
A Versatilidade Literária de Ewerton Neto
Convidada Especial: Linda Barros, Professora e Atriz
Dizem que os bons ventos sempre trazem coisas boas, que depois da tempestade vem sempre a calmaria, que com muita paciência chegamos longe e como bem disse William Shakespeare, “a paciência é a mais nobre das virtudes” e completando essa premissa Benjamim Franklin sentenciou “aquele que tiver paciência terá o que deseja”. São com essas premissas como essas que é possível descrever um dos melhores autores da Literatura Maranhense Contemporânea, José Ribamar Ewerton Neto. Autor de uma vasta obra, de voz mansa, passos lentos, mas ritmados, sorriso tímido e discreto, porém muito sincero, Ewerton carrega em si o dom da leveza e da paciência como um verdadeiro andarilho, que caminha nos trilhos de uma imensidão específica.
É sob os acordes macio e suave de Enya, que levamos ao grande público leitor, a obra de Ewerton, que não nos escapa, como um dilema mal traçado. Sua poesia é tão próspera e indispensável como uma gota d`água na imensidão do mar.
Flutua
o dilema
a gota d’água
calma
mergulho:
profundo
o poço
aberto
no corpo
a boca
de quem bebe água
Versos do poema Água texto que está na obra Estátua da Noite livro publicado em 1979. A escolha por tais linhas é para mostrar o tamanho da sensibilidade de um homem dos números. José Ewerton Neto é formado em engenharia metalúrgica pela Universidade Federal Fluminense de Volta Redonda – RJ, onde ficou por 20 anos. Regressando à Cidade dos Azulejos, logo começou a se destacar por seu talento no uso das palavras.
José Ewerton Neto é um escritor que preenche muito bem o berço tradicional de prosadores da Ilha Rebelde. A capital maranhense o recebeu muito bem em seus braços, para onde voltou carregado de bons textos, como o lançamento de O Ofício de Matar, obra premiada em um concurso literário, ganhando elogios do também Imortal José Louzeiro: “trata-se de uma novela densa, de suspense, como se fosse um bom roteiro de cinema”. Vindo da Cidade de Guimarães, terra de Maria Firmina dos Reis, Ewerton em seu percurso caminha por todos os recantos literários. O filho do senhor Juvenal Amorim Ewerton e de dona Teresa de Jesus Martins Ewerton é também membro da Academia Maranhense de Letras, onde ocupa a cadeira de número 11.
Ewerton sempre gostou de ler, desde muito cedo teve paixão pelos livros. Seu primeiro contato com a leitura foi através de A marca do Zorro, como contou certa vez ao jornalista Daniel Matos. Dessa ânsia pela literatura, estreou, em 1978, na antologia Esperando a Missa do galo, coletânea organizada por José Nascimento Moraes. Desde então, não parou mais. O dom e a aptidão pela literatura lhe renderam vários prêmios. Tem em sua carreira uma eclética bagagem, desde a poesia Estátuas da Noite (1979); Cidade Aritmética (1975); com romances e novelas tem O Prazer de Matar (1993); O Menino que via o Além (1996); O Infinito em Minhas Mãos (2009). Vereda também pelo conto, A Morte dos Mamonas assassinas e outros Contos (1998); Ei, Você Conhece Alexander Guaracy? (2007); O entrevistador de Lendas, 2016 e o recém lançado Pequeno Dicionário de Paixões cruzadas, 2020. E como bom maranhense não podia deixar de homenagear nossa quatrocentona cidade, lançou em 2013 ABC Bem-Humorado de São Luís, obra que reúne palavras do cotidiano maranhense.
O prosador, depois de exercer suas funções como engenheiro, continuou seus estudos acadêmicos, fez Pós-Graduação em Língua Portuguesa e Literatura (pela então Faculdade FAMA) e Jornalismo Cultural pela Universidade Federal do Maranhão, o que só contribuiu ainda mais na carreira eclética que assume até hoje. Seus textos são comparados a grandes nomes da Literatura Maranhense como Aluísio Azevedo, Josué Montello, José Louzeiro, Rodrigues Marques, Ubiratan Teixeira, entre outros grandes nomes da prosa contemporânea maranhense.
Como bem disse o também acadêmico José Neres em um dos artigos do livro O Século XX e a Literatura Maranhense, reflexões sobre a Narrativa em Prosa, obra organizada com o também escritor e professor Dino Cavalcante, “Ewerton segue essa linha tênue entre a chamada ficção e a concepção usual de realidade permite ao escritor introduzir em suas obras elementos e situações que às vezes soam estranhas para o leitor pouco acostumado com o universo literário, causando-lhe estranheza e certa sensação de incômodo”. O autor de Negra Rosa e outros Poemas se refere à obra A ânsia do Prazer, livro icônico de Ewerton Neto, onde a obra tem como tema central um assunto que ainda é tabu para a sociedade brasileira: o sexo. O autor traz nessa novela, como personagem principal, G-Dimensión, um objeto adquirido em sexys shop, que tem como “objetivo” consolar o sexo feminino. A obra inteira é um verdadeiro “manual de auto ajuda” para as mulheres.
E no meio de tanta versatilidade, Ewerton Neto nos apresenta Cidade Aritmética, uma obra que passeia por todos os números da matemática, desde o Zero
Um domingo após
o fim do mundo,
o zero que ainda está vivo
Não é o zero do nada
Não é o zero número,
o que só tinha serventia
para o ôco da lógica
ou como farol de cálculos.
É um zero que não se presta
para disfarces de agora.
É o zero de antes e depois
o zero que é tudo, enfim.
Até o Mil, um verdadeiro jogo de palavras com números matemáticos, deixando os leitores embevecidos com a possibilidade de usar a poesia aliada à Matemática, matéria tão temida pela maioria dos estudantes,
O mil é uma palavra
que se disfarça de número
para ser muito além do número
que ronda qualquer palavra
(que lhes cerca a sombra e o nome
a luz e o significado
e lhes prende num sinônimo
e no comprimento do chão)
o mil é uma palavra
que disfarçada de número
finge que se dá tamanho
em vez de vida ou ação
(então quando se acercam
das coisas para contê-las
é no mil que vão buscar
socorro à imaginação)
...
A referida obra é um verdadeiro passeio pelas vertentes matemáticas, que nos encanta e nos enche com seu júbilo poético e metrificado.
E da calmaria como em ondas tranquilas, José Ewerton Neto semeia versatilidade, passando pela poesia, pela prosa e pelos contos, deixando para seus leitores, a mensagem de que, com simplicidade, versatilidade e sapiência, é possível se fazer um mundo melhor e mais justo.
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