
Redação do Facetubes/Departamento de Pesquisas
A imprensa divulgou bastante esta semana o caso do padre Ferdinando Henrique Pavan Rubio, de 41 anos de idade, que serviu como um dos líderes espirituais na Paróquia Santa Luzia, na cidade de Franca/SP, desde janeiro de 2023, mas em setembro, foi afastado de suas funções porque revelou que está prestes a se tornar pai. O assunto tem sido alvo de um silêncio notável na cidade, com as pessoas evitando discutir o tema.
Ele mesmo pediu afastamento por não cumprir o Celibato (uma norma disciplinar de Fé) e agora deve buscar a validação de sua dispensa junto ao Vaticano. De acordo com o Direito Canônico, que regula as normas da Igreja Católica, nenhum padre pode manter relacionamentos amorosos ou se casar. Este episódio destaca a complexidade das questões que envolvem o Celibato e as responsabilidades sacerdotais na Igreja Católica.
Assim, a equipe do Facetubes caiu em campo para desvendar alguns mistérios acerca do Celibato, numa reportagem que contou com muita pesquisa e a ajuda de nossos estagiários que acessaram algumas informações (até parte de encíclicas papais), para trazer um texto de fácil leitura e entendimento.
As novas ferramentas de pesquisa e informação do Facetubes
1 – O CELIBATO IMPEDE O CRESCIMENTO SACERDOTAL DA IGREJA CATÓLICA?
Existem vários fatores que contribuem para a diminuição do número de padres em todo o mundo, e o Celibato pode ser um deles. No entanto, é importante ressaltar que a questão é complexa e não pode ser atribuída a uma única causa.
A regra do Celibato na Igreja Católica, que exige que os sacerdotes permaneçam castos, não é um dogma de fé, mas um regulamento da Igreja.
Alguns padres, como o brasileiro Fábio de Melo, um dos mais famosos sacerdotes católicos da atualidade, já deu entrevistas dizendo que a norma do celibato deveria ser abolida, "por ser algo da Idade Média". De acordo com ele, a Igreja deveria ordenar casados - e manter a possibilidade de Celibato àqueles que quisessem fazer uma "entrega mais radical".
No entanto, também, é importante notar que o número de sacerdotes está diminuindo globalmente em 0,3%, mas houve, no entretanto, um aumento das vocações na África e na Ásia.
"Embora possa haver alguma correlação entre o Celibato e a diminuição do número de padres, é difícil estabelecer uma causa direta sem estudos abrangentes. A questão provavelmente envolve uma combinação de fatores, incluindo mudanças sociais, escolhas pessoais e regulamentos da Igreja", confessa um padre que abandonou a Ordem para efetivar seu casamento.
O CELIBATO
Pelas concepções católicas romanas, o Celibato Sacerdotal é uma forma de consagração a Deus e à Igreja, que implica a renúncia voluntária ao matrimônio e à vida sexual. “Essa escolha não se baseia na desvalorização do amor humano, mas na busca de um amor mais pleno e universal, que se expressa no serviço aos fiéis e na dedicação ao Reino de Deus. O Celibato Sacerdotal não é uma imposição, mas um dom que Deus concede a alguns homens chamados ao ministério ordenado”, dizem os especialistas no assunto, ouvidos pela reportagem, mas que não autorizaram divulgar seus nomes.
Também existem religiosos e religiosas que, mesmo não sendo sacerdotes, fazem votos de castidade, pobreza e obediência, seguindo o exemplo de Cristo. Além disso, há casais que, por motivos espirituais ou pastorais, decidem viver em continência, ou seja, sem ter relações sexuais, mas mantendo o vínculo matrimonial.
2 – DIFERENÇA ENTRE VOCAÇÃO VIRGINAL E CELIBATO SACERDOTAL
Segundo o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, “(...) a vocação virginal é diferente do Celibato Sacerdotal, pois se refere à condição de quem nunca teve relações sexuais e se compromete a permanecer assim por amor a Deus. Essa vocação pode ser vivida por pessoas solteiras ou casadas, desde que haja um consentimento mútuo entre os cônjuges. A virgindade é um sinal de pureza e de fidelidade a Deus, que exige uma vida de oração e de testemunho cristão”.
A ORIGEM DO CELIBATO
A origem do Celibato Sacerdotal remonta aos primeiros séculos do cristianismo, quando alguns padres e bispos optavam por viver em castidade, seguindo o conselho de São Paulo (1 Cor 7,32-35). No entanto, somente no século 12, nos concílios de Latrão I e II, o Celibato se tornou obrigatório para todos os clérigos da Igreja Católica Romana.
Essa medida visava evitar os problemas causados pelo nepotismo, pela herança dos bens eclesiásticos e pela infidelidade dos clérigos. Desde então, o Celibato Sacerdotal tem sido mantido como uma ‘norma disciplinar’ da Igreja, que pode ser modificada em casos excepcionais.
Então, a que o apóstolo Paulo – em carta advertindo Timóteo - exortava quando disse: “A mim tudo é permitido, mas nem tudo me convém. A mim tudo é permitido, mas não me deixarei dominar por coisa alguma”.
Na interpretação lógica, Paulo não estaria admoestando contra a imoralidade sexual e exortando os cristãos a “glorificar Deus em seus corpos???” (1Coríntios 6,20).
E complementa sua carta: ”gostaria que todos fossem como eu. Mas cada um recebe de Deus um dom particular: um este, outro aquele. Digo, pois, aos não-casados e às viúvas, que é bom para eles ficarem assim, como eu. Se, porém, não conseguem dominar-se, casem-se, pois é melhor casar do que arder em desejo” (1Coríntios 7,1-2.7-10).
