
"Com mais de 5 mil acessos, inclusive na Europa e EUA, incluindo anos subsequentes, essa entrevista foi uma das mais lidas da história do VICEVERSA*, marca registrada do Facetubes, onde o entrevistador se disponibiliza a, também, ser entrevistado. O filósofo e poeta maranhense Rogério Rocha dá um show de conhecimento que servirá de base para quem quiser se embrenhar pelas lides da literatura universal. Já o jornalista, poeta e editor deste Facetubes, por sua vez, responde a questões muito bem equalizadas por Rogério Rocha, numa prova dueta de que esse filósofo pergunta e responde com maestria. Vale a reprodução. Leiam e se deliciam com esses conhecimentos. E é grátis". (Jornalista Orquídea Santos, Chefe da ASCOM, da Academia Poética Brasileira).
DE Mhario Lincoln para Rogério Rocha
1 – MHARIO LINCOLN - Você, confrade, como um dos pensadores de nossa época, a quem respeito e admiro, sabe que a mente humana é fascinante. Por isso, têm-se falado muito ultimamente numa premissa interessante que repasso com um exemplo comum: quando são vistas luzes estranhas piscando no céu, a primeira ação é pensar em um OVNI – Objeto Voador Não IDENTIFICADO! Então, na lógica, se é Não IDENTIFICADO porque, julgar afirmativamente que é um objeto extraterrestre? Pergunto, com base num dos grandes pensadores deste século, Douglas Neil Walton: esse exemplo é o que se pode chamar de “Argumento da ignorância”?
ROGÉRIO ROCHA – A questão trazida por esta pergunta nos convoca a interessantes reflexões. Sabe-se que a Ufologia é um campo de estudos movido pela curiosidade legítima de cidadãos que veem em fenômenos incomuns, por vezes testemunhados por um grande número de pessoas, a motivação para construírem toda uma mitologia no seu entorno. Em boa parte dos fenômenos, após a refutação de hipóteses improváveis, e a exclusão de inúmeras outras possibilidades que dariam conta do ocorrido com uma explicação plausível, passa-se a uma outra etapa, onde certos critérios metodológicos, utilizados pelos pesquisadores mais sérios da área, devem ser observados, a fim de que tenhamos o indicativo da causa daquilo que foi observado. Voltando ao fulcro da pergunta, podemos, sim, afirmar que os fenômenos aéreos não explicados requerem um tratamento sóbrio, não fanatizado, isento de misticismos e mitificações. Razão pela qual, ainda que uma boa explicação causal não seja encontrada, devemos nos distanciar da precipitação em dar nome ao que não é. Portanto, respondendo sua questão, há uma grande dose de ignorância (e até mesmo de má-fé), em indivíduos que reputam a seres de outros níveis de existência cósmico-planetária muitos dos fenômenos estranhos verificados nos céus do planeta. Ainda assim, pondo-se à parte os exageros, as mistificações e o charlatanismo presentes na pseudociência da ufologia, existem estudos sérios no meio ufológico, capitaneados por gente de grande competência intelectual, bem como casos muito bem catalogados, que nos levam a pensar na possibilidade de existência de engenhos e artefatos de construção não humanas, ainda que não possamos indicar de qual origem.
2 – MHL - Um dos vídeos do seu Canal do Youtube de grande sucesso, diz respeito ao conceito de Utopia, características e análises das questões pertinentes à forma como a filosofia, a sociologia e a literatura abordam o tema. Pode nos falar mais sobre isso?
