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Mais um capítulo inédito do livro de Augusto Pellegrini: AS CORES DO SWING

Capítulo 17 – O homem por detrás do trono – Parte 3

06/08/2023 às 12h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
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Pellegrini com a Henderson’s Dance Orchestra
Pellegrini com a Henderson’s Dance Orchestra

Augusto Pellegini

Henderson se revelou um autêntico bandleader, e começou por colocar no repertório alguns dos novos arranjos produzidos por Redman, ao lado de algumas músicas de sua autoria, como “Doo Doodle Blues”, “Down South Blues”, “Old Black Joe’s Blues” e “Dicty Blues”, todas compostas em 1923. Uma novidade inventada por Don Redman – a presença de um naipe de três clarinetes – dava aos arranjos uma sonoridade toda especial e absolutamente única.

 

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A orquestra alcançou uma projeção rápida e surpreendente, e passou a se apresentar no Club Alabam, que era mais movimentado e mais conceituado do que o Little Club. Em pouco tempo, a Henderson’s Dance Orchestra, que passara a ser conhecida como Henderson’s Club Alabam Orchestra, foi contratada para se apresentar no Roseland Ballroom, um dos mais famosos salões de baile de Nova York, em substituição à orquestra de Armand J. Piron, que decidira voltar para Nova Orleans. O contrato com o Roseland Ballroom previa um período de quatro anos, mas acabou durando dez.

 

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Naquela época, 1924, sua orquestra – agora rebatizada como Henderson’s Dixie Stompers – já conseguia rivalizar com a famosa Paul Whiteman Orchestra e com a orquestra de Duke Ellington, que se exibia no Cotton Club.

 

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Mesmo, porém, com os arranjos de Don Redman, o repertório da orquestra ainda incluía tangos, valsas e outras músicas populares feitas para dançar. Tanto Henderson quanto Redman queriam evoluir, mas havia uma certa acomodação no comportamento dos músicos – a rigor, apenas o saxofonista Coleman Hawkins e o pianista e arranjador Horace Henderson, irmão mais novo do maestro, compartilhavam com a necessidade de jazzificar o estilo.

 

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Foi quando Fletcher Henderson se encontrou com o contrabaixista Bill Johnson, que tocava em Chicago na Creole Jazz Band de King Oliver, para um ocasional bate papo num dos intervalos do Roseland.

 

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Henderson estava tomando um refrigerante – ele não tinha o hábito de beber, coisa rara entre os músicos que tocavam na noite – quando Johnson se sentou à sua mesa. Johnson já estava um pouco “alto” por conta de meia dúzia de coquetéis de frutas temperados com gim que havia ingerido durante o show e começou a falar sobre as atribulações que King Oliver estava enfrentando em Chicago, com a perspectiva de perder dois ou três músicos – inclusive ele, Bill Johnson.

 

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Bill Johnson mencionou “en passant”, que o trompetista Louis Armstrong, cuja fama já extrapolava de Chicago para Nova York, estaria propenso a deixar a Creole Band para tocar na quase desconhecida Ollie Powers’ Syncopators. O motivo, dizia Johnson, é que a esposa de Armstrong, a pianista Lilian Hardin, era extremamente ambiciosa e não se conformava em ver seu marido, com o enorme talento que Deus lhe havia dado, se apresentar como o segundo trompetista de Oliver.

 

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“Dê o fora da banda de Oliver e procure mostrar sua cara como solista, pois você é muito melhor do que ele”, insistia ela, ao que Armstrong retorquia que tal procedimento seria deselegante, pois King Oliver sempre fora o seu mestre e ele, Louis, lhe devia muitos favores.

 

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Armstrong se lembrava dos tempos de Nova Orleans, quando King Oliver, a quem Armstrong chamava de “Papa” Oliver, lhe ensinara pacientemente os segredos da corneta e do trompete. Ele sentia um pouco de remorso ao saber que a sua saída do grupo poderia dar início a uma debandada geral, pois os músicos, na sua maioria, estavam fascinados com a possibilidade de mostrar o seu trabalho em diferentes casas noturnas de Chicago ou mesmo de Nova York. Além do mais, conjeturava Armstrong, Oliver estava doente e precisava mais do que nunca do apoio dos amigos para conseguir levar sua orquestra adiante.

 

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Fletcher Henderson entendeu o lado humanista da coisa, mas a conversa com Bill Johnson mexeu com a sua cabeça.

 

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Ele tinha uma boa índole, e doía na sua consciência a ideia de desfalcar King Oliver do seu músico mais promissor, mas havia uma grande necessidade de injetar um pouco de oxigênio na sua própria orquestra, e parecia que, de qualquer maneira, Armstrong estava mesmo se desligando da Creole.