Em recente entrevista publicada no “L'Osservatore Romano”, o Papa Francisco, sobre o Celibato na Igreja ocidental, explicou: «É uma prescrição temporária... Não é eterna, como a ordenação sacerdotal... O Celibato, ao contrário, é uma disciplina». «Então, poderia ser revisto?», perguntou o entrevistador. «Sim», respondeu o Papa.
Também foi publicada recentemente uma opinião do Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos. Sobre o Celibato. Ele disse: ”recordo a problemática dos abusos, pela qual o celibato está sendo questionado. De algum modo, é preciso responder ou explicar, mas isso seria um estudo que vai além do objetivo do Simpósio. Já disse em outras ocasiões que, para aprofundar as causas dos casos de abusos, o que é muito vergonhoso para a Igreja, precisaremos de um estudo teológico e histórico, o que ainda não foi feito. Os estudos realizados até agora por vários países, como Alemanha, França e Austrália, são mais sociológicos e culturais, mas não tocam no aspecto teológico em profundidade.”.
3 – EM PORTUGAL, PAPA FRANCISCO VOLTOU A TOCAR NO ASSUMTO CELIBATO
Na recente visita do Papa Francisco fez a Portugal, começo deste ano de 2023, durante a Jornada Mundial da Juventude um noviço o perguntou sobre “(...) como podemos sempre cuidar melhor da nossa formação como Jesuítas a nível emocional, sexual e físico?
O Papa Francisco, assim respondeu: “(...) o grave problema diz respeito aos refúgios ocultos da autobusca, que muitas vezes dizem respeito à sexualidade, mas também a outras coisas. O que fazer? Encontro ajuda no exame de consciência, como pedia Santo Inácio. Santo Inácio raramente o dispensava. Ele te dispensou da oração se você estivesse doente, se não pudesse, mas não te dispensou do exame, porque te ajuda a ver o que está acontecendo dentro de você. E há pessoas consagradas que têm o coração exposto aos quatro ventos, com janelas abertas, portas abertas. Em suma, não têm consistência interna (...)”.
E Francisco complementa: “...ao que você pergunta, eu respondo: «Faça uma pergunta a si mesmo: que espírito me move? Qual é o espírito que normalmente me move, e que me move hoje ou me moveu naquele dia?”. Eu não tenho medo da sociedade sexualizada, não; tenho medo dos padrões mundanos. Prefiro usar o termo “mundano” em vez de “sexualizado” porque o termo abrange tudo. Por exemplo, o desejo de se promover. A ansiedade de se destacar ou, como dizemos na Argentina, de “subir”. E pensar que quem sobe acaba se machucando”.
4 - LIVROS QUE FALAM DE CELIBATO
4.1 - Livros direto da Cúria Romana, em pesquisa direta, também foram encontrados:
“Sacerdotalis Caelibatus” - Esta é uma encíclica do Papa Paulo VI, publicada em 1967, que reafirma o valor e a importância do celibato sacerdotal na Igreja Católica. Nesta encíclica, o Papa Paulo VI defende o celibato como uma prática que permite aos sacerdotes se dedicarem totalmente ao serviço de Deus e da Igreja.
“Pastores Dabo Vobis” - Esta é uma exortação apostólica pós-sinodal do Papa João Paulo II, publicada em 1992, sobre a formação de sacerdotes nas situações atuais. Embora o documento abrigue uma variedade de temas relacionados à formação sacerdotal, há cláusulas que tratam especificamente do celibato como um dom e um compromisso para aqueles que são chamados ao sacerdócio.
OUTROS
- "O Dom do Celibato na Vida e na Missão da Igreja", organizado por Luís Henrique Eloy e Silva, “(...) a riqueza do Dom do Celibato compõe o acervo doutrinal inesgotável e de valor perene na vida e na missão da Igreja. As abordagens aqui publicadas retomaram a doutrina tradicional, antiga, porém sempre nova do ponto de vista teológico e canônico, emoldurando outras abordagens que permitem constatar a luminosidade própria da experiência e vivência do Celibato como verdadeiro e fecundo Dom na vida e na missão da Igreja”.
-"Amor e Celibato/Como uma vida sem casamento pode ser bem sucedida"? (de Wunibald Muller). Esse livro causou muita polêmica. A resenha diz que a vida celibatária, que carece de amor e é vivida como uma renúncia ao amor, espalha esterilidade e estreiteza. Pode ser uma expressão da imaturidade humana se for entendida como distância dos semelhantes. Neste volume, Wunibald Müller examina criticamente o celibato compulsório da Igreja Católica e relata suas conversas e encontros com homens e mulheres celibatários. Uma vida conscientemente celibatária só pode ter sucesso por razões religiosas se o encontro com as pessoas apaixonadas não for dificultado, mas promovido.
QUESTÕES ADJUNTAS
ÚNICA: Gerhard Müller, prefeito emérito do antigo Santo Ofício, responde assim a uma pergunta de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 10-10-2019:
Pergunta: Sem o celibato, os abusos sexuais cometidos por padres não diminuiriam?
Resposta: Não, é falso. Isso esconde uma falsa antropologia. Um abuso é uma contradição contra a castidade. Os abusos ocorrem em toda parte, não apenas no sacerdócio. E não devemos esquecer que estatisticamente mais de 80% das vítimas não são crianças, mas adolescentes do sexo masculino. Isso significa que muitos abusos são cometidos por pessoas que não querem respeitar o sexto mandamento. Ninguém deveria ser admitido no sacerdócio se não aceita viver de acordo com os mandamentos de Deus e as exortações de Cristo. Escrevi meu livro para muitos padres bons e fiéis, obrigados a enfrentar acusações por causa de alguns que cometem erros.
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