
*Mhario Lincoln
Poucas coisas neste mundo nos ensinam mais sobre o outro, do que os livros. Então, por que há explícita falta de interesse na divulgação maciça da literatura transformadora dos autores negros? Por que os grandes editores não conseguem enxergar além das fatídicas listas dos 'mais vendidos' e nunca conseguem mudar de rota, nem conseguem ir para além do convencional, fato que os permitiria vislumbrar mundos anteriormente ocultos? E por que, então, a população leitora não grita? Subjuga-se e pronto?
Tais alegações não são protestos absurdos. A própria mídia se negou explicitamente a divulgar estudo recente, realizado pela Universidade de Brasília, sob a égide da pesquisadora Regina Dalcastagnè, onde foi revelado uma “homogeneidade preocupante no perfil dos autores brasileiros publicados por grandes editoras, um cenário que permanece inalterado por décadas”, fato que me leva a questionar sobre a amplitude e diversidade das narrativas às quais todos estão sendo levados a ler, quase que forçadamente.
Até então minhas especulações eram para descobrir o motivo exato da literatura falhar tanto, nesse seu papel de ampliar a empatia. Será que está havendo propositadamente uma estagnação na variedade de histórias?
Chamo para nossa conversa Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana e uma das mais importantes jovens autoras anglófonas. Você a conhecia? Pois, continuando: em seu discurso instigante, alertou para o perigo da "monocultura narrativa", quando somos "inundados por uma única perspectiva, estereótipos e preconceitos", transformadas em "verdades incontestáveis".
Consequentemente, essa objetivação, ancorada em uma única história, reforça estereótipos, moldando-os como realidades irrefutáveis.
Um exemplo bem explícito é a ressurreição do surpreendente "Quarto de despejo", de Carolina Maria de Jesus, lançado em 1960, que prova um anseio do público maior por narrativas fora do comum, repletas de autenticidade e perspectivas inexploradas. Porém, uma ressalva se impõe: vozes não-brancas, apesar de seus momentos de reconhecimento, frequentemente enfrentam o eclipse de sua expressão literária.
Ruth Guimarães, poetisa, cronista, romancista, contista e tradutora brasileira, uma das primeiras escritoras brasileiras negras modernas a conseguir projeção nacional, desde o lançamento do seu primeiro livro, o romance "Água Funda", em 1946, é um exemplo emblemático. A despeito de seu sucesso inicial e do reconhecimento de personalidades como Antonio Candido, sua presença literária foi, lamentavelmente, ofuscada com o passar do tempo.
Pelo visto e após a mordaça das grandes editoras e o 'ficar calado" da população leitora, a literatura, que sempre desempenhou um papel crucial em moldar sociedades e refletir suas complexidades, parece mergulhar numa linha opressora, sem muitas perspectivas, desde o fato lamentável da má gestão financeira, quanto da pauta das produções visivelmente tendenciosas. Volto ao estudo da Universidade de Brasília, onde se lê: "(..) há quatro décadas, majoritariamente, homens, brancos, de classe média, originários do eixo Rio-São Paulo, influenciam diretamente no tipo de histórias que são contadas, frequentemente marginalizando vozes dos autores negros."
Mesmo assim, continuam em minha cabeceira vários livros que fogem ao lugar comum, seja na poesia de antanho, seja no romance ultraespremido, seja nos ensaios repetidos. Tenho mudado esse olhar após ler "Entre o Mundo e Eu", de Ta-Nehisi Coates (2015) e outros títulos que sugiro abaixo deste texto-reflexão. Isso porque tocou-me profundamente a maneira como Coates faz uma poderosa análise sobre o racismo sistêmico e a busca constante por identidade e reconhecimento.
Gostaria apenas de dizer que a literatura de autores negros não é apenas uma janela para suas experiências individuais, mas um espelho que reflete as vastas complexidades e riquezas das diásporas africanas.
Destarte, expandir nosso repertório literário visitando outros autores fora do círculo vicioso, significa enriquecer a compreensão do mundo e cultivar a empatia. Em um Planeta onde as vozes não-brancas são frequentemente silenciadas, é vital buscar e superar essas narrativas, permitindo que elas moldem uma nova perspectiva e ampliem um novo horizonte cultural.
EXCERTO
A título de sugestão, enumero abaixo, dentre centenas de bons títulos, alguns que tive mais facilidade de encontrar. São livros escritos por autores negros que superam as expectativas e fazem o leitor refletir de forma autêntica, fora dos preceitos impostos pela opressora e lastimável editoração de conceitos e regras:
1 - "Por um feminismo afrolatino americano", de Lélia Gonzalez.