RR – A utopia, não-lugar ou lugar que não existe, é uma concepção teórica criada por Thomas Morus, na obra de mesmo nome, para designar uma sociedade ideal ou um mundo “perfeito”. O conceito acabou por ganhar popularidade, espraiando-se como objeto de interesse de outras áreas como a literatura e a sociologia, só para ficarmos em dois campos que sobre ela produzem muitos estudos. A riqueza do tema e as muitas implicações que o pensamento utópico determina são, ainda hoje, elementos que nos ajudam a compreender o motivo do alcance dessas elucubrações. Fato que explica também o elevado quantitativo de obras literárias, por exemplo, que versam sobre mundos inexistentes, sociedades imaginadas e imaginárias, governos e lugares povoados por gente como eu e você, mas organizados das maneiras mais díspares possíveis. Outro ponto a destacar, ainda nesse campo, diz respeito à capacidade humana de sonhar, criar e inventar. Deve-se, sobretudo, ao imaginário fértil, aos voos mais altos do pensamento, que acabam, por vezes, fazendo transbordar elementos utópicos das páginas dos livros de filosofia ou de ficção para as múltiplas camadas das nossas sociedades. Nesse sentido, a vida real no século XXI tem guardado muitas semelhanças em relação aos vários quadros descritos nas linhas de algumas das mais aterradoras utopias, aproximando, absurdamente, realidade e ficção.
4 – MHL - Outro dia eu reservei algumas horas para ler algo interessante. No texto, o autor se referia às várias formas de ver o significado de AMOR, em diversos momentos do pensamento humano. Na filosofia, na Poética, na religião, na astrologia, na família etc. Gostaria de saber se você tem um argumento único que possa unir tantos conceitos acerca?
RR – Penso que o amor, por si só, já basta para mover as forças internas que compõem a alma humana, bem assim todos os desdobramentos do campo da cultura. Desse modo, um conceito unívoco de amor, conforme suscitado, a constituir-se numa espécie de campo unificado, aplicável a cada ontologia regional, penso seja desnecessário. Afinal de contas, no centro nevrálgico da filosofia vive o amor, o ato enamorado da busca pelo conhecimento; na poíesis da ação poética, o amor que constrói, que elabora, que ilumina e se põe no mundo enquanto fenômeno; no religare da religiosidade, outra vez a chama ardente de quem ama o Absoluto, o Uno, o Todo, infinitamente maior que si mesmo. Assim sendo, creio firmemente na persistência do amor como conceito de difícil expressão, mas sendo a fonte de (co)existência entre os campos de atividade humana, naquilo que a vivência amorosa possui de mais condicionante, logo, de mais adequado à recepção das facetas desdobráveis de sua essência.
5 – MHL - Na entrevista que fiz com o poeta e articulista João Batista do Lago, ao ser perguntado sobre o conceito de ‘poesia’, ele simplesmente respondeu: ‘a poesia é!’ Gostaria de saber seu posicionamento sobre esse pensamento.
RR – A resposta do poeta J.B. do Lago está prenhe de suas leituras filosóficas. Leituras que reverberam na força seminal de seus poemas, falas e escritos. Nele há um pouco do que dissera certa vez Raul Pompeia, ao ser questionado sobre o tema, tendo dito que poesia é algo que não se pode definir. De minha parte, creio ser insuficiente a definição livresca de que poesia é a arte de fazer versos com base no uso da linguagem com finalidades estéticas. Ainda que compreensível, tal descrição carece do poder de correlação com o seu objeto. Qual seja? O Ato de criar. Melhor ainda: do ato de criar-se, procriar-se e de ser-se. Dessa forma, enquanto ato de criação na linguagem, essa casa do ser pela qual damos sentidos às coisas, aos entes, aos seres, podemos pactuar com João Batista a partilha dessa percepção, a partir da qual podemos dizer que a poesia é (o ser da poesia), e em sendo, é una consigo mesma. Daí sua singularidade ao criar sendo criada.
6 – MHL - Certa vez você me confidenciou sobre 3 grandes escritoras brasileiras. Aqui, você poderia confessar o que o levou a escolher esses nomes (pode fazê-lo agora também) e o porquê disso?
