
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA: A INJUSTA E ESQUECIDA SAGA DA ESCRITORA BRASILEIRA
A autora abolicionista foi impedida de assumir o seu lugar na Academia Brasileira de Letras, contudo, a história teve novos desdobramentos recentemente
Textos escolhidos. (AH): original de Victória Gearini
Júlia Lopes de Almeida, escritora brasileira - Wikimedia Commons
Fundada em 1897, sob os moldes franceses, a Academia Brasileira de Letras (ABL) contou com a ilustre colaboração da escritora e abolicionista Júlia Lopes de Almeida. Contudo, embora a memorável autora tenha participado de reuniões e contribuído ativamente para a criação da instituição, ela foi esquecida.
Os intelectuais que estava à frente, seguiram as regras da Académie Française de Lettres. Desta forma, os colegas da escritora votaram contra a sua participação no seleto grupo. Renegando o protagonismo e a emancipação feminina, a ABL concedeu um lugar no grupo ao marido da escritora, chamado Filinto de Almeida. Portanto, a cadeira de número 03 passou a ser ocupada pelo seu companheiro, uma vez que a academia não aceitava a participação de mulheres.
Ideais revolucionários
Nascida em 24 de setembro de 1862, no Rio de Janeiro, Júlia Lopes de Almeida mudou-se para Campinas ainda criança. Provinda de uma família de portugueses ricos e cultos, aos 19 anos já escrevia para A Gazeta de Campinas, segundo relatou o site Brasil Escola.
Júlia Lopes de Almeida, escritora brasileira / Crédito: Divulgação / Youtube / tvbrasil
Criada por uma família liberal, a jovem mudou-se para Lisboa, em 1886, onde publicou a obra Contos infantis, junto de sua irmã, a também escritora Adelina Lopes Vieira. Ainda segundo o site, em Portugal, a escritora conheceu o poeta Filinto de Almeida, com quem acabou se cansando pouco tempo depois. Aos 24 anos, ela publicou a primeira obra para adultos, intitulada Traços e iluminuras.
Ao retornar para o Brasil, em 1888, ela escreveu alguns romances, contos, crônicas, ensaios e peças teatrais. Considerada uma mulher revolucionária e além do seu tempo, Júlia defendia, ainda, a abolição da escravatura, a proclamação da República e a emancipação dos corpos femininos. Segundo o site da Editora Darkside, a abolicionista realizou inúmeras palestras ao longo de sua vida, a fim de conscientizar as mulheres sobre seus papéis de emancipação perante a sociedade misógina da época.
A brasileira tornou-se uma das escritoras mais publicadas durante o período da Primeira República (1889-1930). Tal sucesso lhe rendeu visibilidade e a publicação de diversos artigos e matérias que abordavam direitos iguais entre os gêneros.
Júlia morreu no dia 30 de maio de 1934, no Rio de Janeiro, vítima de malária. A revolucionária nunca viu a justiça ser feita, mas deixou um grande legado para a História.
De acordo com uma matéria do Jornal da USP, a regra de não permitir mulheres na instituição foi mantida até 1977, até que Rachel de Queiroz foi aceita como a primeira escritora feminina a integrar a academia.
Conforme repercutido pela Editora Darkside, em 2017 a ABL reconheceu a injustiça cometida contra ela. Na época, a autora foi homenageada e incluída como co-fundadora. Assim como a carioca, diversas outras personagens femininas da história nacional e internacional tiveram suas histórias silenciadas e esquecidas ao longo da História.
Vítimas do machismo e patriarcado, muitas tiveram que lutar e dar suas vidas em prol de uma causa. Contudo, cada vez mais, a luta das mulheres tem ganhado força e histórias como a de Júlia são resgatadas e contempladas pelas gerações futuras.
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