
Nota do Editor: pode publicar as duas apresentações de um dos clássicos do teatro nacional, um guia importantíssimo para quem faz teatro no Brasil, é emocionante para toda a equipe do Facetubes, pois revive a escrita de dois incomensuráveis nomes da literatura brasileira, nascidos maranhenses: Padre João Mohana e poeta Nauro Machado. Trata-se do "Dicionário de teatro", de Ubiratan Teixeira, relançado pela Editora Instituto Geia, em 2005.
Na verdade, com esta reedição, o Instituto Geia fortaleceu a "Coleção Geia de Temas Maranhenses", criada para divulgar obras de alto significado para a historiografia desta região. Sabe-se que o "Dicionário de teatro" é o resultado de anos a fio de trabalho e dedicação do seu autor às artes teatrais, compilado em cursos, palestras, seminários, ensaios, encenações e contatos com atores, diretores, produtores, mestres artesãos e plateia, pelo imortal Ubiratan Teixeira, nascido em São Luís do Maranhão. É um dos grandes de sua geração. Novelista, contista, ensaísta, teatrólogo e jornalista.
Um detalhe interessante: o projeto gráfico e acabamento é de Arlete Nogueira da Cruz, esposa de Nauro Machado.
Desta forma, vamos nos deliciar com essas duas apresentações épicas de João Mohana e Nauro Machado, abaixo:
O PALCO COMO EXISTÊNCIA
Nauro Machado
Exte livro, pesquisado com fé de apóstolo e desenvolvido ao longo de muitos anos, no intervalo de uma escrita voltada para a criação literária de vários gêneros, é o testemunho de uma paixão exercida entre duas posturas de vida, pelo seu autor indissociáveis; na existência factual e no palco imaginário, como representação das inúmeras personas com as quais Ubiratan Teixeira revela a urdidura dos enredos que lhe exteriorizam o drama e/ou a comédia de pensar o ser e o mundo - esta forma teatral por excelência.
Os bastidores onde se desenrola essa ação são aqui abertos e postos à mostra como espelhos da corporeidade mais extremada e com a competência de uma restauradora cirurgia plástica, de minúcia impressiva, a que não falta a incisão exata no tecido do glossário utilizado.
Prova disso é a afortunada indignação com que Ubiratan Teixeira não há muito fustigou, defendendo o templo que lhe é sagrado, aqueles que, por força de um solipsismo mais que redutor, lhe atribuíram propositalmente falhas, por não saberem que ele, além da consistente cultura teatral, absorve e considera o Teatro como a verdadeira transparência do Ser, algo à maneira kierkgaardiana, abrindo-lhe as cortinas para um palco onde possa monologar dialogicamente com a própria divindade.
Não escamoteando o ser-em-si, na interioridade que lhe internaliza as emoções, Ubiratan Teixeira, criador de algumas obras-primas do conto brasileiro contemporâneo, consegue desdobrar-se neste Dicionário de teatro, na sua condição de autor-ator, espectador e intérprete do palco mundi que, para ele, é o proscênio ainda provinciano de nossa São Luís do Maranhão.
Diríamos, após a leitura deste livro, que a arte teatral não possui nenhum segredo para Ubiratan Teixeira, este escafandrista a lembrar-nos curiosamente, para nós que fomos apaixonados cinéfilos no tempo em que o Teatro Artur Azevedo era também cinema, aquele Fantasma da ópera, interpretado por Claude Rains, ou o torturado Hamlet, interpretado por Sir Laurence Olivier, cumprindo a vingança pelo assassinato do pai.
Convém lembrar que o Teatro Artur Azevedo, de São Luís, pode servir de ponto de partida para qualquer estudo que se queira fazer da realidade cênica maranhense, nele confundida, através dos últimos 50 anos, com os espetáculos ali realizados (alguns deles pelo próprio Ubiratan) no espaço de um palco e diante de um ciclorama a confundir-se naquele tempo com a tela cinematográfica
Lembramos, por exemplo, do impacto que nos causou Sérgio Cardoso no papel de Hamlet, encenado ali pelo Teatro do Estudante do Brasil, cujo paradigmal nome passou a ser conhecido do até então acanhado e satisfeito público frequentador da Casa de Apolônia Pinto. E mais: aqui já havia, para contrabalançar esse provincianismo cultural, um pequeno grupo de escritores católicos, tendo à frente o depois padre João Mohana, secundado por Ubiratan Teixeira e poucos outros, que se propunha, com seriedade, talento e propósito modernista, à revitalização do nosso Teatro, por meio de um enfoque dado sobretudo aos textos movidos pela problemática religiosa de um Claudel, Ghéon, Bernanos e muitos outros.