RR – Cecília Meireles, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Teles são três escritoras fundamentais para entendermos a força feminina na literatura nacional. Cada uma com sua forma peculiar de dizer as coisas, com seu empenho para recriar sentimentos, para criar paisagens internas, estabelecendo um lugar de permanência em nossas letras. Cecília chegou a esse patamar não só por “O romanceiro da inconfidência”, que narra a história pela poesia, mas por ter sido a primeira grande voz feminina da literatura brasileira, por “Motivo (Eu canto)”, poema-síntese de sua coroação poética, pela inteligência, pela altivez de sua personalidade, pelo lado intimista, social e psicanalítico de suas obras. Clarice é um marco, um ícone, uma escritora-bruxa que transcende seus escritos e torna-se uma estrela cujo brilho dá prova de sua magnitude. Autora cuja obra tem grande destaque fora do país, dando origem a muitos estudos acadêmicos que analisam aspectos centrais do seu estilo e produção. Foi dona de uma escrita também intimista, eivada de angústia e solidão, num diálogo entre as personagens e as epifanias do cotidiano. Já a Lygia tem o dom de desfiar novelos gigantescos, desenrolando-os para, depois, tornar a recompô-los. Assim como Lispector, exterioriza interioridades, revela conteúdos retirados dos confins dos planos oníricos, cavados às entranhas da humanidade, acostumada aos passeios do olhar pelas vias do dito e do interdito. Também por ser a nossa maior escritora viva. Dona de uma obra literária representativa das suas insuspeitáveis qualidades (vide ‘Ciranda de Pedra’, ‘Antes do baile verde’, ‘Verão no aquário’, ‘As horas nuas’, etc.), dentre as quais sua postura vanguardista, corajosa e inteligente.
7 – MHL - Sempre tive dúvidas com relação à importância do silogismo no contexto do pensamento. Na concepção de Aristóteles, com pertinência, há três principais características: mediado, dedutivo e necessário. Em algum momento esse silogismo influenciou em sua vasta produção?
RR – Aristóteles foi, talvez, a mente criativa mais importante da antiguidade clássica europeia. Sua lógica é, ainda hoje, um referencial para quem trabalha com o uso racional de argumentos, a fim de alcançar o êxito do convencimento, mas também para melhor formatar pensamentos que buscam uma conclusão com base em critérios válidos e claros. Dizer que não se é influenciado pelo filósofo grego é negar a importância do seu pensamento, sobretudo no que diz respeito às formas de raciocínio baseadas em deduções. Assim sendo, o legado do filósofo estagirita nos auxilia a tentar construir arrazoados cujas conclusões correspondam aos critérios formais do silogismo clássico, com suas duas premissas básicas e a conclusão. Contudo, nem sempre me movo por meio dessa ordem fechada do silogismo e da lógica. A intuição, os insights e o inconsciente por vezes acabam também por ajudar-nos a produzir coisas bem mais interessantes e menos formais.
8 – MHL - Sobre o existencialismo de Marx, com base na argumentação de que “a essência do Homem é o produto do meio em que vive”, como o pensamento coletivo (hodierno) da cidade de São Luís do Maranhão produziu produtos e essências em sua obra?
RR – A cidade de São Luís produziu e continua a produzir em mim inúmeras impressões, a maior parte extraída às minhas vivências. A partir daí posso ressignificar minha relação com ela, seus lugares, sua gente, enriquecendo o que penso e escrevo. Como terra de nossos afetos, torna-se um grande manancial de referências, de símbolos e de pautas que, explícita ou implicitamente, tornar-se-ão parte do que sou, logo, parte também do que transponho para o papel. Tal força mobilizadora me instigou a escrever um livro chamado “Cantos noturnos para ilhas devastadas” (no prelo), cujo conceito central é a ideia de ilha (real ou imaginária) e seus muitos não-lugares, existires e (in)existires, dando margem ao burilamento de memórias verdadeiras (e falsas) em torno do eu lírico, que passeia em pensamentos enquanto com ela conversa, a devassa, a trespassa e a reivindica para si.
9 – MHL - Li recentemente “On what matters”, algo como “Sobre o que importa”, em tradução livre, do filósofo britânico Derek Parfit. Na obra, ele fala sobre as rápidas mudanças que vêm acontecendo nos últimos tempos por causa das “descobertas científicas e tecnológicas”, e que o Ser Humano logo “terá maiores poderes para transformar não apenas nosso entorno, mas a nós mesmos e a nossos sucessores". Para você, esse argumento passa uma ideia ‘duvidosa’ sobre os perigos dessa evolução, quando entra no espaço do controle do pensamento da raça humana ou algo parecido?
RR – As questões tecnológicas e suas consequências (benéficas e maléficas) sobre nós e o planeta vem sendo debatidas e analisadas pelos mais importantes pensadores contemporâneos. A bem da verdade, desde o final do século XIX e início do XX que a filosofia vinha voltando suas atenções para a questão da técnica mundializada e suas repercussões futuras. Nesses termos, penso ser válida a preocupação. E não somente. É necessária a indagação acerca do tema. Afinal, muitas das aplicações, ferramentas, mudanças e programas de índole técnico-científica já estão em curso, sendo aplicadas. Sua sombra já paira sobre nós. Big data, Inteligência Artificial, aplicações de algoritmos na world wide web, cães-robôs, armas de guerra, biogenética, alterações corporais, a possibilidade de um trans-humanismo, um pós-humano, etc. Tudo isso e algo mais que se possa imaginar. Sendo assim, a cautela que devem ter os cientistas na aplicação de tais inventos ou melhorias técnicas deve levar em consideração critérios bioéticos, a fim de não colocar em risco os indivíduos implicados. Mudanças essas que, por sinal, já alteraram em definitivo nossos comportamentos, nosso psiquismo, nossas relações sociais, os modos de vida e organização, atingindo diretamente a saúde mental e corpórea de todos nós. Quanto a isso, não tenho dúvida. Já estamos a sofrer alguns dos primeiros efeitos das novas tecnologias que absorvemos e massificamos cotidianamente. Se seremos controlados mentalmente? Já somos! Observe o comportamento das massas, dos jovens, do ser humano. O que irá diferenciar as nossas respostas aos subterfúgios tecnológicos será o modo como cada um irá desenvolver estratégias de preservação de sua sanidade mental, por exemplo. Ou a forma como adotaremos posturas, condutas e comportamentos necessários a nossa blindagem ante os efeitos deletérios de algumas das novas tecnologias.
10 – MHL - Fale-me sobre seus trabalhos. Seus projetos futuros. E qual a produção intelectual que você sonha um dia produzir?
RR – São muitos e em vários campos. Tenho dois livros de poemas prontos, apenas aguardando o melhor momento para serem lançados (provavelmente em 2022). Tratam-se dos livros “A linguagem da ausência”, que será minha verdadeira estreia na poesia (Pedra dos olhos foi uma amostra juvenil) e “Cantos noturnos para ilhas devastadas” (uma obra poética conceitual). No campo de intersecção entre a filosofia do direito e o direito constitucional, tenho um trabalho de pesquisa sobre as audiências públicas no STF que pretendo verter para o formato de livro assim que possível. Ele encontra-se em fase de atualização de dados e reescrita de alguns capítulos. No campo da filosofia tenho, em fase inicial ainda, um ensaio filosófico em coautoria com o filósofo Marco Rodrigues, sobre tema pouco discutido e com abordagem diferenciada. No mais, pretendo dar continuidade aos meus projetos culturais (Iniciativa Eidos e Duo Litera) em 2022, tanto com eventos virtuais quanto presenciais. Já a produção intelectual que sonho produzir é um livro de análise filosófica sobre problemas contemporâneos.
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DE Rogério Rocha para Mhario Lincoln
1) ROGÉRIO ROCHA - O século XXI possui todos os ingredientes favoráveis ao estabelecimento de uma geração de indivíduos seriamente afetados em suas saúdes física e mental: pessoas estressadas, angustiadas, solitárias, deprimidas, agressivas, cansadas, pressionadas, etc. O que fazes hoje para não sucumbir ao peso de um tempo propenso ao exaurimento da pessoa humana? Existe algum antídoto para a sociedade do cansaço?
MHARIO LINCOLN - Outro dia mesmo estava lendo um livro curto do sul-coreano Byung-Chul Han, professor de filosofia e estudos culturais da Universidade de Berlim e fiquei impressionado com o que ele descreve como “Sociedade do cansaço”, que aliás, é o título. Ele caracteriza esta época hodierna como da velocidade e por isso, do esgotamento. Um dos principais motivos para isso, é “a violência neural”. A partir daí Byung-Chul Han entra na concepção neuromédica. Mas, a meu ver e no meu bestunto, esse esgotamento neural, suponho, é resultado da contaminação de boa parte da humanidade, pela síndrome virtual abusiva. Esses usuários se acham grandes produtores de conteúdo. No Twitter, no Instagram, no Facebook etc. Assim, tentam entregar '‘velozmente’' conteúdos que possam atingir o maior número de pessoas. E, quando nada disso funciona, inevitavelmente as pessoas acabam estressadas, angustiadas, solitárias, deprimidas, agressivas e cansadas. No meu caso, então, não há milagre. Apenas superei esse vício de entregar uma quantidade imensa de conteúdos e deixei a angústia de lado: não dependo mais das respostas e dos feedbacks virtuais.
2) RR - Sua atuação nas mídias tradicionais e digitais tem sido marcada pelo caráter diplomático no trato com as pessoas, pela visão de mercado atualizada, pela reconhecida competência e por um espírito inquieto, acompanhado de uma postura, ao mesmo tempo, cordial e agregadora. Caso não fosses hoje o Mhario da cultura, dos versos e da comunicação, o que poderíamos imaginar vendo-lhe fazer?
MHL - A imprensa me é guarida há mais de 45 anos. Tudo isso é decorrência dessa vasta experiência que venho adquirindo nesse período. Outro dia, ao enviar o www.facetubes.com.br para um amigo de infância, ele me respondeu estupefato: “Ei Mário com H, quem escreve pra ti?”. Então, respondi com uma longa e necessária carta, via correio físico. Argumentei que eu também tenho o direito de crescer. Vale acrescentar sobre minha chegada a Curitiba: a princípio, me apresentava como advogado e como um colunista aplaudido na minha terra. Nada consegui! Então, fui trabalhar como 'vendedor de anúncios classificados', em um jornal local, até alguém me oferecer outros cargos. E assim foi. Estudei, mostrei dinâmica, participei de concursos literários, integrei-me à "Feira do Poeta", até ser descoberto e convidado para o tão sonhado 'Centro de Letras do Paraná', uma das instituições literárias mais antigas do Brasil, integrada pela elite intelectual do sul do país. Eu não sabia as filigranas e nem tinha tudo sobre controle. Nestas plagas daqui (era desconhecido), fui obrigado, a partir de 2002, a rever meus princípios e por fim, em definitivo, a minha ignorante prepotência. Tive que ler muito, fazer muitos cursos, me entregar literalmente ao aprendizado. Isso porque, nunca me imaginei estagnado e vivendo de meu salário de funcionário público, cargo que exerci por mais de 30 anos, através de concurso. Precisava contribuir (mais) de alguma forma, com algo que me fizesse destruir a minha mania de sabichão de almanaque. E acho que estou conseguindo. Nunca pensei em fazer outra coisa se não, arte, música e literatura. Fora desses parâmetros, talvez eu nem existisse mais....
3) RR - Com todos os artefatos tecnológicos e instrumental técnico disponível, como, por exemplo, os mecanismos de busca, bancos de dados que dão acesso instantâneo a todo tipo de conteúdo, é mais fácil fazer jornalismo hoje?
MHL - Na minha modesta opinião, nunca será. Sabe aquela história dos carros de Fórmula 01, cujos controles altamente técnicos quase fazem o bólido falar? Sim! Parece fácil. E por que nem todos conseguem ser campeões do Mundo? Porque tem que haver sensibilidade e talento numa pecinha que fica entre o motor e o volante: o piloto. Assim é no jornalismo. Existem mil cursos em mil lugares. Porém, para se ser jornalista não há necessidade de cultura excepcional, nem ter estudado nas melhores faculdades do Mundo. Apenas 'feeling'. Lembrei disso, porque fiz um curso na Câmara Federal, quando cursava Comunicação Social, na UFMA. Eu, Lourival Bogea e Josilda Bogea (in memoriam), irmã dele (donos do "Jornal Pequeno"). Participaram estudantes de todo o Brasil. E lá aprendemos isso. Usar o 'felling", como arma para a superação e o bom desempenho.
