Sexta, 12 de Junho de 2026
13°C 20°C
Curitiba, PR
Publicidade

Convidado europeu do Facetubes, Marco Neves*, de Portugal, fala sobre "As três revoluções da escrita"

*Este compartilhamento, com autorização do autor, não tem fins lucrativos.

03/09/2023 às 08h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Marco Neves, de Portugal
Compartilhe:
Marco Neves/Portugal
Marco Neves/Portugal

Marco Neves, tradutor e professor. Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Escreve no blogue Certas Palavras.

 

A escrita passou por três grandes transformações. A mais recente está a acontecer agora mesmo.

Continua após a publicidade

 

A escrita levou a humanidade a passar por três revoluções. Foram revoluções lentas, com a possível excepção da terceira, aquela que estamos a viver. Nenhuma delas — diga-se — está terminada.

 

A primeira revolução foi a própria invenção da escrita. Os seres humanos viveram muito tempo com línguas e ainda com a possibilidade de desenhar o mundo (nas paredes das cavernas, por exemplo). A escrita surgiu quando alguém se lembrou de juntar essas duas tradições. 

 

Numa espécie de jogo, um contabilista sumério usa o desenho de uma cana para representar o conceito abstracto de reembolso — pela simples razão de «cana» e «reembolso» se dizerem da mesma maneira em sumério. Está inventada a escrita — uma invenção que terá ocorrido em vários locais do mundo: pelo menos, na Suméria, no Egipto, na China e na Mesoamérica. 

Continua após a publicidade

 

A possibilidade de registar facilmente o que acontece revolucionou a administração dos reinos e impérios e deu-nos a possibilidade de contar histórias aos humanos do futuro. No entanto, a larguíssima maioria da população, nestes últimos 5000 anos, não sabia ler e escrever. Mesmo no Império Romano, poucos liam e só uma minoria ainda mais restrita conseguia ter acesso à possibilidade de escrever.  

 

A segunda revolução foi a explosão — não a invenção, que é mais antiga — da imprensa na Europa e, depois, no mundo, a partir do século XV. De repente, com uma máquina fácil de construir, conseguíamos reproduzir o mesmo texto uma imensidão de vezes. Em vez de laboriosas cópias manuais, a máquina lançava ao mundo livros inteiros em centenas ou milhares de exemplares. Foi a invenção da publicação. Com os séculos, esta revolução levou a leitura a uma grande parte da população, mudando a História para sempre. Quantas revoluções, guerras e invenções não foram alimentadas pelo fogo da escrita...

 

Novo livro de Marco Neves.

Nos últimos 100 anos, vivemos algo inédito: pela primeira vez, mais de metade da população do mundo (com grandes diferenças entre sociedades) sabe ler e escrever. Ora, nas últimas décadas, este facto estatístico, aliado a desenvolvimentos tecnológicos que todos conhecemos, foi a base da terceira revolução: se já temos a tecnologia (a primeira revolução), se já temos a possibilidade de levar a leitura a muitas pessoas (a segunda revolução), agora estamos a entrar num mundo em que todos escrevem. A nossa vida está inundada não só de leitura, mas também de escrita. 

Continua após a publicidade

 

Em vez de termos uma classe de pessoas preparadas intensivamente para escrever — os vários escribas de tantas épocas —, agora todos nós não só sabemos, como precisamos de ler e escrever para viver. 

 

É também por isso que muitos têm a sensação de que hoje todos escrevemos mal — a questão é que todos escrevemos e fazemo-lo continuamente. Ora, escrever é difícil: a invenção é recente e não temos a propensão natural para aprender a escrever como temos para aprender a falar. Essa dificuldade da escrita é bem mais visível hoje do que num mundo em que apenas uns poucos dominavam a arte — e ainda tinham editores e revisores a corrigir e a moldar o texto. Os textos que passam por esses processos são, agora, uma gota no oceano de escrita e leitura em que vivemos. Podemos passar todo um dia em casa a usar as línguas que temos na cabeça — sem abrir a boca! Este facto é banal para nós, mas extraordinário para qualquer pessoa do passado. 

 

Estamos, no fundo, a aprender a viver num novo mundo. Somos animais que falam — e, agora, somos animais que escrevem. 

 

A história mais desenvolvida das três revoluções está no meu livro mais recente: Atlas Histórico da Escrita.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Luzia das OliveirasHá 3 anos Amapá-BrazilPerfeição ortográfica, sem limitações mentais, nem exageros na alegoria da língua. Assim, sim, escreve-se uma boa crônica. Muitos abraços, sr. Neves.
Lilia PontezHá 3 anos Rio Grande do Sul/BrasilParabéns professor Marco Neves por essa esclarecedora maneira de enxergar a nova revolução da escrita.
Luiza MadeiraHá 3 anos BrasilProfessor Marco, sua assertiva é interessante, "...todos nós não só sabemos, como precisamos de ler e escrever para viver". Mas infelizmente alguns setores da nossa política pública brasileira, infelizmente, não entende assim.
Professor JulioHá 3 anos BrasíliaDFANALFABETISMO. Aqui, no Brasil, caro Marco, são quase 10 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever. Mais da metade, vivem no Nordeste e são idosos. Os dados são da PNAD. Os estados com maiores taxas de analfabetismo são Piauí, Alagoas e a Paraíba e atingem pessoas pretas ou pardas. A média nacional é de 7,4%, mais que o dobro da taxa encontrada entre as pessoas brancas. No grupo etário de idosos pretos ou pardos ela chegava a mais de 23% das pessoas.
Manuel Calhares/Nascido em LisboaPTHá 3 anos São Paulo SPEstupendo escrito, senhor Neves.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
14°
Tempo nublado

Mín. 13° Máx. 20°

14° Sensação
1.66km/h Vento
97% Umidade
100% (4.7mm) Chance de chuva
06h59 Nascer do sol
05h34 Pôr do sol
Sáb 17°
Dom 15°
Seg 12° 11°
Ter 18° 10°
Qua ° °
Atualizado às 22h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,01%
Euro
R$ 5,91 +0,14%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 342,942,15 +0,06%
Ibovespa
171,497,23 pts 1.71%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias