
Dançar com você
Conto de Roger Dageerre
Era uma vez dois adolescentes que se conheceram numa praia muito movimentada. Chegaram ao amanhecer e ficaram juntos como uma moldura de cenário de amor. Ela se chamava Yana, e ele, Phio.
Logo nos primeiros diálogos, ele confessou que tinha outra namorada, uma notícia que chegou como uma flecha que atravessa o peito de quem ama, ferve o corpo e maltrata a alma. Yana sabia que não podia continuar alimentando aquela relação porque ela não queria só “ficar”, mas uma força estranha declarava que ela estava amarrada nele para sempre. Phio continuou aceitando a situação de forma mais despreocupada, pois acabara de dizer que tinha um namoro sério e, se ela se arrependesse desse namoro que estava começando, não poderia dizer que não sabia. Assim, ele seguiu na intenção de viver os dois amores simultaneamente. Ela, muito apaixonada, porém muito tradicional, ficou indecisa, sem saber se continuava com aquele amor, ciente da existência da outra, ou se pedia a Deus para esquecê-lo, enquanto que Phio se empolgava com a relação amorosa, pois Yana, além de meiga e carinhosa, era uma bela menina: tinha pernas perfeitas, cintura fina, busto para frente, rosto de boneca, nariz afilado, lábios de mel, cabelos negros e longos como de índia e olhos castanhos claros, daqueles que se destacam na luz negra.
As horas foram passando e eles ali na praia, ligados um ao outro por beijos apaixonados, como se o resto do mundo não tivesse mais valor. Cada beijo era uma eternidade. Cada abraço era uma fortaleza de prazer. Yana sabia que ela não era daquelas de dividir o namoro, mas não tinha forças para recusar o fogo da paixão que tomava conta dela, como se essa paixão fosse a proprietária do universo do seu corpo e de sua alma, uma realidade que parecia fantasia, ou uma história romântica vivida nos sonhos maravilhosos das adolescentes apaixonadas. Phio esqueceu-se de tudo e estava disposto a ir até o fim. Recusar um amor daqueles, capaz de matar de satisfação, ou morrer de saudade, ou até mesmo daqueles que gritam com todas as forças das cordas vocais: “eu te amo”.
Apesar do ambiente ao ar livre e ventilado, o calor tomava conta dos corpos excitados. Parecia impossível afastar-se um pouco para respirar o ar puro da praia, pois as tentações eram imensas, os beijos vinham em sequência e a vontade de continuar era tentadora. Yana não conseguia dizer não para Phio. Então, estavam ali juntos como se fosse para sempre. Ela, entregue às tentações, vivendo o melhor momento de sua vida, sabendo que jamais surgiria
1
outra oportunidade que desse a ela a satisfação que esperou por toda a vida em ter. Ao mesmo tempo, pedia a Deus para ajudá-la a esquecer deste amor tão repartido mas, ao mesmo tempo, ficava lembrando-se dele chamando-a de minha flor, meu jasmim e dos melhores beijos. Ele, pouco preocupado com as consequências, porque imaginava que o fato de não omitir o seu compromisso era o suficiente para ter nos braços a bela e encantadora Yana. Talvez por isso se sentisse dono de tudo e o rei da praia, pois desconfiava que ela estivesse usufruindo dos melhores beijos que jamais tinha provado antes. Uma união semelhante a um equipamento dois em um, ou um sistema operacional conjugado - agarrados de forma satisfatória ao ponto de obrigá-los a sentir vontade de voltar sempre que ousavam ir embora.
O tempo foi passando e a maré que, quando eles chegaram, estava enchendo, já estava vazando, e ele ali nos beijos exagerados, numa competição de fôlego quase infinito, sem ao menos uma olhada lá fora, concentrados no cupido como o dom de uma união, sem qualquer espaço para a solidão, sem dó, sem pena dos corpos cansados que estavam dispostos a enfrentar qualquer desafio de resistência, numa doação, num milagre do amor e num sentimento de uma extensão divina. Separavam-se apenas para um suspiro, para depois recomeçar tudo outra vez.