Com uma viagem que ganhou à Europa para estudar Teatro, graças à visão e sensibilidade de Paschoal Carlos Magno, Ubiratan Teixeira se revelaria logo depois, voltando para São Luís, como o mais respeitado teórico e o mais profundo conhecedor de Teatro, entre nós. Ele é, dessa maneira, na sua função exemplar de teatrólogo, contista, romancista, cronista, repórter, memorialista, professor de arte dramática, cristão não ortodoxo, católico sem aura de santidade e incansável estudioso da literatura universal, um dos nossos raros e conscientes escritores que se tem negado a escamotear os meandros da psique humana, onde a alma pulsa como mercadoria inegociável, elastecendo aquela vontade schopenhaureana a nominalizar o mundo como vontade e representação.
Representação de um mundo que Ubiratan Teixeira, com a pertinácia da sua vontade, revela agora a todos nós, através desta exuberante segunda edição de seu Dicionário - necessário, didático e autoral -, de amplas perspectivas aqueles que consideram não só o Teatro, mas a Arte, como a razão maior da Vida.
Nauro Machado
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PREFÁCIO DA EDIÇÃO ORIGINAL
João Mohana
Existe uma filosofia desfavorável a prefácios. Aos meus ouvidos, foi Rachel de Queiroz quem pela última vez aludiu a ela. Não deixa de ser óbvio. Se um livro tem valor, o prefácio torna-se desnecessário. Se nenhum valor possui, o prefácio não lhe confere.
Este Pequeno dicionário de teatro vai confirmar essa filosofia. Não por ter surgido em paisagem vazia de obras congêneres, embora este fato signifique uma chance. Mas sobretudo porque possui valor intrínseco.
Maritain mostrou o destino das obras portadoras de valor intrínseco, diferente daquelas que despertam atenção por razões meramente circunstanciais.
Este trabalho de Ubiratan Teixeira nasce vigoroso, por não ter sido improvisado. É obra morigerada, enriquecida pela pesquisa atenta, teimosa, pela abertura inteligente, pelo faro objetivo com que o autor soube triar o essencial do acessório, pondo nas mãos do leitor um instrumento categorizado.
Além disso, trata-se de um livro útil ao processo de comunicação: os dicionários ganham cada vez mais função iluminadora. Sim. Nada comunica melhor que o diálogo. E nada melhor para o diálogo do que a palavra correta, o vocábulo exato. Em plena Idade Média, Nicolau de Cusa mostrava a seus alunos o valor do vocábulo preciso, da palavra bem conceituada no processo reflexivo. Ora, este é o papel de um dicionário. É o dicionário que permite a reflexão correta e a correta comunicação. Porque é o dicionário que permite o correto uso das palavras e dos vocábulos. É o dicionário que permite o encontro dos homens na comunhão do diálogo.
Mais do que cultural, o dicionário tem uma vocação humanizante, pois tudo o que contribui para aproximar os homens, humaniza. No caso deste Dicionário, a humanização é mais valiosa por atingir um grupo particularmente rico de sensibilidade e expressão social - o grupo daqueles que fazem ou amam o teatro. Para esses, sejam iniciados ou amadores, sejam profissionais ou curiosos. Ubiratan Teixeira está entregando um arsenal de vocábulos que lhes permitirá falar e ouvir com precisão, dialogar e conversar sobre as coisas e as gentes da arte de Molière. Nas escolas dramáticas, nos colégios e universidades, na imprensa especializada ou não, nos bastidores do espetáculo, ninguém estará impossibilitado de se comunicar, por não poder aprender o que seja embólima, cáliga, mimodrama e tantos outros termos técnicos que este precioso livro põe ao alcance dos interessados.
Sou tentado a dizer que, em relação a prefácios, alguns propósitos existem para não serem cumpridos. Jorge de Lima apoiaria esta tese, se já não tivesse deixado o palco do mundo, ele que sempre mostrou simpatia por prefácios.
No caso de Ubiratan Teixeira, é um prazer estar aqui acompanhando-o à ribalta das letras. Pois não tenho dúvida de que sobrarão aplausos para este seu Pequeno dicionário de teatro.
João Mohana
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