
*Lucas H. Fijoy, correspondente Facetubes/Argentina
Nos tempos contemporâneos, observamos a ascensão de uma peculiar forma de engajamento cívico: a hipocondria moral, amplamente disseminada pelas redes digitais. A análise de Slavoj Zizek, filósofo esloveno, nascido na antiga Iugoslávia, professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e diretor internacional da Birkbeck, Universidade de Londres, frequentemente tem abordado o assunto com a ideia de que, em nossa sociedade saturada de mídia, o capitalismo e sua lógica de consumo transformaram até mesmo a moral e a indignação em commodities vendáveis.
A hipocondria moral pode ser vista como um sintoma da nossa sociedade pós-moderna, onde a manifestação de opiniões indignadas tornou-se mais uma forma de ostentação do que um genuíno clamor por mudança. Zizek frequentemente argumenta que o capitalismo é mestre em cooptar nossos desejos mais profundos, transformando até mesmo nossa revolta em um produto consumível. Neste cenário, a indignação, embora muitas vezes justa, torna-se superficial quando não é seguida de ação concreta. Há uma evidente discrepância entre as palavras veementes proferidas nas redes e o comprometimento efetivo com estratégias políticas.
Em alguns estudos aqui em Buenos Aires e dentro do Brasil, por exemplo há definições interessantes sobre essa 'hipocondria moral'. Uma delas, afirma ser uma mistura entre decência e narcisismo, que caracteriza o comportamento político de classes médias progressistas.
Mas, segundo Zizek esse é o cerne da ilusão do capitalismo contemporâneo: acreditar que somos moralmente superiores simplesmente por nos expressarmos, enquanto o sistema em si permanece inalterado. As redes sociais, neste contexto, podem ser tanto plataformas de mobilização quanto teatros onde encenamos nossa suposta virtude, sem a necessidade de confrontar as estruturas subjacentes de poder e dominação.
Por outro lado, basta acessar qualquer rede sociaial para entender a principal manifestação desta hipocondria, quando lê-se declarações veementes e até mesmo agressivas de opiniões que buscam principalmente validar a integridade moral do emissor, mais do que realmente provocar uma mudança concreta.
Muitas vezes, a raiva e indignação expressas são válidas; no entanto, Zizek argumentaa que a mesma é, muitas vezes, "um gesto vazio, mais preocupado em sinalizar virtude do que em realmente provocar uma revolução na realidade concreta".
Parece haver uma obsessão pela imagem e pela performance moral, onde a imagem e a narrativa muitas vezes superam a substância. Essa "hipocondria moral" se torna uma forma de consumo e exibição de um ideal progressista, sem a necessidade de se engajar verdadeiramente na luta política e social que tais ideais demandariam.
Finalizo afirmando que a dança entre decência genuína e narcisismo reflete a ambiguidade de uma sociedade que é simultaneamente ciente de suas injustiças, mas frequentemente paralisada pela própria imagem que deseja projetar.
*Lucas H. Fijoy é amante e estudioso das redes sociais. Mora em Buenos Aires e é correspondente de vários veículos digitais, incluindo o www.facetubes.com.br
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