Neste momento, Yana conseguiu afastar-se e embora sentisse uma vontade imensa de se agarrar novamente a ele, encontrou forças para dizer:
- Hoje é o nosso primeiro e último dia...
- Não entendi... – Falou Phio, assustado.
- O nosso amor é muito bonito. Um amor de cinema, de um filme campeão de bilheteria. Mas, não posso aceitar um homem que não pode estar ao meu lado sempre. Não aceito ficar dividindo você com ninguém. O que vou fazer no tempo em que eu ficar sozinha? Sinto-me descartada porque, no milagre do amor, não há divisão de sentimento. Que vou fazer quando ouvir uma música que parece com você? O que vou fazer, da vida, quando eu encontrar um casal se beijando e este cenário bonito for parecido com o nosso amor? Sei que estou me despedindo, mas sinto que estou voltando. Não tem graça lá fora sem você. Mas, quem sabe, um dia tudo pode acontecer. Estou entregue ao destino e esperando um “sim” ou um “nunca mais vou voltar”. Então, hoje é o nosso primeiro e último dia.
- Por quê?
- Porque eu tenho que te entregar por inteiro à outra ou ela tem que devolver a minha parte...
- Isso não existe. Ninguém é de ninguém...
- Então, responda-me: com quem tu vais comemorar o teu aniversário: comigo ou com a outra? Nas outras datas comemorativas, como Natal, Ano Novo, Carnaval, São João, tu vais ficar comigo ou com ela?
Uma pergunta que não estava nos planos de Phio. Demorou a responder, mas respondeu:
- Vou passar o dia com ela e a noite com você...
- Quero você toda hora. Não é justo ficar te dividindo com a outra. Nem é bom para você, nem para ela e nem para mim
Neste momento, Phio agarrou-a novamente e retomou as rédeas, assumindo o comando.
A praia já estava deserta e já era hora do pôr do sol. O cenário era muito bonito - eles ali nos beijos e abraços apertados. Uma relação que estava iniciando, e ela insistindo que estava também terminando, apesar de ter confessado que não conseguia ir embora, também não conseguia se libertar das garras dele.
E, o fogo da paixão, as tentações aparentemente infinitas... Quem sabe, um dia, este casal vai se encontrar e usufruir sozinhos, sem barreiras, sem preconceito e sem a necessidade da permissão da sociedade, apenas com o endosso de uma religião, para que juntos possam, quem sabe, um dia, iniciar um romance sem a data marcada para a tão dolorosa despedida.
Neste momento, Yana conseguiu libertar-se novamente e disse:
- Gosto de você. Desejo-te muito. Curto a natureza. Adoro as plantas. Não me canso de apreciar o movimento da maré. Mas, te quero por inteiro. Por isso, vou te devolver. Deus está me ajudando a te esquecer. Sinto que você é ligado a mim. Estou indo, mas sinto que estou voltando. Não tem graça o tempo sem você. Nada impede o nosso amor, exceto o teu compromisso com a outra. Não sou e nunca serei de mais ninguém. Sou a saudade e a lembrança. Só existo para você. Sinto que vou ser a solidão, mas tu tens que ser a doação. Espero que um dia aconteça o milagre do amor para vivermos eternamente. Então, quero dançar com você para oficializar a nossa despedida. Uma despedida como nos espetáculos de um teatro, numa peça de um grande amor partindo.
- O quê? Quer dançar comigo aqui na areia, sem música?
- A areia nunca foi empecilho para a dança, e eu posso cantar para nós. Não importa se é música lenta ou não. E as sete notas musicais não vão fazer diferença agora, nem o ritmo, nem os acordes e nem o tom. E não interessa se a minha voz sair desafinada ou não. E pouco importa, também, se a música que vou cantar é sucesso, porque eu quero mesmo é “dançar com você”...
Fim
Mín. 13° Máx. 20°