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Especiais Acadêmica Maranhense

Convidada Especial, acadêmica Ceres Costa Fernandes, "A Angústia da Informação ou o Livro de Chagas".

"E foi para falar de uma leitura como essa, que escrevi todo esse blablablá. Trata-se de As armas e os barões assassinalados"

05/03/2021 17h49 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: facebook/Ceres Costa Fernandes
Ceres Fernandes
Ceres Fernandes

A ANGÚSTIA DA INFORMAÇÃO OU O LIVRO DE CHAGAS

*Ceres Costa Fernandes

               Tenho certeza de que você compartilha da ansiedade causada pelo mar de informações em que estamos submersos nestes tempos de exacerbação da comunicação. Estar em dia com as notícias do mundo globalizado impõe tentativas frenéticas de apropriação do conteúdo de livros, jornais, revistas, documentários de televisão, Internet, redes socais. Sem isso estamos incapacitados para entender o que se passa à nossa volta ou até para entabular uma simples conversinha de botequim. E lá vem a angústia de não poder acompanhar tudo o que acontece nas artes, ciência, esportes, política, educação, cotidiano e vida alheia, pois é imprescindível estarmos informados sobre os transgênicos, a última teoria sobre os buracos negros ou as fofocas políticas. E mais, tudo tem que ser feito em meio ao trabalho nosso de cada dia, sem descuidar das obrigações e lazeres familiares e sociais.

      A overdose de informações mal digerida dá origem aos críticos de orelha de livro e aos sábios de almanaque. Isso quando não bagunça de vez o cérebro do confuso e atarantado homo sapiens da Era da Comunicação. Chega-se ao Crioulo Doido, personagem do samba de Stanislaw Ponte Preta, aquele que estudou tanto história do Brasil para fazer um samba enredo que pirou. Misturou personagens, fatos históricos e datas no samba do mesmo nome. Por aqui, também, temos muitos críticos de orelha, sábios de almanaque e crioulos doidos, todos posando de intelectuais.

Chagas/google.

Agora vem a desgraça maior: a falta de tempo para o essencial. Tempo para fruir daquela leitura que não apenas informa, mas nos preenche, deleita, proporcionando-nos a mais legítima emoção estética a que todo ser pensante tem direito.  E foi para falar de uma leitura como essa, que escrevi todo esse blablablá.  Trata-se de As armas e os barões assassinalados, mais um livro da lavra do excelente, poeta e cronista (não sei qual dos títulos deverá ter a primazia) José Chagas. Agora desconfio que, quando digo mais um livro, a não estou sendo exata. Melhor seria dizer: O Livro. Explico. Além de trazer a marca de qualidade de Chagas, este livro é, evidentemente, um objeto de desejo. Algo que os leitores de suas crônicas de sábado esperavam há muito e que lhes vinha sendo negado: ter esses escritos à mão, cativos em seu poder, a qualquer hora, para reencontrá-los e poder saboreá-los, aos bocadinhos como quem come doce de leite, raspando pelas beiradas do prato para “render”. 

     Pois bem, agora, após marchas e contramarchas, para a felicidade geral de seus leitores e da literatura maranhense, Chagas decidiu perenizar o que lhe parecia efêmero. Uma discordância: parecia somente a ele, pois crônicas centradas na beleza do próprio texto, a abordar a problemática do comportamento humano, tão velha quanto atual, são perenes. Indestrutíveis. 

E no curto intervalo do almoço, que faço no próprio trabalho, degusto Chagas, na sobremesa, de quando em vez, em meio a textos de Educação, e também algum de Os cem melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Morricone. Quem sabe se eu, de repente, aprendo?  Outros, fundamentais ou de obrigação, estão na fila. Muitos livros novos sendo publicados 

     A propósito, lembro aqui um conselho ouvido por meu amigo contista, Lima Filho, de um cachaceiro que descobriu como gerenciar a sua inconformação com a impossibilidade de dar conta da abundância de marcas de cachaça e da quantidade de garrafas, que talvez ajude no caso presente: “não se pode beber todas as garrafas de cachaça do mundo, mas devemos tentar, tomando uma de cada vez”.

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* Membro da Academia Maranhense de Letras, Cadeira nº 39.

Obras:

O narrador plural na obra de José Saramago. São Luís: Edufma, 1990, 2ª ed. São Luís: Lithograf, 2003; Apontamentos de literatura medieval – literatura e religião. São Luís: Edições AML, 2000; O último pecado capital & outras histórias. São Luís: Edições AML, 2000; O último pecado capital & outras histórias – seleta. São Luís: Edigraf, 2001; Seleta maranhense de contos e crônicas/ Ceres Costa Fernandes e José Chagas. org., e notas de Jomar Moraes.  São Luís: Edições AML, 2002; Surrealismo & loucura e outros ensaios. São Luís: Editora da Uema, 2008. Participação em Contos e crônicas – livro de leitura recomendada para o vestibular de junho de 2002 da FAMA – Faculdade Atenas Maranhense – organização, introdução e notas de Jomar Moraes. São Luís: Edições AML, 2002.

MEDALHAS E HONRARIAS:

Medalha do Mérito Timbira (2013),categoria cavaleiro, Governo do Estado do Maranhão; Medalha João Lisboa, 200 Anos.Academia Maranhense de Letras, 2012; Medalha dos 400 anos de São Luís. Assembleia Legislativa do Maranhão, 2012; Medalha São Luís 400 Anos – Vale, 2012; Palmas Universitárias, UFMA, 2009; Medalha Laura Rosa (concedida às mulheres educadoras que se destacaram em outros ramos do saber), 2008; Medalha Odorico Mendes da Academia Maranhense de Letras; Medalha do Mérito Timbira (2006), Governo do Estado do Maranhão; Comendadora do IV Centenário de São Luís, 2012, Governo do Maranhão.

 

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