4) RR - Fora das ocupações cotidianas, ligadas ao tempo do labor, em que mundo habita Mhario Lincoln? Ele consegue usufruir da vida em momentos de ócio? Qual sua relação com a espiritualidade e de que forma isso impacta na sua vida?
MHL - Incrível você tocar nesse assunto. No exato momento estou estudando uma tese pertinente ao “ócio criativo”, desenvolvida pelo sociólogo italiano Domenico de Masi. Nela, ele tenta justificar “como um tempo livre ou o justo equilíbrio entre trabalho, estudo e descanso, favorece a criatividade”. Isto é, se temos alegria e satisfação no que fazemos, nas meditações - nos tempos livres - deitados em uma rede na varanda de casa ou numa esteira artesanal de palha de buriti, à beira do mar - poderemos aumentar a capacidade de criação. Claro que ele chama a atenção entre ociosidade criativa e “ócio alienante: a preguiça, que em nada acrescenta”. Pois bem! Acho que nunca paro de pensar. Até mesmo em sonhos recebo registros akáshicos. Ao acordar, sempre lembro do que recebi. Isso também coloco em prática quando brinco com meus netos, conversas familiares, Evangelho no Lar etc. Aproveito todo o momento para aprender, desenvolver ou criar. Quanto à Espiritualidade, o meu amadurecimento só veio após estudar diversos universos: do evangélico presbiteriano (minha origem), passando pela Doutrina Espirita (Kardec) às religiões afro-brasileiras. Tive que analisar cuidadosamente cada ponto e limpar minhas intuições acerca do radicalismo. Hoje posso afirmar que tenho total fé em Deus – e entendo o porque dessa fé. Acredito piamente nas coisas dos Céus (na visão Cósmica), pois minhas orações são diárias e as respostas positivas também.
5)- RR- Que comportamentos e estados de coisa te dão asco ou nojo hoje, tornando a vida insuportável? E o que te faz ter esperança, alegria e vontade de viver?
MHL - Tenho um posicionamento quase incompreendido nesse aspecto. Acredito que asco ou nojo é uma emoção primitiva, que norteia, infelizmente, alguns seres humanos perceptíveis da influência negativa. Hoje, é muito comum se falar em “pessoas tóxicas”. Essas dão asco, sem dúvida. Todavia, ainda acredito na observação paleontológica do francês Teilhard Chardin, um padre jesuíta, teólogo e filósofo: “há sim (diante de algumas reações humanas) uma diferença básica entre a criação e a evolução”. Assim, mutatis mutandi, uns, criados nessa cultura infeliz da incerteza profissional, espiritual e pessoal, tornam-se presas fáceis para pessoas ascóticas. Outros, cujo aprendizado e experiência foram muito mais significativos, evoluíram de forma consistente e mais madura, conseguindo maior controle e equilíbrio diante dos populares 'maus-olhados'. Com relação à segunda parte dessa original pergunta, caro Rogério, cabe-me chamar para nossa mesa a Monja Coem. Ela ensina perguntando: “Como uma pessoa causa asco em você? É a pessoa que provoca ou ela é apenas o gatilho de alguma coisa que está em nós mesmos? Mas, elas acabam controlando 90% de todos os nossos sentimentos”. A Monja completa:“nós temos que lutar para que nossa raiva não controle a gente”. Com base nesses ensinamentos, sei que é difícil. Mas quando a gente insiste em controlar nossa raiva ou tenta mudar o foco ou mesmo abandona o ambiente que nos leva a ter reações incontroláveis, pode, sim, dar certo. Como um velho ditado que ouvi de meus avós, na velha Ilha dos Amores: “Chega! Desço na próxima parada do bonde”, ou seja, acaba ali o sofrimento de uma 'fragili filo', em termos latinos. Para complementar, li esses dias uma frase postada pelo influencer Arthur Fernandes, no Twitter: “Deve ser difícil me odiar e não poder me chamar de ruim”.