Lélia Gonzalez foi uma filósofa, antropóloga, professora, escritora, militante do movimento negro e feminista. Não à toa, quando esteve no Brasil em 2019, Angela Davis disse que ela aprende mais com a Lélia Gonzalez do que poderíamos aprender com ela. Um recado e tanto Imprescindível!
2 - "A unicórnia preta", de Audre Lorde.
Nessa obra, temos “poemas abordam questões da negritude, do feminismo e da experiência lésbica, além de explorar elementos da cultura Iorubá e dialogar com entidades africanas”.
3 - "A autobiografia de Martin Luther King", de Martin Luther King e Clayborne Carson.
Martin Luther King é um dos ativistas políticos mais importantes de todos os tempos, tendo sido figura central na luta pelos direitos civis estadunidenses. A partir de um arquivo inédito e autobiográfico do próprio King, incluindo cartas e diários não publicados, filmes e gravações, Clayborne Carson cria “um inesquecível retrato em primeira pessoa do grande líder”.
4 - "Torto arado", de Itamar Vieira Junior
Vencedor do Prêmio Leya 2018. Um clássico. A narrativa vai para o sertão baiano onde encontra duas irmãs, Bibiana e Belonísia. Elas encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. E a partir de então, as vidas de ambas estarão para sempre ligadas uma a outra.
5 - "Um Exu em Nova York", de Cidinha da Silva.
Neste livro, Cidinha conta histórias políticas, que abarcam, dentre outros temas, o racismo religioso e colocam negras e negros, assim como a comunidade LGBT, no centro das narrativas. Tudo isso por meio de uma escrita fascinante.
6 - "Talvez precisemos de um nome para isso", de Stephanie Borges.
Neste livro, Stephanie escreve um longo poema dividido em dez partes em que debate sobre beleza e identidade, temas tão caros às mulheres negras. Uma leitura excelente e que com certeza irá mexer com muita gente.
7 - "Eu sei por que o pássaro canta na gaiola", de Maya Angelou
É a autobiografia de Marguerite Ann Johnson, mais conhecida como Maya Angelou. Sobre o livro, Oprah Winfrey disse: “eu tinha quinze anos quando descobri "Eu sei por que o pássaro canta na gaiola". Foi uma revelação. (...) pela primeira vez, ali estava uma história que finalmente falava ao meu âmago”.
8 - "Enquanto os dentes", de Carlos Eduardo Pereira
Escritor carioca Carlos Eduardo Pereira mostra a luta de um protagonista para enfrentar ônibus, metrô, a barca e a própria cidade para conseguir chegar a seu destino nesta história sobre intolerância e discriminação. Detalhe: Antônio é cadeirante, negro e gay, o que muda por completo a perspectiva que se tem de pertencimento, tanto do espaço público como da vida.
9 - "A cor púrpura", de Alice Walker
Neste romance, (adaptado para o cinema por Steven Spielberg e estrelado por Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey), Walker narra a vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX, pobre e praticamente analfabeta, que foi abusada, física e psicologicamente, desde a infância pelo padrasto e depois pelo marido.
10 - "Olhos d’água", de Conceição Evaristo.
Este livro de contos tem nos diversos cotidianos da população negra o seu fio condutor, e a partir disso, temos contato com os melhores contos já escrito por essa que é uma das maiores escritoras brasileiras. "Olhos d’água" foi vencedor do Prêmio Jabuti, o mais prestigiado prêmio da literatura brasileira.
11 - "Pele branca, máscaras negras", de Frantz Fanon.
Com uma linguagem bonita e por vezes provocadora, Fanon faz dessa obra uma reflexão não só necessária, mas preciosa acerca da questão negra. Um clássico indispensável.
12 - "The underground railroad: os caminhos para a liberdade", de Colson Whitehead.
Whitehead teve seu romance seguinte, "O reformatório Nickel", vencedor do Pulitzer (2020).
13 - "Vozes negras", de Maria Ferreira, Pétala Souza, Isa Souza, Flor Priscila e Amanda Condasi.
Nos contos do livro, temos histórias poderosas que colocam no centro da narrativa mulheres negras, que geralmente são invisibilizadas tanto por seu gênero quanto por sua raça.
14 - "O avesso da pele", de Jefferson Tenório
Tenório escreve uma história pungente, na qual um filho, após a morte do pai, reconstrói a história de seus pais, a fim de resgatar o passado de sua família.
15 - "No seu pescoço", de Chimamanda Ngozi Adichie.
É seu primeiro livro de contos, no qual “encontramos a sensibilidade da autora voltada para a temática da imigração, da desigualdade racial, dos conflitos religiosos e das relações familiares”.
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Eis a lista que praticamente mudou meu olhar sobre "as outras coisas....".
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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