
Redação do Facetubes c/correspondentes europeus
Na noite do dia das bruxas de 1871, uma tragédia envolvendo Emily e Mary, meias-irmãs do renomado escritor, poeta e dramaturgo Oscar Wilde, abalou Drumaconnor House, na Irlanda. Durante um baile, Emily, enquanto dançava uma valsa final, teve seu vestido em chamas após ter contato com brasas próximo a uma lareira. Na época as mulheres usavam esse artefato chamado crinolina que deixava o vestido com um raio bem grande. O vestido de Emily já tomado pelo fogo passou para o vestido da irmã Mary, resultando, depois, em um incêndio que, infelizmente, ceifou a vida das duas irmãs.
Este incidente sombrio, que ficou registrado na história, é apenas um exemplo das milhares de fatalidades associadas a essa peça do vestuário feminino mais polêmica de todos os tempos: a crinolina. Este adereço, simultaneamente amado e ridicularizado, marcou a era vitoriana, desafiando noções de moda, liberdade e perigo.
A crinolina, uma evolução das anáguas populares e polêmicas do século 18, apresentou uma transformação significativa. Enquanto as anáguas eram feitas de materiais como osso de baleia, crina de cavalo e madeira, a crinolina utilizava uma estrutura de metal, tornando-se mais resistente e volumosa. A inovação da máquina de costura na década de 1850 permitiu a produção em massa dessas estruturas, levando à sua adoção generalizada.
A demanda por crinolinas era tão alta que, logo após a patente de um modelo com armação de aço em 1856, o Reino Unido importou toneladas de aço sueco para sua produção. Fábricas proliferaram, como uma em Sheffield, onde 800 mulheres fabricavam 8.000 crinolinas diariamente. No entanto, essa produção em larga escala não conseguiu surpreender completamente a procura, e críticos famosos, incluindo Florence Nightingale, foram contra o vestuário: "traje absurdo e hediondo".
A crinolina também gerou escrutínio público e cobertura sensacionalista da imprensa. Relatos de mortes trágicas devido a incêndios causados pela peça eram frequentes, sendo comparados a eventos catastróficos, como o incêndio da Iglesia de la Compañía, no Chile, em 1863. A estimativa de cerca de 3.000 mortes no Reino Unido em uma década de uso intensivo evidenciava os perigos reais associados à moda da época.
No entanto, a atração pela crinolina é compreendida quando se considera o contexto histórico. A era vitoriana estava repleta de práticas perigosas, como o uso de mercado em chapéus e corantes com alto teor de arsênico em tecidos. Comparativamente, a crinolina oferece uma sensação de liberdade e mobilidade às mulheres. Embora seu tamanho e forma tenham sido exagerados por campanhas de ridicularização, a crinolina substituiu as camadas de anáguas pesadas por uma única estrutura de suporte, proporcionando uma aparência elegante e ao mesmo tempo prática.
(01) Coleção Howarth-Loomes dos Museus Nacionais da Escócia
Escritores da época descreveram a crinolina como libertadora, enquanto oposicionistas, como Florence Nightingale, a viam como um entrave à utilidade das mulheres. A crinolina, no entanto, era usada por mulheres de todas as classes sociais, inclusive por ex-escravas recém-libertas, simbolizando a luta pela igualdade social.
A história da crinolina é repleta de paradoxos e complexidades. Embora tenha causado tragédias e críticas fervorosas, ela também representa um marco de mudanças culturais audaciosas. Sua presença provocou debates sobre liberdade, feminilidade e papel social, ilustrando a maneira como a moda pode transcender o simples ato de vestir-se e influenciou profundamente a sociedade e a identidade das mulheres na era vitoriana.
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