6)- RR- No mundo da hiperconexão quase que contínua, o que farias se tivéssemos que abrir mão desse modo de existir contemporâneo e tivéssemos que retroceder e desacelerar em relação ao manancial de coisas sempre à mão? Sobraria lugar para um novo modelo de organização da sociedade ou estamos afundados até a alma nessa nova configuração do humano?
MHL – Falo por mim. A primeira vez que li a palavra '‘helicóptero’', foi numa revista Tio Patinhas, em 1960. Não foi necessário o famoso “Google” para traduzir. Com relação à minha infância, passei por diversões deliciosas e inesquecíveis, onde também aprendi com bolinhas de gude (lições de equilíbrio e precisão), lanceadas de papagaios (pipas) - onde senti o gosto da derrota e da vitória bem cedo - patins, circo, até luta de Telecath. Durante muitos anos da minha vida profissional usei máquina de datilografia. Fazia a minha coluna diária dentro de um ritual nunca visto: pela manhã, comprava os jornais da cidade e mais tarde, os do eixo Rio/São Paulo. Após o almoço lia as partes que me interessavam, recebia fax, notícias via telefone fixo e começava a redigir minha coluna. Não tinham releases, nem 'control C’/’control V’. Éramos obrigados a redigir a matéria do começo ao ponto final. Isso fez com que todos - ou quase - nós evoluíssemos muito. Não só na gramática, como na construção do enredo da história.
7)- RR - Como tem sido a experiência de ser o centro gestor, a cabeça, o cérebro e o coração desse grande universo colaborativo, livre e plural, chamado Facetubes? Imaginavas que o alcance da plataforma seria expandido tão rapidamente como temos visto nos últimos tempos?
MHL - O Facetubes (www.facetubes.com.br) para mim é a continuação saudável do que fiz sob pressão durante muitos anos de minha vida. Além do que, com quase 70 anos, ainda vivo emoções muito parecidas ao começo de minha carreira profissional quando leio textos sensacionais, como os seus, ou sou levado a conhecer várias informações novas, ler livros, dantes nunca lidos ou receber - pelo trabalho desenvolvido no Facetubes - comendas internacionais, como recentemente (2021), vinda da França. Afora tudo isso, ainda é um medicamento infalível contra um possível Alzheimer. Trago comigo alguns genes familiares que me forçam a manter minha mente sempre em movimento, ligada no 220 volts... ou mais.
8) – RR - O audiovisual tem uma força imensa dentro do mundo contemporâneo. O tempo flui e escorre numa velocidade tal que até mesmo a relatividade einsteiniana poderia ser tranquilamente posta em xeque. A paciência, a atenção e o foco são qualidades raras, por isso mesmo tematizadas em cursos, palestras e livros de autoajuda. Ademais, o ritmo nervoso das exigências impostas pela vida produtiva, pela sobrevivência e pelo dinheiro torna um simples vídeo de cinco minutos uma verdadeira eternidade para um jovem ou mesmo para o cidadão médio. Chegará um tempo em que os Tiktoks da vida ditarão o ritmo dos nossos microdramas, das pantomimas e do teatrinho da existência em vídeos de milissegundos, como se a vida pudesse ser reduzida a um flash ou a um fantasma dela mesma?
MHL - Em 2006 participei de um concurso de microromances com base no número de linhas do Twitter. Foi sensacional. Consegui fazer 6 histórias com começo meio e fim no limite de 140 caracteres. (Mudou para 280 a partir de 2017). Fiquei deslumbrado com a capacidade de tantas pessoas (mais de 1800) inscritas. Isso mostra o alto poder de síntese do brasileiro. Também escrevi um ensaio sem a letra "A", (com frases curtas). Cheguei a tirar a tecla dessa letra da minha máquina Remington. Foi outra experiência maravilhosa. Se lermos o livro de Jack Dorsey, CEO do Twitter, vamos ver que as micromensagens (na modernidade) se originaram nos lendários SMS (torpedos). Porém outro dia, assistindo ao Canal "History", acabei descobrindo que a linguagem cuneiforme de há muito, inventada pelos Sumérios, também podem ser consideradas micromensagens. Claro que daí, surgiram os tik-toks da vida. Todavia acredito, caro Rogério, que nada se inventou com pertinência ao mundo cibernético. Houve um ponto de evolução. Boa parte dela, advinda, infelizmente, da Segunda Grande Guerra Mundial. Martheus Griffiing, comentarista contumaz de matérias de jornais e revistas, publicou outro dia, abaixo de um artigo da TIME MAGAZINE, que a evolução dos “microgeoglifos escritos e plasmáticos, não terão tanta força num futuro menos distante, ao ponto de ter que juntá-los, cada um deles, para se obter um resultado final". Mutatis Mutandi !
