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Um triste "FLÂNEUR"? Ou o vaguear flamejante da construção poética? (Mhario Lincoln)

O texto tem como base o aplaudido poema "FLÂNEUR", de João Batista do Lago

02/05/2023 às 18h35 Atualizada em 02/05/2023 às 19h36
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago/Mhario LIncoln
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Arte: MHL
Arte: MHL

SOBRE "FLÂNEUR", de João Batista do Lago 

*Mhario Lincoln 

 

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“É-me impossível não acostumar-me à grandiosidade de teu punho, João, e com a dança de tua caneta a derramar tua consciência lírica por sobre a pauta branca da folha, como se almas anelassem por um sopro de perdão”. (MHL). 

 

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"FLÂNEUR", de João Batista do Lago 

(I)  

Vaga solitário por madrugadas 

sentindo o odor do mijo 

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e dos sangues mijados 

pelas ruas da cidade 

tendo por testemunho 

as sacadas dos velhos casarões 

embrutecidos pelo tempos 

e tão sós e invisíveis 

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quanto o flâneur que vaga 

pela cidade invisível 

que vaga seu filho: 

velho desconhecido 

pela vaga que vaga e 

pelos séculos amém 

 

(II) 

 

Já nem parece gente o flâneur 

acorrentado às suas trevas 

feito peixe asfixiado 

e já expondo todas suas vísceras 

espreitadas pelos urubus 

em rodopios no céu de anil 

que solareja a vindita da morte 

no balanço sutil da sorte 

e se lhe vai espraiando 

o balbucio da solidão consorte 

no inferno de todos os infernos 

praguejando com seus demônios 

o alvorecer dum corpo que dança 

com seus cães de raça 

  

(III) 

 

Nenhuma Ílion lhe presta augúrios! 

E mesmo os bufões cacarejam sua sombra 

no indiverso abscôndito inferno 

de ilusões de aplausos  

vindos das almas sarjetadas e 

nascidas dos coitos estuprados 

em densas noites de avelãs e púrpuras 

trajédias amalgamadas no corpo 

do divinal flâneur que ronda 

a vaga que vaga no breu dos meios-dias 

feito o louco do Nietzsche 

procurando o “deus” já morto 

com sua lanterna assassina: 

“Todos vocês, e eu, somos o meu assassino” 

 

--------------------------- 

 

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Caro e incomensurável João, 

Permita-me usar os versos "quanto o flâneur que vaga pela cidade invisível, que vaga seu filho", para iniciar este adendo. É bem verdade que essa expressão francesa 'flâneur' evoca uma pessoa que vagueia sem rumo pelas ruas de uma cidade, observando a vida urbana e suas peculiaridades. Suponho, no contexto efeméride, que se trata de uma homenagem intestina a um poeta solitário, isto é, a um 'flâneur' atento de seu entorno, cuja inspiração maior possa ser sua própria solidão. Até aí, um fato quase comum nas construções líricas clássicas. Todavia, o verso à "cidade invisível" tirou-me do sério e me fez chamar para a conversa Italo Calvino, lembrando-me da obra "As Cidades Invisíveis", onde o autor explora uma série de interligações neurais fictícias, cada uma com suas próprias características e peculiaridades. E por que lembrei-me disso? Porque essa é uma das principais influências literárias clássicas na poesia, relacionando-a à exploração de diferentes aspectos da condição humana e da experiência urbana. 

 

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Tais apedrejos inteligíveis também levaram-me a outra conotação filosófica:  a ideia de solidão e observação atenta pode estar relacionada a conceitos como o existencialismo, que exploram a individualidade, a liberdade e a experiência subjetiva do ser humano. É óbvio que o maranhense atento ao sulco sementeiro de sua terra que lê esse belo poema, logo se reverberará no rumo sonoro da existência poética do inesquecível Nauro Machado, o poeta maranhense 'sola modus’, cuja vida acabou influenciando uma variedade de poetas novos e movimentos literários indistintos.  

 

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Você, caro João, em determinados rascunhos existenciais, mostra claramente essa influência naurística pelas verossimilhanças temáticas ou estilísticas em alguns de seus mais belos escritos, seja na prosa, quanto na sua poética. Aliás, quem o não; especialmente aqueles que se apaixonaram pela arquitetura gramo-sentimental de Nauro, que levou Franklin de Oliveira a escrever no prefácio de "Mar Abstêmio", que ele "...monta cavalos incendiados e sua poesia (...) queima, vinda das matizes mais secretas do ser".  Sim, João, essa anuência está às primeiras páginas desse livro que você me presentou quando o convidei para vir a Curitiba para iniciarmos o projeto do "Portal Aqui Brasil", lá pelos anos 2 mil, quando ainda a internet engatinhava. Lembra? 

 

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Pois bem, caro João! 

 

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É-me impossível não acostumar-me à grandiosidade de teu punho e com a dança de tua caneta a derramar tua consciência lírica por sobre a pauta branca da folha, como se almas anelassem por um sopro de perdão.  Bebi-me de teus versos e eles a mim revelaram uma densa exploração dos temas da solidão, da intimidade frustrada e da impaciência do homem em se completar como autêntico poeta. Ora, novamente volto a entender como uma ode esse teu sopro (mesmo triste, porque não cultuar a tristeza?) ao grande Nauro que ganhou do intelectual e acadêmico José Neres, a seguinte observação: os versos de Nauro "trazem os estigmas da dor e da morte, mas também emanam veladas lições de vida e uma sutil ironia (...)". Ora, ainda! E por que não uma grande ode às veladas lições de vida, mesmo sutilmente irônicas? 

