As incoerências de alguns grandes editores brasileiros com W.E.B. du Bois, que teve a coragem de destacar, em livro, a heterogeneidade dentro da população negra, desafiando noções existentes de uma população negra monolítica.
W.E.B. du Bois foi um sociólogo, historiador, educador e ativista sociopolítico fundamental que defendeu a igualdade racial imediata para os afro-americanos. Ele nasceu em Massachusetts, nos Estados Unidos, em 1868 e morreu em 1963 em Acra, em Gana. Foi um dos intelectuais mais influentes de seu tempo e um dos fundadores da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), a maior e mais influente organização por direitos civis dos EUA.
O que realmente é inexplicável foi a demora na tradução e publicação de uma de suas importantes obras mundais, pertinente ao assunto, que só veio acontecer no Brasil, um século depois do lançamento da edição original, em 1903, quando Du Bois era professor de história, sociologia e economia da Universidade de Atlanta. (EUA).
No caso, o livro é “O Negro da Filadélfia” de W.E.B., o que torna mais supreendente pelo fato de o Brasil ser o maior país negro, depois do continente africano. Veja: a primeira edição brasileira de “O Negro da Filadélfia”, foi lançada somente em 10 de julho deste 2023.
Fica a pergunta: por que tanta demora?
O LIVRO
E o que diz o livro “O Negro da Filadélfia”? Du Bois realizou um estudo detalhado da comunidade afro-americana na Filadélfia no final do século XIX, usando métodos sociológicos e estatísticos para mapear a vida social, econômica e política dos negros na cidade. Ele desafiou as teorias eugênicas populares da época, explicando que as condições sociais da comunidade negra da Filadélfia, como altas taxas de pobreza e segregação espacial, eram devidas não às características particulares deste grupo racial, mas produzidas por circunstâncias históricas, culturais e estruturais.
A obra não é racista. Pelo contrário, é uma crítica ao racismo e uma tentativa de desafiar as percepções negativas dos afro-americanos na sociedade americana da época. Du Bois argumentou que "o problema negro visto de uma maneira é apenas as velhas questões mundiais de ignorância, pobreza, crime e o desgosto pelo estranho".
Avaliando a obra sociologicamente, “O Negro da Filadélfia” é notável por ser o primeiro estudo sociológico de uma comunidade negra nos Estados Unidos. Du Bois usou métodos quantitativos para coletar dados sobre a população negra da Filadélfia, incluindo ocupações, saúde, educação e vida familiar. Ele também destacou a heterogeneidade dentro da população negra, desafiando noções existentes de uma população negra monolítica.
Evidente que outras obras também são relevantes e também foram lançadas a tempo no Brasil, como “Raça em Outra América: A Significância da Cor da Pele no Brasil”, de Edward Telles, professor de Sociologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que ganhou o Prêmio de Publicação Acadêmica Distinta de 2006 da Associação Sociológica Americana, “Descobrindo um Problema Racial no Brasil”, trabalho que analisa as atitudes predominantes em relação à população multirracial do Brasil, bem como as “Questões raciais na sociedade brasileira”, do The Brazilian Report, que discute como a desigualdade moderna se correlaciona fortemente com a raça no Brasil.
Porém, o livro básico de estudos reais é mesmo "O Negro na Filadélfia". Por isso, essa obra já devia constar dos catálogos pertinentes há muito. Ora, estamos em 2023 e ter a primeira edição brasileira de ‘O Negro da Filadélfia’ de W.E.B. Du Bois em mãos, só agora, é uma experiência bem difícil de ser digerida.
Por um lado, algo muito prazeiroso - assim Ufa! Finalmente...". Por outro lado, ainda tremula o desconforto pela demora na realização desta tradução, especialmente levando em conta a importância do trabalho de Du Bois para compreender as questões raciais e sociais, a partir de um país, cuja convivênc ia racial era muito mais difícil ainda no século passado.
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