9) – RR - Nietzsche dizia que a vida sem música seria um erro. Qual outra coisa, se lhe faltasse, tornaria a vida também um erro?
MHL – A minha fé em Deus, num criador do Cosmos. Sem ele, perderia outra coisa por demais insubstituível: minha liberdade evolutiva e espiritual. Delas, podem acontecer outros milagres. Mas, nessa ordem literal. Sine qua non!
10) - RR - Qual o lugar do inconsciente no teu processo de produção literária? Sua escrita é intuitiva, segue fluxos de movimentos dessas camadas de mais difícil acesso do nosso cérebro, ou é constituída a partir do planejamento e da racionalização?
MHL – Nada aconteceu como "chuva de verão" em minha cabeça. Vejo muita gente falar das facilidades em fazer, escrever e construir. Comigo, não! Para chegar a entender um pouquinho de minhas atividades, li, reli, participei, discuti, aprendi, errei, voltei a errar: dores do crescimento, da evolução. Um esforço hercúleo para saber como e em qual caminho trilhar. Nesse ínterim, aprendi que nem toda intuição é sabedoria. Ouvi muito de alguns sabidos afirmarem ter “exercitado muito o cérebro porque o cérebro é um músculo. Quanto mais exercício, mais musculoso”. Não é bem assim porque o cérebro nunca foi composto de miócitos, como os músculos. Mas, de milhões de neurônios interconectados por axônios e dendritos. E mais, tem-se que ensinar o cérebro a pensar, pois é ele quem regula cada uma de nossas funções cerebrais e corporais, desde respirar, comer ou correr, à capacidade de raciocinar, de se apaixonar ou de argumentar. Eu tive muita dificuldade em ensinar meu cérebro a pensar. Foram momentos de angústia, decepções e retornos. Senti emoções incríveis, boas, péssimas e cheguei à conclusão de que é a vivência (da vida) e seus altos e baixos, a melhor forma de ensinar o nosso cérebro. Alguns, se tornam notórios narcisos superficiais, exatamente por aprenderem pra si, através de "culturas de almanaque" ou de leituras de manchetes, sem aprofundamento. Esquecem que a cultura, a sapiência, a sabedoria, não diz respeito ao Homem físico. Mas ao Pensamento do Homem. O que ele repassa ao seu cérebro. Assim, a profusão do que o cérebro absorve, acaba fazendo o monge, da mesma forma que o axiomático "...cachimbo faz a boca torta". Portanto para realmente ensinar o cérebro é ultranecessário jogar fora o chamado “conhecimento de almanaque”, ou simplesmente “sabedoria de manchetes”, isto é, aquele vício de ler sem se aprofundar em assunto nenhum. Apenas decorando vários assuntos aleatórios para conversas convenientes posteriores. Ninguém sobreviverá a isso, intelectualmente. Como Herbert Spencer disse em frase erroneamente atribuída a Darwin: a partir daí, dá-se a “sobrevivência do mais apto”. Sim! No mundo de hoje só o mais apto sobreviverá. Não existe mais a história de que “o Mundo é dos espertos”. Vivemos numa era virtual binária. Rápida e sem indulgência. Um tsunami galáctico. Um buraco negro, prestes a engolir quem não estiver pronto para viver neste futuro, agora! Portanto, urge ensinar o cérebro a raciocinar e não só, ‘decorar’. E para o cérebro racionar, haja leitura, vivência, sofrência e muita oxitocina, aquela proteína que o nosso corpo produz quando fazemos o bem “sem olhar a quem”.
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