lembrar o sonho repartido pela queda. 

Há um misticismo no qual Eva se envolve (como às fases da lua) que me remonta às Brumas de Avalon e sua incrível versação de Morgana, a Senhora do Lago, sempre maldita pelas versões conservadoras e cegas, sem a visão mágica da grande mãe, culto antigo do qual Morgana é guardiã. Nesta obra, de Marion Zimmer Bradley, a mulher é construída em sua totalidade; é completa. 

Digo que em nossa sociedade a mulher não é plena, não pode ser quem é: sem o impedimento patriarcal. Explico: a mulher, por exemplo, não pode falar que gosta de sexo, não pode exprimir seus desejos sem receber a alcunha de puta, devassa, pervertida. Isso ocorre mesmo dentro do próprio casamento, entre quatro paredes. A mulher tem que transar como se aquele fosse seu castigo, como se o homem estivesse "dando uma lição" - ainda que geralmente péssima -, uma prova de que ela é inferior, pois o homem está sobre ela, "comendo-a", fazendo-a gemer e imprimindo nela a sua força mal comedida, no que é necessário ser e haver nesta relação a ideia antiquada de que o homem é o recebedor do prazer, jamais a mulher e nunca por igual. E ainda que tenham os tempos melhorado a performance, alguns relacionamentos perpetuam essa ordem: a mulher continua não sentindo prazer. E a mulher que teima em buscá-lo ou reclamá-lo para si é rebelde, piranha e todos os adjetivos ruins e pejorosos que se  possam criar. 

Sensato lembrar que o homem, é  também vítima robotizada dessa desumana condição de ver as coisas, mas hospedeiro-ativo de sua própria ruína frente a muitas relações de poder que vivencia e impõe, não aceitando suas fraquezas à constatação de que a ideologia que mantém, qual Eva frente ao espelho, é, a si próprio nociva. 

Vivemos em um tabu. Um tabu sobre o corpo e autonomia intelectual da mulher. Pois além de isenta do prazer, a mulher não pode ousar pensar; e se o faz, volve-se  uma mulher disforme, sem feminilidade, onde questiona-se, inclusive, seu "sexo". Ou seja: os julgamentos e projeções ruins prevalecem. 

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Eva tenta lembrar de um sonho quando um espelho se quebra. E esta parte, possivelmente o início do ápice narrativo, remeterá a leitor (a) a uma infinidade de leituras, impressas como gatilho em nosso imaginário.

"_ Espelho, tinha que ser o espelho, já não bastassem os diálogos e as revelações diárias que ele faz, e temos que ouvir, agora interromper meus sonhos e desejos. Era só o que faltava! Disse Eva, conversando com a noite."

O "espelho" em Eva é como as mulheres devem se enxergar sempre, atentas às exigências patriarcais da sociedade, deve ser bela, polida; esteticamente magra; deve se portar com zelo e delicadeza. 

Uma mulher linda só o é de fato,  quando não pensa. Este é o axioma conservador e machista da qual mesmo as mulheres ilustradas estão sujeitas; no qual são questionadas pelo cotidiano. Encontrando palavras, o feminino é estranho ao nosso sistema. O feminino e a feminilidade são exóticos, de outro mundo, são os resquícios de um paraíso perdido em que os 'machos' querem apenas desfrutar de passagem, não lhe dando o título de cidadã da humanidade. 

Há algo aí! Há algo então que deve aparecer. A mulher ainda deve surgir, presa dentro de vestes que ela não escolheu para si e de palavras que não lhe classificam, qual menciona Sharlene Serra. 

_Espelho, espelho meu! Existe alguém mais bela que eu? 

Sem trilhar a estória desse conto, o espelho tem servido como uma referência do que a mulher deve ser. O espelho de Eva é a norma. E toda mulher tem o seu espelho. Deve consultá-lo diariamente para saber o seu papel e lugar no mundo. O espelho também serve para 'dividir e governar', pois foi o espelho quem denunciou a 'beleza' da Branca de Neve à bruxa, outra mulher, porém  atada aos ditames patriarcais e perseguidora daquela que tinha um poder atrativo maior. A bruxa também é uma vítima do sistema. Ela foi privada pela velhice, pela feiúra, pela normatividade do sistema que insistia servir. Não possuía qualquer sororidade. Condenada pela ditadura da beleza, restava-lhe ser a anti-heroína à rival Branca de Neve.

_Se eu não posso, ela também não poderá! 

A ausência do espelho pôs Eva em crise consigo mesma, lhe revelou a verdade por trás do espelho. Mas ela não estava preocupada com o fato de ter quebrado. Eva incomodava-se por ter esquecido o seu sonho; e dali então não conseguia mais dormir. Tinha que descobrir as próprias referências, tinha que reconstruir a imagem de si mesma. A sua própria essência. Ela o fez pelo canto, pela poesia emanando de si. Eva descobriria Lilith, o seu outro lado; a noite.

Deveras, estar sem espelho era encontrar o caminho de volta: ser sensual e recatada, ser rebelde e pacata, ser voz e silêncio, ser puta e santa; o caminho da completude.

"_O sono quebrou-se junto com o espelho..."

Ou seria o sonho? 

De qualquer forma há uma revelação aqui. Sharlene Serra com a anedota do espelho fez Eva se ver como era. Ela fez um caminho diálogico consigo, algo que toda mulher deve fazer para acordar do "sono patriarcal". 

A teia de contos e pontos encruzilhados em Espelhos de Eva pode nos ajudar a inferir várias observações e análises górdias, mas esta é a chave central da caixa que toda Pandora não deve recear abrir. 

No fundo, toda mulher sabe que está em um sono profundo, outras o vêem entre o sono e o real. Outras já reconheceram o seu pesadelo. Outras, quais Eva, escutaram o espelho se quebrar. E é neste momento que elas podem vislumbrar o caminho de volta à sua essência libertária, sonhadora, mística; sem submissão às rédeas. 

Para o cartel de assédios, abusos e violências sofridas, Sharlene Serra é uma bruxa. Pois estilhaçou o espelho-reflexo da prisão-pesadelo. Porém é uma fada-madrinha, qual Morgana, pois teve a visão e curou os traumas de sua narrativa. Foi ela quem quebrou o Espelho de Eva, para que a mesma visse a própria imagem, não a projetada pelos outros. 

Dentro de toda mulher dorme uma Eva, que precisa ter o espelho quebrado!

 

Jeanderson Mafra*, é mestrando em Letras (UFMA), com ênfase em estudos de linguagem e práticas discursivas. Ativista cultural no coletivo Sarau Poético Ludovicense, autor do livro "Fragmentos de Mármore" (2017) e pai do Calel.

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Luis Mário OliveiraHá 5 anos Sao Luís - MA100 comentários! O texto encontra-se sem reticências ou dois pontos. Um lacre de comentário fundamentado. PARABÉNS!
KarinaHá 6 anos São Luís - MAÓtimo texto, ainda não tive o prazer de ler o livro, mas apenas com está crítica já sinto vontade!! Que cada mulher possa se olhar no espelho e consiga enxergar o seu verdadeiro eu sem ser silenciada.
HAMILTON OLIVEIRA Há 6 anos Santo Antônio de JesusMagnífico post, já leio os poemas e poesias da autora, um talento incrível com as palavras, um ode, um cântico, a todas essas mulheres incríveis, a Eva e a autora, mulheres fortes e que mexem com nossa imaginação e abrilhanta nossa história! Parabéns a autora por mais esse lançamento.
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