
Editorial de hoje: 21.03.2027
De Mhario Lincoln, editor-sênior da plataforma do Facetubes
A literatura poética, uma forma de arte milenar, tem enfrentado debates contemporâneos significativos sobre sua relevância e papel na sociedade do século XXI. Enquanto alguns argumentam que a poesia se tornou uma relíquia do passado, inadequada para expressar as complexidades da vida moderna, outros a veem como um meio vital de expressão pessoal e coletiva, capaz de oferecer consolo, inspiração e uma forma de resistência contra as pressões da vida contemporânea.
Entre os defensores da poesia como uma válvula de escape vital para o existencial humano está o pensador contemporâneo Ocean Vuong, poeta, ensaísta, que inspirou o diretor de 'Me Chame pelo Seu Nome', autor da coletânea de poemas "Céu Noturno Crivado de Balas", aclamado pela crítica e vencedor do "Prêmio Whiting" e do "Prêmio T.S. Eliot". Ele argumenta que a poesia oferece uma linguagem única para explorar as nuances da condição humana, permitindo que os indivíduos "articulem suas experiências mais íntimas de maneira que outras formas literárias não conseguem". Em sua obra, ele demonstra como a poesia pode servir como um meio poderoso para "processar trauma, celebrar alegria e questionar as injustiças sociais", provando que a arte poética continua a ser um recurso relevante e transformador, mesmo na Era Digital.
Vale dizer que procurei neste texto rápido para falar sobre o "Dia Internacional da Poesia", sair um pouco da normalidade e me embrenhar mais na poesia do hoje, do século XXI, onde encontrei tanto Ocean Vuong, vietnamita, quando Amanda Gorman, uma poetisa e ativista norte-americana, cujos trabalhos enfocam questões de opressão, feminismo, raça e marginalização, assim como a diáspora africana. Seu principal livro é "The One for Whom Food Is Not Enough" (poesias), de 2015. Aliás, ela ficou ainda mais conhecida após sua apresentação na cerimônia de posse presidencial nos Estados Unidos, em 2021. Pois bem, Gorman argumenta que a poesia "não só sobreviveu como se adaptou e prosperou na era da internet", utilizando novas plataformas para alcançar um público global.
Aqui eu abro parênteses para afirmar categoricamente, sem blasfemas, que a Plataforma do Facetubes (www.facetubes.com.br) ao integrar, no ano passado, a lista de Plataformas Literárias na categoria "Good Job", analisada por uma sociedade sem fins partidários ou lucrativos, onde alcançou o 98o. lugar, numa lista de 100, é, sim, um parâmetro para a nova mentalidade poética nacional. Isto é, o Facetubes acredita que a poesia continua sendo uma ferramenta essencial, capaz de unir pessoas através de fronteiras culturais e linguísticas, destacando sua relevância em um mundo cada vez mais conectado, mas dividido. Por isso o Facetubes é essencialmente virtual.
Porém, da mesma forma como tem pessoas que desfazem e desconhecem a amplitude virtual da plataforma do Facetubes, também não é unanimidade ser a poesia "uma ferramenta essencial para unir pessoas e mundos interiores", como disse certa vez o poeta maranhense Fernando Braga. Contrapondo-se a essa visão de Braga, um crítico da 'relevância da poesia', no século XXI é o teórico cultural Mark Fisher, conhecido pelo seu blog "k-punk", pensador, crítico, teórico cultural, filósofo marxista e professor no Departamento de Cultura Visual em Goldsmiths, Universidade de Londres. Ele, embora não tenha se debruçado exclusivamente sobre a poesia, ofereceu insights sobre a condição cultural contemporânea, sugerindo que a sociedade pós-moderna enfrenta uma "crise de imaginação, onde o passado é constantemente reciclado e a inovação genuína é rara". Mutatis Mutandi (e claro, não só algo com viés lírico), algo como a poesia poderia ser vista "como uma forma de arte que luta para encontrar seu lugar em um mundo saturado de mídia, onde as formas breves e instantâneas de comunicação, como tweets e posts em redes sociais, dominam o discurso público", escreveu Fisher, em minha livre tradução do inglês.
No entanto, mesmo diante algumas ferinas de críticas, a literatura poética não apenas persiste, mas também evoluiu. A emergência de espaços virtuais e comunidades online - repito, como o Facetubes - dedicadas à poesia demonstra sua capacidade de adaptação. No Brasil e fora dele (especialmente), a poesia ganha muito fôlego quando há constantes festivais de poesia, slams e oficinas online. Isso têm criado novos públicos e possibilitado que poetas de diferentes partes do mundo compartilhem suas obras. Desta forma, "(...) esse nosso esforço de levar a lírica para a avenida, desafia a noção de que a poesia é uma arte do passado", disse-me certa vez o poeta e carnavalesco, rio-curitibano, Olinto Simões, já falecido.
Desta forma, embora algumas opiniões sobre a relevância da literatura poética no século XXI ainda existam por diversos fatores, é inegável que ela continua a oferecer um espaço único para a expressão da complexidade, beleza e tragédia da existência humana. Porque - e falo também por mim - é com a poesia que indivíduos de todas as idades e origens encontram uma linguagem comum para explorar emoções profundas, compartilhar experiências e desafiar concepções do mundo, provando que, mesmo em uma era dominada pela tecnologia e pela informação rápida, a necessidade de poesia - como expressão da essência humana - permanece tão forte quanto sempre.
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Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira
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