 

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Louis Armstrong era o músico que Fletcher Henderson precisava para impulsionar a sua orquestra em direção ao jazz. Ele tinha certeza que contando com Armstrong, Redman, Hawkins e o recém-contratado saxofonista Benny Carter, ele faria as mudanças musicais que desejava.

 

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De qualquer forma, Henderson não se precipitou. Primeiro consultou Don Redman, que ficou entusiasmado com a ideia. Depois buscou obter a confirmação de que Armstrong já havia se mudado para a banda de Ollie Power. Aí então, ele resolveu escrever para Louis Armstrong e lhe fazer uma proposta irrecusável.

 

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Na carta, ele propunha a Armstrong um lugar de destaque na orquestra, liberdade total para criar os seus solos e a oportunidade de mostrar o seu trabalho para um dos melhores públicos de Nova York em uma das suas melhores casas, o Roseland Ballroom, além de um bom dinheiro pela transferência de cidade.

 

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Com a carta na mão e Lil’ Hardin nos calcanhares, Armstrong decidiu deixar a banda de Ollie Powers e aceitar o convite de Fletcher Henderson, carregando com ele – para o desencanto de Joe King Oliver - o clarinetista Buster Bailey, que tocava com King e chegaria a Nova York um mês depois.

 

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Antes de partir de Chicago, Armstrong foi se despedir do velho mestre Joe Oliver. Este, mesmo bastante descontente e desapontado com o êxodo de alguns dos seus melhores músicos – além de Armstrong e Bailey, também o trombonista Honoré Dutrey e o clarinetista Johnny Dodds haviam buscado um novo caminho – desejou boa sorte ao seu amigo e antigo pupilo, e prometeu que iria visitá-lo algum dia em Nova York, o que nunca chegou a acontecer. No final de 1925, Louis Armstrong e Lil’ Hardin se mudaram para Nova York, dando início a uma nova fase para a orquestra de Fletcher Henderson e para a própria carreira do trompetista.

 

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Com Armstrong, os arranjos de Redman ganharam força, graça e dramaticidade. Muitas das partituras foram reescritas para projetar o trompete, o que dava à orquestra um som característico do estilo new orleans, embora envolvido pelo clima polifônico típico das orquestras da época.

 

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Aos poucos foram desaparecendo os tangos, as valsas, as músicas de dança e a semelhança com o estilo de Paul Whiteman, dando lugar a um som repleto de blues e de dixieland, com uma inequívoca pulsação feita à base do estilo chicago.

 

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Armstrong, no entanto, preferia a vida de Chicago aos agitos de Nova York, e depois de treze meses de intenso sucesso, resolveu regressar à antiga cidade para tocar no Vendome Theatre com a Erskine Tate’s Orchestra, que se tornara famosa por servir de fundo musical para filmes do cinema mudo.

 

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A participação de Louis Armstrong junto a Fletcher Henderson pode ter sido curta, mas foi decisiva para os rumos da orquestra. Com a sua presença, Henderson amadureceu o suficiente para se tornar a influência mais marcante de um novo estilo que estava por surgir na década seguinte.

 

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A saída de Armstrong modificou parte da sonoridade da orquestra de Fletcher Henderson, mas não tirou o seu brilho. Ficou claro para Henderson que a semente já havia sido lançada e, à medida em os demais músicos se sentiam integrados ao “drive” do maestro, tudo ficou mais fácil. Ele tinha um estilo inovador nas mãos.

 

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Em 1927, Henderson enfrentaria outra perda importante. Don Redman foi convidado por Jean Goldkette para dirigir a McKinney’s Cotton Pickers, que fazia sucesso no Arcadia Ballroom de Detroit, e levou Benny Carter com ele – nada, no entanto, tão sério que pudesse tirar a orquestra do rumo. A esta altura, Fletcher Henderson assumia completamente os arranjos da orquestra e fazia outras alterações harmônicas e tonais que direcionariam a sua música para um estilo big band, deixando um pouco de lado a forte influência do dixieland/chicago que marcara a época de Armstrong e Redman.

 

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Em pouco mais de quatro anos, o neo-cientista que chegara a Nova York para se pós-graduar em química e farmácia já estava conduzindo uma das mais importantes orquestras do país, cujo som coincidia com o nascimento de uma música que faria parte da história dos Estados Unidos – o swing.

 

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Fletcher Henderson dava inegáveis mostras do seu talento como músico, maestro e organizador.

 

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Daddy & Mama Henderson, meio a contragosto, aplaudiam em Atlanta o sucesso de Smack.

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JAIME Há 3 anos BSB/DFMais uma primorosa publicação.
Kalil Guimarães Há 3 anos Brasília- DFTexto excelente e esclarecedor.
Augusto Pellegrini Há 3 anos São Luis- MAObrigado, Concita!!!
Concita LameiraHá 3 anos RioTexto muito concreto. Consciente. Muito bom.
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