É exatamente isso que tu constróis ao longo desses tomos tão bem articulados, inundando teu 'flâneur', de objetividade, libertando das amarras, uma consciência que dignifica a verdade de alguém que certa vez escrevera: 

 

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"Meu corpo está completo, o homem – não o poeta.  

Mas eu quero e é necessário  

que me sofra e me solidifique em poeta,  

que me destrua desde já o supérfluo e o ilusório  

e me alucine na essência de mim e das coisas,  

para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,  

trazer-me à tona do poeta  

com um grito de alarma e de alarde:  

ser poeta é duro e dura  

e consome toda  

uma existência. (O Parto/Nauro Machado). 

 

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Diante desses versos de Nauro, fica bem difícil não associá-los, como tu fizestes, a "Ílion" levando-me instantaneamente à cidade de Troia, lembrando sua destruição e tragédia, sugerindo que nenhum local ou entidade é capaz de fornecer orientação ou presságios favoráveis ao protagonista. Nauro, neste trabalho, é o protagonista maior, sem dúvida.  

 

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Meu caro, João!  

Vale ainda, pensar muito quando aludes, em teu poema, ao "louco do Nietzsche". Adicionas, com isso, uma camada de complexidade à interpretação: deve-se ou não questionar-se a existência humana? Ou deve-se atentar para a visão de Nietzsche sobre a necessidade de transcender as limitações e as convenções impostas pela sociedade? Ou se deve, enfim antecipar-se a saga de que o poeta retrata a solidão como uma força avassaladora, revelando sua intimidade frustrada e sua impaciência em alcançar a plenitude como um poeta verdadeiro? Seria uma exploração dos temas da solidão e da busca por uma expressão autêntica, a mesma temática de um Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa ou T.S. Eliot? Confesso que estive muito perto de pensar assim. Especialmente quando li de Rossini Corrêa (O Modernismo no Maranhão), que "os poetas tardios se não romperam de vez o passadismo literário, caso de Ferreira Gullar, pelo menos promoveram a ruptura do marasmo cultural". Dessa ruptura, segundo Rossini, "(...) abriu-se campo para o surgimento de outras vozes, como de Nauro Machado (...)". 

 

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Meu caro poeta e confrade JB do Lago, 

Por fim, rendo-me a imagética do "flâneur acorrentado às suas trevas" e "peixe asfixiado". Deu-me a sensação de aprisionamento e sufocamento emocional da sua poética. Já a expressão "balbucio da solidão consorte", ou "inferno de todos os infernos" e "demônios" provocaram-me, como a ti, também, acredito, uma luta interior intensa. Sem ser especialista em dores humanas, porém como poeta, cabe-me dizer, caro João Batista, que o verso "alvorecer dum corpo que dança com seus cães de raça", interpretei-o como uma transformação física ou emocional que se manifesta de maneira intensa e desafiadora. 

 

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Enfim, gozo-me fazer tais análises, pois aqui se trata de um amigo para outro amigo de antanho. Destarte, sinto que tais versos são abundantes no que se refere a uma linguagem poética para explorar temas como a solidão, a luta interna e a busca por libertação, cujas metáforas criam imagens fortes e impactantes, provocando em mim, leitor, emoções e sentimentos intensos, aliás, como sempre provocaram, e você sabe disso. Mas com um adendo: essa construção lírica ela deixa de ser apenas homenagem singular, para transformar-se em uma ode universal, haja vista tantos grandes poetas que sobrevivem em condições parecidas. Contudo, quando se trata de Nauro, com certeza, ela será eternizada como única, porque único e imortal serão seus valores. 

 

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Parabéns, confrade. 

Teu amigo e admirador, 

Mhario Lincoln. 

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EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRAHá 3 anos São LuísHabituei-me a ver o brilho do ouro nos trabalhos que Mharo Lincoln analisa. Parabéns meu presidente da APB.
Joizacawpy Há 3 anos São Luís Nossa Mhario, você nos presenteia com uma análise dessa qualidade. Realmente sentimos ao ler tal poema a solidão do poeta numa existência inquieta de um poeta que se vale da metáfora para externar subjetividades expressas em versos. Lembrei-me um pouco de Nauro sim. E João acaba fazendo-nos mergulhar nesse vagar que evoca sua própria condição solitária. Há uma complexidade nessa construção lírica que mexe muito forte com quem lê.
João Batista Gomes do LagoHá 3 anos São Luis - MAQuerido Mhario, quanta gratidão me existe. Sou, deveras, um privilegiado por ter um amigo-irmão como tu. Obrigado por tudo. Fico-me aqui pranteado de emoções, impactado com o teu verbo - caçador de mim -, fleuma que enobreceu o meu poema. Sim, Mhario, quando construí este poema pensei, sim, em Nauro Machado, assim como em tantos outros, e em mim mesmo, como um "flâneur" garimpeiro das artérias da cidade de São Luís: o amor nosso de cada dia". Bem sejas tu!
JAIME Há 3 anos BSB/DFQue erudição de publicação, alto nível e padrão. Parabéns, Aplausos de pé!!!
Janete AssumpçãoHá 3 anos Brasília/Associação PoéticaSimplesmente Genialíssimo JB e Mhariô. Lindos meninos d'ouro do maranhão. Pena que eles moram fora. Moram em Curitiba.
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